Aliados veem risco de desgaste para Flávio e começam a citar Michelle como alternativa após crise envolvendo Vorcaro

 

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A crise provocada pela revelação das negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro começou a alimentar, nos bastidores do bolsonarismo, conversas sobre o potencial de desgaste eleitoral da pré-campanha presidencial do parlamentar e sobre possíveis alternativas dentro do grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo relatos feitos ao GLOBO por aliados do ex-presidente e integrantes da oposição, o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passou a circular com mais frequência ao longo desta quarta-feira em conversas reservadas entre parlamentares e integrantes do entorno bolsonarista. Interlocutores afirmam, porém, que ainda não existe qualquer movimento organizado de substituição de candidatura nem discussão formal dentro do PL.

A avaliação predominante entre aliados segue sendo a de que ainda é cedo para medir o impacto eleitoral da crise envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master. Mesmo assim, interlocutores admitem que a repercussão do episódio aumentou a apreensão dentro do grupo político de Bolsonaro, sobretudo após o clima de desorganização que tomou conta da campanha de Flávio ao longo da tarde.

Segundo relatos feitos ao GLOBO, o tema surgiu inclusive durante a reunião de emergência realizada no QG da campanha, numa casa no Lago Sul, em Brasília. O encontro reuniu dirigentes do PL e integrantes do núcleo político, jurídico e de comunicação da pré-campanha após a publicação da reportagem do Intercept Brasil, que apontou uma negociação de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — para financiar o filme “Dark Horse”, produção sobre Bolsonaro.

De acordo com interlocutores presentes na reunião, Flávio tentou conter o clima de apreensão logo no início do encontro e afirmou a aliados que havia “risco zero” de novos vazamentos envolvendo o caso. Segundo relatos, o senador também disse que aquele teria sido o único contato com Vorcaro relacionado ao filme, numa tentativa de tranquilizar a equipe e evitar o agravamento da crise.

Mesmo assim, auxiliares relatam que parte dos presentes demonstrava preocupação com o potencial de desgaste político do episódio, principalmente após a divulgação de mensagens atribuídas ao senador e da contradição entre a negativa inicial sobre proximidade com Vorcaro e a posterior admissão de que buscou patrocínio privado para o longa.

O nervosismo aumentou ao longo da tarde em grupos bolsonaristas de WhatsApp, onde começaram a circular avaliações pessimistas sobre os possíveis efeitos eleitorais da crise. Em uma das conversas obtidas pelo GLOBO, o deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP) afirmou que, “se começar a perder tração”, a direita deveria considerar Michelle como alternativa presidencial.

A sugestão gerou reações imediatas e expôs divergências internas dentro do bolsonarismo sobre uma eventual candidatura da ex-primeira-dama. Um dos integrantes do grupo respondeu que, diante dessa hipótese, “preferia que Lula ganhasse”.

Interlocutores ligados a Michelle afirmam que ela acompanha a deterioração do ambiente político da pré-campanha de Flávio, mas descarta, ao menos por ora, entrar diretamente na disputa presidencial. Segundo aliados, Michelle está concentrada nos cuidados com o marido, Jair Bolsonaro, que se recupera de uma cirurgia no ombro realizada há duas semanas.

Reservadamente, aliados admitem que a simples circulação do nome de Michelle Bolsonaro em conversas internas já é vista como um sinal do aumento da preocupação dentro do grupo político de Jair Bolsonaro após a repercussão da reportagem.

Na pré-campanha de Flávio Bolsonaro, porém, a hipótese de desistência é descartada. Auxiliares afirmam que a aposta do senador é que a narrativa de que houve apenas conversas privadas para obtenção de patrocínio consiga estancar a crise e impedir uma contaminação mais duradoura da candidatura.