Amcham quer reforçar diplomacia comercial

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Fonte da notícia: Valor Valor

Abrão Neto: impacto de tarifas é desigual e concentrado em bens industriais Divulgação A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) tem ampliado sua atuação na tentativa de destravar o comércio entre Brasil e Estados Unidos diante da escalada tarifária promovida pelo governo Donald Trump. Presidente da entidade desde 2023, Abrão Neto vem mantendo interlocução permanente com autoridades dos dois países para evitar escaladas na retórica e atenuar divergências entre Washington e Brasília. “Nossa principal resposta tem sido o reforço da diplomacia comercial”, diz Abrão Neto, que tem amplo conhecimento nesse tipo de negociação. Entre 2016 e 2018, ele foi secretário de Comércio Exterior no Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). Antes, de 2013 a 2016, foi diretor de negociações internacionais e desempenhou outras funções no governo federal. O executivo afirma que “há muito interesse no setor empresarial em fortalecer a relação bilateral” e que cabe à entidade - que agrega cerca de 4 mil empresas, representativas de aproximadamente um terço do PIB brasileiro - dar maior visibilidade às oportunidades e transformar esse interesse em mais comércio e investimentos. Abrão Neto avalia, porém, que o cenário é adverso. Quase metade das exportações brasileiras está sujeita a sobretaxas nos EUA, com efeitos fortemente concentrados na indústria. As vendas dos produtos sob tarifas mais elevadas caíram 29% no ano até agosto. No agregado, lembra o executivo, o Brasil enfrenta hoje “uma das maiores tarifas médias para acessar o mercado americano, atrás apenas da China”. Para 26% das exportações brasileiras, a alíquota adicional chega a 37,5%. Ele vê espaço para expansão em setores como energia, data centers e minerais críticos, mas também alerta para os efeitos da instabilidade no Oriente Médio. Um conflito prolongado pode elevar custos de energia, fertilizantes, transporte e seguros, pressionando inflação e crescimento. “Quanto mais longo o conflito, maior também a incerteza para decisões de investimento”, afirma. A seguir, veja os principais trechos da entrevista de Abrão Neto ao Valor, após participação dele no Fórum Agenda Global 2026, em Nova York. Valor: O comércio global tem sido golpeado nos últimos meses por perturbações que vão de guerras à onda tarifária causada pelo governo de Donald Trump. Quais ações a Amcham tem tomado para mitigar os entraves tarifários no comércio entre Brasil e Estados Unidos? Abrão Neto: Nossa principal resposta tem sido reforçar a diplomacia comercial, buscando contribuir para um entendimento entre os dois governos que permita reduzir as tarifas e ampliar a agenda de cooperação econômica. Estamos mantendo interlocução permanente com autoridades dos dois países e ampliamos nossa presença em Washington, inclusive com a contratação de uma representante nos Estados Unidos. Também participamos das consultas do USTR e temos coordenado propostas com a U.S. Chamber e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) que possam contribuir para as negociações. Ao mesmo tempo, apoiamos as empresas que fazem negócios entre os dois países e promovemos oportunidades em áreas de interesse comum, como energia, infraestrutura digital e minerais críticos. Há muito interesse no setor empresarial em fortalecer a relação bilateral e nosso papel é ajudar a dar maior visibilidade às oportunidades existentes e a transformar esse interesse em mais comércio e investimentos. Há muito interesse em fortalecer a relação bilateral [Brasil-EUA]” Valor: Quais os setores são menos e mais afetados por esse novo cenário de tarifas? Abrão Neto: Atualmente, quase metade das exportações brasileiras está sujeita a sobretaxas nos Estados Unidos, com forte concentração no setor industrial. Entre os segmentos mais afetados estão equipamentos elétricos, máquinas, madeira, granitos, calçados e aço. No agregado, as exportações dos produtos sujeitos às tarifas mais elevadas caíram 29% no ano até agosto. Por outro lado, setores como aeronáutico, carnes, café, suco de laranja, celulose e frutas estão hoje isentos das sobretaxas. O impacto, portanto, é desigual e concentrado em bens industriais. Valor: Considerando que as tarifas afetam também concorrentes do Brasil, há produtos e setores que, paradoxalmente, podem ser favorecidos. Quais seriam esses setores? Abrão Neto: Há setores, como aço, alumínio e autopeças, nos quais as tarifas são aplicadas em um mesmo patamar a todos as origens, inclusive o Brasil. Em outros, há diferenças relevantes entre países. No agregado, o Brasil enfrenta hoje uma das maiores tarifas médias para acessar o mercado americano, atrás apenas da China, sendo que para 26% das exportações brasileiras a alíquota adicional é de até 37,5%. Valor: Quais são as expectativas de expansão do comércio com os Estados Unidos? Onde estão os setores nos quais a Amcham vê mais oportunidades e complementaridades? Abrão Neto: Vemos oportunidades importantes em energia, infraestrutura digital e data centers, minerais críticos, tecnologia e serviços. São áreas em que Brasil e Estados Unidos têm capacidades complementares e grande espaço para ampliar comércio e investimentos. Um entendimento entre os dois governos ajudaria a alavancar essas oportunidades no curto prazo. Em algumas dessas áreas, o Brasil acaba de aprovar novos e importantes marcos regulatórios para atrair investimentos, o que torna este um momento especialmente favorável para avançar. Valor: Que efeitos a guerra entre EUA e Irã tem sobre o comércio de Washington com o Brasil? Abrão Neto: A instabilidade no Oriente Médio e as restrições no Estreito de Ormuz expuseram a vulnerabilidade das cadeias globais, com efeitos sobre o comércio bilateral principalmente por meio dos preços de commodities, como petróleo e derivados. Para o Brasil, um exemplo é a ureia [matéria-prima de fertilizantes nitrogenados]: em 2025, cerca de 36% das importações vieram de países do Golfo afetados pela interrupção da rota. Esse cenário reforça a importância de diversificar fornecedores e construir cadeias mais resilientes, além de ampliar a cooperação entre Brasil e EUA em energia, fertilizantes e insumos agrícolas. O conflito também colocou em evidência a segurança alimentar: como dois dos maiores produtores de alimentos do mundo, Brasil e Estados Unidos têm espaço para aprofundar a cooperação nessa área. Valor: Há cenários traçados pela Câmara para uma guerra mais longa no Oriente Médio? Que efeitos são mais temidos? Abrão Neto: Um eventual prolongamento do conflito aumentaria os riscos para oferta e preços de energia e fertilizantes, além de custos de transporte e seguros. O Estreito de Ormuz é uma importante artéria do comércio global, movimentando cerca de 35% do trânsito mundial de ureia e mais de 25% de amônia. Isso representa um risco relevante para o agronegócio brasileiro. Há também riscos macroeconômicos. Energia, fertilizantes e transporte mais caros pressionam inflação e crescimento no mundo. Quanto mais longo o conflito, maior também a incerteza para decisões de investimento.

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