Alvo da Polícia Federal por suspeita de tráfico de influência no governo federal, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem 18 registros de entrada no Palácio do Planalto entre junho de 2023 e janeiro de 2025.
O GLOBO obteve acesso aos dados por meio de um pedido feito com base na Lei de Acesso à Informação.
Após ser informada das datas das visitas, a reportagem solicitou os locais acessados por Lulinha em cada uma delas, mas o Palácio do Planalto não informou.
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que representa Lulinha, disse que ele foi visitar o pai no Palácio do Planalto:
— Qual é o problema? Ele nunca tratou de nenhum tema nem participou de nenhuma reunião.
Nada mais natural e saudável do que um filho visitar o pai.
A Polícia Federal investiga suspeitas envolvendo a relação de Lulinha com a empresária Roberta Luchsinger e com o ex-chefe de gabinete do petista Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.
Inquéritos abertos no Supremo Tribunal Federal (STF) apuram se houve tráfico de influência em órgãos do governo.
Roberta é apontada nas investigações como lobista.
Ela é dona da RL Consultoria e Intermediações, aberta em 2019 e sediada no apartamento onde mora, no bairro de Higienópolis, em São Paulo.
Um dos contratos fechados por sua empresa foi com o empresário Antônio Carlos Antunes, o “Careca do INSS”, preso pela PF sob suspeita de desviar recursos de aposentadorias e pensões do INSS.
A empresária recebeu R$ 1,5 milhão de Antunes em cinco parcelas de R$ 300 mil, de acordo com a investigação.
O trabalho previa viabilizar a venda de canabidiol ao Ministério da Saúde por uma empresa pertencente a Antunes, a World Cannabis, para que fosse disponibilizado no SUS.
O negócio, contudo, não prosperou.
Como revelou O GLOBO, uma mensagem de WhatsApp encontrada pela Polícia Federal mostra que Marcola, então chefe de gabinete de Lula, recebeu uma minuta de contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, com dispensa de licitação.
O documento foi enviado por Roberta, que é amiga de Lulinha.
Naquela época, ela tentava fazer negócio com a pasta, o que não ocorreu, em meio à eclosão do escândalo dos descontos indevidos no INSS.
Marcola confirmou a interlocutores que recebeu o material, mas disse que não o encaminhou.
A defesa da empresária afirmou que o processo está sob sigilo e não vai se manifestar.
A mensagem enviada por Roberta a Marcola consta em uma das investigações envolvendo a empresária e o filho do presidente que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF).
Lulinha é investigado em três inquéritos por suspeita de tráfico de influência no governo.
Uma das linhas seguidas pelos investigadores é a relação dele com a lobista.
Mensagens também em poder da PF mostram que os dois tratavam de negócios: em um dos diálogos, Roberta diz a Lulinha que os dois trabalham em “outro nível” e que o futuro deles é a Suíça.
Os dois negam ter praticado qualquer irregularidade.
Em outra mensagem enviada ao filho do presidente, Roberta cita um incômodo de Marcola com “Fernando”, que, de acordo com as investigações, é Fernando Bittar, ex-sócio do filho do presidente.
“Marcola não quer.
Ele tá incomodado.
Falou para gente almoçar com Berger e ele sem Fefe.
Porque ele não quer mesmo”, escreve Roberta, ao que Lulinha responde: “Isso….
Já é o terceiro almoço que eu tenho com ele e ele pede pra ser só entre nós.”
A PF também descobriu que Roberta comprou duas joias que Marcola pediu para presentear familiares no Dia das Mães de 2024, conforme revelou Lauro Jardim.
A investigação aponta que o ex-assessor enviou por WhatsApp a foto do modelo das peças, e Roberta pagou a fatura de R$ 9,2 mil.
Ao longo de 2024, segundo o colunista, a empresária transferiu a ele um total de R$ 217 mil entre transferências bancárias, pagamentos de boletos e presentes.
Procurada, a defesa do filho do presidente disse que “reafirma sua confiança nas instâncias formais e adequadas de apuração dos fatos e se manifestará nos autos em momento adequado, somente após o acesso integral aos dados obtidos pelas quebras de sigilo”.
Os advogados pontuaram ainda que solicitarão, “uma vez mais, rígidas apurações da nefasta instrumentalização de parte das nossas instituições por interesses políticos e eleitorais”.
Quem é Roberta Luchsinger
Próxima de integrantes do PT de São Paulo e herdeira de um banqueiro suíço, a empresária foi candidata a deputada estadual em 2018, mas não se elegeu.
Roberta é sócia da RL Consultoria e Intermediações, empresa aberta em 2019 e sediada em São Paulo.
A atividade registrada é a “intermediação e agenciamento de serviços e negócios em geral”, conforme informações da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp).
A empresa está sediada no apartamento onde ela mora em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, local onde a PF cumpriu mandados de busca e apreensão no fim do ano passado no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura supostas fraudes no INSS.
Investigações da PF apontam que Roberta se apresentava como “pessoa com acesso a estruturas de poder capazes de influenciar decisões de natureza política” e faria parte do “núcleo político” do grupo comandado por Antunes.
“Sua atuação se revela essencial para a ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de contas bancárias e estruturas empresariais utilizadas como instrumentos da lavagem de capitais”, diz decisão do ministro do STF André Mendonça, ao autorizar a operação.
De acordo com registros obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, Roberta visitou oito vezes o Palácio do Planalto e realizou ao menos 32 visitas a gabinetes dos ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Social, entre outros órgãos públicos, no período de 2023 a 2025.
Em depoimento à Polícia Federal, em maio deste ano, Roberta afirmou que foi ela quem apresentou Lulinha a Antunes.
Ela, no entanto, negou ter repassado dinheiro ao filho do presidente e disse que os pagamentos que recebeu do lobista se referiam ao trabalho de consultoria.
Em uma das transferências, Antunes informou a um interlocutor que o dinheiro era destinado ao “filho do rapaz”, possivelmente em referência a Lulinha, segundo a PF.
Veja a relação de entradas de Lulinha no Planalto:
01/06/2023 — 09:18
30/08/2023 — 11:28
30/08/2023 — 14:18
14/09/2023 — 15:00
17/01/2024 — 16:48
31/01/2024 — 15:20
07/03/2024 — 14:50
20/03/2024 — 12:00
20/03/2024 — 14:33
10/04/2024 — 12:21
10/04/2024 — 14:57
30/04/2024 — 16:35
07/08/2024 — 14:37
07/08/2024 — 18:37
27/09/2024 — 14:49
16/10/2024 — 09:56
30/01/2025 — 10:33
31/01/2025 — 14:42
Alvo da PF por suspeita de tráfico de influência, Lulinha tem 18 registros de entrada no Planalto em um ano e meio
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