Ambiente digital recompensa e exalta a violência entre adolescentes, alerta especialista
Não é de hoje que a violência faz parte da sociedade como espetáculo. Parcela da culpa, dizem especialistas, recai à cobertura na mídia e aos programas televisivos. Porém, o mundo digital tem adicionado uma camada ao sistema. Para além de reproduzir e ampliar o alcance da violência, ele também pode estimular.
O alerta é da educadora, pesquisadora e escritora Carolina Delboni, autora de livros sobre adolescência, em entrevista ao Estúdio CBN. Segundo ela, a lógica das plataformas transforma conflito em engajamento e capital social -- especialmente entre jovens.
“O digital além de amplificar a violência, também faz algo que a gente não tem no ambiente físico, que é recompensá-la. O adolescente é exaltado por um grupo, ganha status social, pertence a um grupo — e pertencimento é uma das maiores buscas nessa fase da vida”, disse.
Parra Delboni, esse padrão de comportamento -- apesar de cruel -- não surpreende. Muito porque esses adolescentes crescem circulados por programas de entretenimento baseados em conflito, discussões e humilhação pública, além de cenas violentas no noticiário e nas redes. Nas palavras da especialista, é passa-se por um processo de dessensibilização.
Esse cenário, segundo Delboni, -pode acarretar efeitos diretos para a saúde mental, como o crescimento de quadros de ansiedade, depressão e desesperança, até mesmo a automutilação.
No campo educacional, a especialista defende trocar a lógica de punição pela de responsabilidade e consequência.
“Eu não gosto da palavra punição. Eu prefiro responsabilidade e consequência. A consequência precisa estar ligada ao ato e precisa ser educativa. Punir, muitas vezes, só repete a própria violência e não produz mudança real”, afirmou.
Para ela, escolas devem trabalhar o impacto dos atos no coletivo e ajudar o jovem a compreender o efeito de suas atitudes.
Sobre o papel de famílias e governos, Delboni defende regras mais rígidas para crianças e uma transição para educação digital na adolescência. Ela apoia restrições de acesso às redes para os mais novos e diz que, para os mais velhos, o caminho é construir repertório crítico e combinado de uso.
O ponto central, reforça, é a presença ativa de adultos: com diálogo, limites claros e disposição para sustentar o desconforto necessário ao amadurecimento emocional.
