Alta do petróleo reduz impacto da guerra no câmbio e na Bolsa brasileira: veja os indicadores em março

 

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A guerra desencadeada no Oriente Médio pelos governos dos EUA e Israel com ataques ao Irã provocou abalos nos indicadores econômicos no Brasil e no mundo em março.

O acirramento dia após dia das tensões na região que concentra a maior produção de petróleo do planeta deixaram o terceiro mês do ano marcado pela volatilidade dos mercados e muita incerteza. Mas o impacto na cotação das commodites, particularmente o petróleo (do qual o Brasil é grande produtor), reduziu o impacto no mercado financeiro brasileiro, apontam analistas.

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Se nos dois primeiros meses do ano o câmbio por aqui registrou desvalorização de 6,5% do dólar frente ao real e a Bolsa acumulou avanço de mais de 17%, março terminou ontem com ligeira perda para a moeda brasileira e para o Ibovespa, com maior pressão no mercado de juros futuros, que estimam a taxa básica de juros (Selic) e a inflação nos próximos anos.

No mês, o dólar chegou a voltar a casa dos R$ 5,30, mas, diante da suavização do tom bélico de Donald Trump hoje, a moeda americana, que finalizou fevereiro valendo os R$ 5,12 no Brasil, encerrou a terça-feira cotada a R$ 5,19.

Com o movimento, o dólar frente ao real registrou valorização de apenas 0,9%, muito menos do que na comparação com pares da moeda brasileira em mercados emergentes em meio à turbulência global. O rand da África do Sul, por exemplo, desvalorizou 6%, e o peso mexicano, caiu quase 4% na comparação com a moeda americana.

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— O Brasil é um exportador da commodity. Esse ambiente de elevação do preço melhora os termos de troca e, por sua vez, ajuda a sustentar nossa moeda. Isso sugere uma melhora para o nosso patamar de equilíbrio do câmbio — diz Felipe Sichel, economista-chefe da Porto Asset.

A visão é semelhante a do Bank of America. Em relatório, o banco americano afirmou que, para além da alta correlação da moeda à commodity, o atual patamar da Taxa Selic, em 14,75%, favorece o ingresso de estrangeiros para a operação conhecida como carry trade: toma-se dinheiro em economias com juros baixos e aplica em outras de juro restritivo, caso brasileiro.

Frente a moedas fortes, o dólar também registrou valorização: o iene japonês perdeu 1,7% em março, e o euro desvalorizou 2,2%.

Impacto do petróleo nos juros futuros

Com o conflito entre EUA, Israel e Irã completando um mês, o preço internacional do petróleo disparou, com avanço da ordem de 50%, da casa dos US$ 72 para acima dos US$ 100 o barril. E a principal pressão global recaiu sobre os juros futuros.

Com o Estreito de Ormuz bloqueado pelo Irã, interrompendo 20% do fluxo global da commodity, o aumento dos preços do barril refletiu a incerteza quanto à duração do conflito e o respectivo impacto na oferta de petróleo em todo o mundo.

O impacto em toda a cadeia de suprimentos elevou o preço de combustíveis e insumos para a manufatura, que tende a implicar em aumento de preços, avalia Jerson Zanlorenzi, responsável pela mesa de ações do BTG Pactual.

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— O petróleo é a grande matriz energética do mundo, seja na logística, seja porque é matéria-prima. Quando você tem aumento, implica que o aumento de preços vai ser desdobrado para toda a cadeia de produção, como logística e reposição de produtos. Com mais inflação no mundo, você corre o risco de atrapalhar os planos de bancos centrais de reduzir juros.

Por aqui, as previsões no fim de fevereiro eram de que o juro terminasse o ano em 12%. Essa estimativa foi revisada dia a dia, chegando a pressionar fortemente o mercado de títulos.

O Tesouro precisou realizar a maior intervenção nominal da história em recompras, de R$ 47,4 bilhões, a fim de acalmar o mercado. Ontem, com a leve redução do temor de que o conflito se prolongue, o mercado agora prevê a Selic alcançando os 13,75% em dezembro.

Bolsa ainda no azul

O Ibovespa, principal índice da Bolsa de São Paulo, a B3, também registrou volatilidade. Interrompeu a fase de recordes sucessivos do início do ano, mas encerrou março com perda de apenas 0,7%.

Ontem, o índice valorizou 2,71%, aos 187.462 pontos. No ano, o Ibovespa ainda acumula valorização de 16,3%, na contramão de outros países emergentes, que sentiram mais.

— Commodities para cima, normalmente, é muito bom para o Brasil. Como Petrobras e Vale têm um peso gigante no índice, temos resiliência para o índice como um todo — disse Zanlorenzi, do BTG. Ele afirma que, em momentos de tensão, os investidores globais buscam por empresas ligadas à commodities e ativos de valor para a economia, reduzindo posições, por exemplo, em tecnologia.

Como a Bolsa brasileira possui bons nomes nesses setores, houve ingresso de estrangeiros apesar do conflito. Até a última sexta-feira, o investidor internacional já aportou R$ 50,5 bilhões no mercado acionário brasileiro. O movimento chamou a atenção do banco americano JP Morgan, que considerou o fluxo “extraordinário” apesar do conflito.

A tese de que a Taxa Selic possa continuar seu ciclo de flexibilização após o fim do conflito também contribui com o apetite à Bolsa local. Empresas tendem a diminuir o endividamento e, com o crédito mais barato, tendem a aumentar seu faturamento.

— Isso é música para a renda variável — diz Zanlorenzi.

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As petrolíferas acumulam valorização expressiva no ano. Os papéis preferenciais da Petrobras (PN, sem voto) subiram 23% no mês, e 57% no ano. A Prio sobe 60%, 21% só neste mês. Ligada à tese de economia real, a mineradora Vale registra alta de quase 15% no ano.

A taxa de juros restritiva contribuiu para deixar tradicionais aplicações no topo do rendimento no mês do conflito. O CDB rendeu pouco mais de 1%, enquanto a poupança rendeu 0,67%. As aplicações atreladas à Taxa Selic renderam 1,16%.

O ouro, que vinha registrando alta firme no ano passado por conta da perspectiva de queda de juros, inverteu o sinal e fechou o mês de março com desvalorização de 7,8%. A cripto mais tradicional, o bitcoin, ensaiou recuperação de 3,8%, em detrimento a uma queda de mais de 20% nos três primeiros meses do ano.