Alphabet, dona do Google, planeja emitir títulos de 100 anos, o primeiro do tipo no setor desde a bolha de internet
A Alphabet, controladora do Google, planeja vender um raríssimo título de dívida com vencimento em 100 anos como parte de uma megacaptação, na primeira emissão desse tipo por uma empresa de tecnologia desde o fim da década de 1990.
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O título de 100 anos será denominado em libras esterlinas, juntamente com outras quatro tranches na mesma moeda, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto. A operação, que marca a estreia da Alphabet no mercado de títulos em libras, pode ser precificada já nesta terça-feira, acrescentou a fonte, que pediu anonimato.
Trata-se da primeira emissão com uma maturidade tão extrema por uma empresa de tecnologia desde que a Motorola vendeu esse tipo de dívida em 1997, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. O mercado de títulos centenários é dominado por governos e instituições como universidades. Para empresas, potenciais aquisições, modelos de negócio que ficam obsoletos e a rápida obsolescência tecnológica tornam esse tipo de operação uma raridade.
Ainda assim, dado o enorme volume de dívida que as empresas de tecnologia precisam captar para se manter à frente na corrida pela construção de capacidades em inteligência artificial, até mesmo operações ultrarraras estão voltando a aparecer.
— Eles querem acessar todo tipo possível de investidor, desde o investidor de finanças estruturadas até o investidor de prazos superlongos — disse Gordon Kerr, estrategista macroeconômico europeu da KBRA.
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O mandato do título de 100 anos da Alphabet vem acompanhado de uma venda multitranches no mercado de dólares americanos. A gigante de tecnologia iniciou anteriormente a divulgação de uma operação em sete partes, que deve ser precificada ainda hoje. A empresa também planeja levantar recursos com notas inéditas denominadas em francos suíços, segundo outra fonte familiarizada com o assunto.
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O principal comprador do título de 100 anos seriam seguradoras e fundos de pensão e, segundo ele, “quem estrutura a operação provavelmente não será a mesma pessoa que estará lá quando o título for pago”.
A forte demanda de fundos de pensão e seguradoras do Reino Unido transformou o mercado em libras esterlinas em um destino preferencial para emissores que buscam financiamento de prazos mais longos. Ainda assim, excluindo emissores governamentais, apenas a Électricité de France, a Universidade de Oxford e a fundação beneficente Wellcome Trust Ltd emitiram anteriormente títulos de 100 anos nessa moeda, com base em dados compilados pela Bloomberg.
Todos esses títulos foram emitidos em 2021, um ano em que os rendimentos dos títulos de alta qualidade em libras atingiram o menor nível já registrado, segundo índices da Bloomberg. Devido à sua duração muito elevada — termo usado no jargão do mercado para a sensibilidade do preço a mudanças nas taxas de juros —, todos eles são negociados bem abaixo do valor de face.
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A emissão com o menor cupom entre as três, do Wellcome Trust, é indicada a 44,6 pence por libra, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. Os preços dos títulos se movem de forma inversa aos rendimentos.
E nem todos os títulos superlongos estão destinados a sobreviver. A varejista em dificuldades J.C. Penney entrou com pedido de recuperação judicial em 2020, apenas 23 anos depois de emitir um título centenário.
A Alphabet acessou o mercado de títulos dos EUA pela última vez em novembro, quando captou US$ 17,5 bilhões em uma operação que atraiu cerca de US$ 90 bilhões em ordens. Como parte dessa transação, vendeu um título com vencimento em 50 anos — a oferta de título corporativo de tecnologia mais longa em dólares americanos no ano passado, segundo dados compilados pela Bloomberg — que se valorizou no mercado secundário. Na ocasião, a empresa também vendeu € 6,5 bilhões (US$ 7,7 bilhões) em títulos na Europa.
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A megacaptação de dívida ocorre menos de uma semana depois de a Alphabet afirmar que seus investimentos de capital chegarão a até US$ 185 bilhões neste ano — o dobro do que gastou no ano passado — para financiar suas ambições em inteligência artificial.
Outras empresas de tecnologia, incluindo Meta e Microsoft, também anunciaram enormes planos de gastos para 2026, enquanto o Morgan Stanley espera que os empréstimos das gigantes de computação em nuvem conhecidas como hyperscalers alcancem US$ 400 bilhões neste ano, acima dos US$ 165 bilhões em 2025.
Ainda assim, a emissão de títulos de 100 anos provavelmente continuará sendo uma raridade.
— É difícil dizer se isso é algo que vai se tornar comum — disse Kerr, da KBRA. — Nem mesmo no mercado de títulos do Tesouro isso é realmente comum.
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