'Aliança de paz', 'dia histórico', preservação de vidas: as mensagens que comprovam a trégua na guerra entre CV e PCC
A investigação que baseou a Operação Contenção Red Legacy — ação realizada nesta quarta-feira, ocasião em que o vereador Salvino Oliveira (PSD) e seis policiais militares foram presos — identificou conversas que, de acordo com a Polícia Civil do Rio, comprovam o alinhamento entre o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). As duas maiores facções criminosas do país selaram um acordo de paz, de acordo com mensagens de comunicados divulgados em fevereiro do ano passado.
Ex-secretário: Vereador Salvino Oliveira é preso suspeito de negociar com traficante Doca, do CV, autorização para campanha eleitoral na Gardênia Azul
Saiba quem é Salvino Oliveira, vereador do PSD preso suspeito de negociar com traficante Doca, do Comando Vermelho
Trechos de mensagens mostram textos que teriam sido escritos por Edgar Alves Andrade, o Doca, um dos principais chefes do CV no Rio — dominando áreas como os complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte carioca — e uma liderança do PCC, que não teve o nome divulgado. Nas conversas, a polícia aponta que o contato "Deus é Fiel" é o de Doca, enquanto o nomeado como "São Paulo", diz respeito ao chefe do PCC. Essas conversas foram divulgadas primeiramente pelo blog do jornalista Ancelmo Gois, do GLOBO.
Troca de mensagens entre CV e PCC
Reprodução
Em 14 de fevereiro de 2025, "São Paulo" enviou um texto detalhando o acordo, para encerrar "guerra sangrenta" que só beneficiou os "algozes" das duas facções. "Deixamos todos cientes que, de fato, o Primeiro Comando e o Comando Vermelho está à (sic) uns dias fazendo grandes esforços em busca da paz", diz a mensagem, que menciona que "pessoas inocentes estão sendo executadas por pura banalidade, o que é inadmissível", o que contrariaria a "ideologia de ambas as siglas".
Disputa política: Prisão de ex-secretários por supostas ligações com o Comando Vermelho acirra disputa entre Paes e Castro
Onze dias depois, um novo "comunicado geral" foi divulgado, desta vez confirmando que o acordo de paz teria sido firmado entre PCC e CV, iniciativa destacada pela frase "o crime fortalece o crime". "Frisamos que o que, de fato, mais pesou, sem dúvida alguma, foi o bem mais que se chama vida, vidas essas de gerações presentes e futuras que serão preservadas", justifica o texto enviado por São Paulo em 25 de fevereiro de 2025. "Deixamos todos cientes que, a partir da data de 25/02/2025, data essa histórica, o CV e o PCC estão colocando fim a esta guerra, e refazendo uma nova aliança de paz, justiça, liberdade, lealdade e fraternidade", destaca a mensagem.
Após os comunicados, assinados por "CV e PCC", "São Paulo" pediu para "Deus é Fiel" ligar para ele. Em seguida, a liderança do PCC se disse "sem palavras" e comemorou o que definiu como "dia histórico". As mensagens foram respondidas em áudio pelo contato que seria de Doca: "É nóis, meu irmão, tamo juntão".
Conversa entre líderes do CV e do PCC mostram acordo para encerrar mortes e estabelecer união
Reprodução
'Quem estiver errado, que pague': Na véspera de ser preso, vereador fez discurso criticando ligações de políticos com o CV
Já o comunicado do CV destaca que a maior facção do Rio tem como objetivo é que "o progresso" poderá ser "alcançado priorizando a ética do crime, o respeito e os direitos iguais para todos", sem se desviar "do caminho de lutar" contra "instrumentos e sequelas do autoritarismo que assola nossa nação". Outra mensagem de "Deus é Fiel" detalha ainda o "estatuto" do CV, com pelo menos 15 artigos.
Durante entrevista coletiva na tarde desta quarta-feira, o secretário estadual de Polícia Civil, o Felipe Curi, comentou sobre esse acordo de paz entre as duas facções:
— O Comando Vermelho já não é mais uma simples facção criminosa local. Há alguns anos, ganhou projeção nacional e internacional. Hoje, o CV age em um esquema de cartel e se alinhou ao PCC, além de diversas facções criminosas atuantes no Brasil. Isso dá a ele um caráter muito mais perigoso.
O delegado Pedro Cassundé, que conduziu as investigações, afirmou que o acordo selado entre o PCC e o CV foi pontual, com foco nas fronteiras do país, mas acabou se dissolvendo por problemas com outros estados. Hoje, eles teriam um acordo de não agressão, mas também não são aliados.
— O acordo de paz aconteceu durante um tempo. Depois, vimos pelas conversas que eles entraram em conflitos e as sanções aplicadas levaram a alguns homicídios. E isso se diluiu.
