Amargor do ‘quase’ na apuração e nas quadras da Beija-Flor, Vila Isabel e Salgueiro

 

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Um ano após a vitória no carnaval carioca, com enredo sobre o bamba Laíla, a Beija-Flor amarga um vice-campeonato. Nesta terça-feira, em protesto, a direção da escola de samba silenciou e decidiu fechar a quadra, em Nilópolis, na Baixada Fluminense, depois da divulgação do resultado da apuração. A sede da escola foi esvaziada após a Viradouro se sagrar campeã e, diferentemente de outros carnavais, não houve pronunciamento da direção no palco. A azul e branco recebeu duas notas 9,9 no quesito alegorias e adereços — o que pode ser atribuído ao carro abre-alas, que teve o topo danificado ao passar sob um viaduto.

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Segundo integrantes da escola, a orientação era clara: pedir que os torcedores deixassem o local para que a quadra fosse fechada o quanto antes. O clima era de frustração e revolta. Muitos não aceitaram o resultado e deixaram o espaço inconformados. Entre lágrimas e olhares indignados, as críticas às notas dos jurados prevaleciam.

— Isso é injusto. A gente fez desfile de campeã — reclamava uma integrante da ala das baianas, ainda aborrecida com o resultado.

Um ritmista segurando seu instrumento, do qual em nenhum momento tirou som, fez coro com as reclamações ouvidas:

— Penalizaram a gente em quesito que não tinha erro. É difícil engolir.

A bateria de Mestre Rodney, que havia sido exaltada durante a apuração, não tocou em nenhum momento após o anúncio final. Não houve repique, surdo ou tamborim marcando resistência. O silêncio tomou conta do local. E depois, o vazio.

Passados o clamor e o clima de fair play, reclamações surgiam em conversas paralelas de dirigentes e integrantes de escolas que ficaram no “quase”. Beija-Flor e Vila Isabel fizeram os mesmos 269,9 pontos e ficaram a apenas um décimo da vitória. Já o Salgueiro, quarto colocado, alcançou 269,7. O fato é que quem acompanhou os desfiles assistiu a um espetáculo exuberante, em que o campeão poderia ser definido por detalhes — como aconteceu.

Desabafo

Essa constatação não foi suficiente para afastar o inconformismo. “A gente vive dizendo que tem que cortar jurado, cortar jurado... Mas eles não atendem”, disse Moises Carvalho, diretor de carnaval da Vila Isabel, ao conversar com integrantes da escola que ficou em terceiro lugar.

A quadra da Vila Isabel durante apuração dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial no carnaval 2026

Fabiano Rocha / Agência O Globo

Ao ser questionado logo depois do desabafo, ele tentou minimizar. A agremiação, que defendeu enredo sobre o histórico compositor e pintor Heitor dos Prazeres, “Macumbebê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África”, perdeu pontos no quesito harmonia.

— Está tudo bem com o resultado. Você publica o que quiser — zangou-se o diretor, ao saber que tinha sido ouvido.

Na internet, torcedores do Salgueiro reclamaram, sugerindo que “a caneta pesa mais forte” nas avaliações da agremiação, que perdeu pontos em dois quesitos: samba-enredo e alegorias e adereços. Os comentários foram feitos sobre uma foto do carnavalesco Jorge Silveira com o troféu de quarto lugar e a legenda econômica: “Sábado tem Rosa de novo”, em alusão ao enredo dedicado à saudosa carnavalesca Rosa Magalhães.

Na véspera da apuração, e antes mesmo de desfilar, a direção do Salgueiro publicou nas redes sociais uma nota, em que afirma ter “plena confiança na realização de julgamentos justos”, o que gerou a interpretação de que poderia haver ruído entre a escola e o júri.

Ontem, o presidente do Salgueiro, André Vaz, negou que o manifesto lançado antes do desfile da escola tenha sido um protesto.

— Não tem nada demais. A gente tem confiança na gestão do presidente Gabriel David e na lisura da condução da Liesa. O desfile foi maravilhoso e manteremos essa posição — disse Vaz.