Americano abre baú de memórias e resgata arquivo pessoal com fotos raras do Carnaval gay no Rio dos anos 1980
Um relato publicado por um turista norte-americano tem atravessado décadas para reacender uma imagem quase mítica do Rio de Janeiro. É aquele Rio dos anos 1980 que, para muitos estrangeiros gays, parecia um território de liberdade, desejo e descobertas. Hoje, aos 73 anos, ele revisitou fotos e memórias de uma viagem feita em 1983, quando tinha cerca de 30 anos, ajudando a reconstruir um tempo em que a cidade já ocupava um lugar de destaque no imaginário internacional, muito antes de redes sociais ou aplicativos.
Na época, ele e o melhor amigo embarcaram rumo ao desconhecido após encontrarem uma oferta irresistível saindo de Nova York. “Em 1983, meu melhor amigo, Chris Smith, e eu encontramos um pacote de férias em voo charter para o Rio de Janeiro saindo de Nova York pela Pan American Airlines por US$ 399 (cerca de R$ 2 mil na cotação atual) por uma semana inteira”, relembra.
Ele também destaca a diferença de valores ao longo do tempo: o mesmo pacote equivaleria hoje a cerca de US$ 1.325 (aproximadamente R$ 6,6 mil por pessoa). A decisão impulsiva acabou se transformando em uma experiência marcante, daquelas que atravessam décadas sem perder o brilho.
O relato funciona como uma verdadeira cápsula do tempo. Entre praias movimentadas, calor intenso e uma cidade pulsando vida, o turista descreve um Rio onde tudo parecia mais livre e acessível. Décadas depois, o fascínio permanece. “A alegria de viver do povo brasileiro, o clima tropical e as praias paradisíacas ainda exercem um forte fascínio sobre mim”, conta, deixando claro como a cidade seguiu presente em sua trajetória ao longo dos anos.
Durante o Carnaval, a experiência ganhou contornos ainda mais intensos. Ele relembra festas, encontros e uma vida noturna efervescente, incluindo um baile de travestis que marcou sua memória. “Fomos a um animado baile de travestis (...) onde fomos ovacionados pela multidão ao chegarmos”, recorda. Em meio a essa atmosfera de liberdade, ele também viveu romances e encontros com homens locais, reforçando a imagem de um Rio hedonista e magnético aos olhos de quem vinha de fora.
As lembranças também se constroem a partir de detalhes simples, mas profundamente sensoriais. “Ainda consigo ouvir os vendedores na praia gritando ‘Sanduíche natural!’”, escreve, evocando sons, sabores e cenas que ajudaram a eternizar aquela viagem. Pequenos fragmentos que ajudam a desenhar um retrato vívido de uma cidade vibrante, solar e inesquecível.
Ao revisitar essa memória anos depois, o próprio autor também traz uma reflexão mais ampla sobre o Brasil. “Rio sempre foi amigável com turistas gays, enquanto sua atitude em relação à própria população gay tem sido mais complexa”, aponta. Ao mesmo tempo em que cita avanços e marcos importantes, como a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, ele lembra que o país já registrou números alarmantes de violência contra pessoas LGBTQ+. Entre nostalgia e consciência, o relato revela o contraste entre o paraíso vivido por quem vinha de fora e a realidade de quem sempre esteve aqui.
