Aliados de Flávio se afastam de Frias e admitem isolá-lo para conter desgaste da campanha

Aliados de Flávio se afastam de Frias e admitem isolá-lo para conter desgaste da campanha - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O entorno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) avalia que o deputado Mário Frias (PL-SP), alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira, terá de responder sozinho caso sejam comprovadas irregularidades no uso de emendas parlamentares destinadas a projetos ligados à produção de “Dark Horse”, filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. A disposição de aliados do candidato à Presidência de não comprar a briga pelo parlamentar não surgiu apenas com a operação, mas já circulava desde os primeiros episódios envolvendo Frias e voltou a aparecer em outras crises, como as suspeitas relacionadas a um suposto esquema de “rachadinha” em seu gabinete na Câmara. Agora, com a PF apontando Frias como integrante do chamado “núcleo político” de uma organização investigada por suspeita de desvio de recursos públicos, a estratégia ganha peso eleitoral a menos de 30 dias do primeiro turno. A lógica no entorno de Flávio é individualizar um eventual problema do deputado para evitar que a investigação alcance politicamente o candidato e volte a colocar “Dark Horse” no centro da campanha. A PF investiga suspeitas de desvio de recursos públicos federais, lavagem de dinheiro, falsificação de documentos e organização criminosa. Um aliado de Flávio resumiu a disposição do grupo dizendo que, caso tenha feito “rolo com emendas”, Frias terá que “se lascar”. A declaração representa a avaliação de que, se as suspeitas forem confirmadas, não caberia ao candidato assumir a defesa política do deputado ou transformar o caso em uma batalha da campanha. A mesma lógica é compartilhada por outros integrantes do núcleo próximo ao presidenciável. A orientação dada a Flávio é defender “Dark Horse”, mas separar a produção do filme da situação individual de Frias e dos demais alvos da operação. O candidato pode contestar a investigação e sustentar que não houve irregularidade no financiamento da cinebiografia do pai, mas foi aconselhado a não assumir a defesa pessoal dos investigados. Foi essa a linha adotada nesta quinta-feira. Durante agenda em Roraima, Flávio afirmou que “Dark Horse” não recebeu dinheiro público, atacou o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e classificou a operação como uma tentativa de “interferência política” na eleição. Ao falar sobre o caso, porém, não mencionou Frias nem saiu em defesa do deputado. O cálculo ganhou importância depois que a operação revelou novas conexões entre Frias, seus aliados e empresas que receberam recursos públicos. Segundo a investigação, o deputado destinou R$ 2 milhões em emendas em 2024 ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, responsável pela produção de “Dark Horse”. A investigação também identificou o envio de R$ 645 mil por Frias à Go Up Entertainment, produtora do filme, em período que coincidiu com as gravações da obra. A PF afirma que os pagamentos chamaram atenção pela coincidência com despesas como hospedagem e alimentação durante as filmagens. A operação foi autorizada por Dino e cumpriu 49 mandados em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Além de Frias, foram alvos a empresária Karina Gama, o ex-marido dela e um ex-chefe de gabinete do deputado. Dino determinou ainda que os investigados não deixem o país nem mantenham contato entre si e ordenou o recolhimento de passaportes. No entorno de Flávio, há ainda uma avaliação de que o impacto político poderia ter sido maior. Frias chegou a ser considerado para disputar o Senado por São Paulo durante a montagem da chapa, mas acabou preterido pelo presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado. Aliados avaliam agora que a escolha evitou que a operação atingisse diretamente um dos principais palanques estaduais do presidenciável. A tentativa de separar Frias da campanha, no entanto, pode esbarrar em uma reação diferente de outra ala da família Bolsonaro. O deputado é próximo de Eduardo Bolsonaro, e interlocutores do ex-deputado afirmam que ele pretende sair em defesa de Frias, num movimento que destoaria da orientação adotada pelo irmão. Aliados identificados com Eduardo já começaram a fazer isso publicamente. O deputado estadual Cristiano Caporezzo (PL-MG), que se define como “orgulhosamente eduardista”, publicou uma mensagem de solidariedade a Frias após a operação. — Deixo aqui registrada a minha solidariedade ao deputado Mário Frias, que fez um filme maravilhoso sobre o atentado contra Jair Bolsonaro, Dark Horse, e que agora é alvo de operações da Polícia Federal. Caporezzo atacou a corporação e afirmou que qualquer pessoa de direita que considerasse correta a ação deveria ser “exorcizada de Brasília”. O próprio Eduardo reagiu de forma contundente à operação. Em publicações nas redes sociais, afirmou que o episódio não teria sido uma ação regular da Polícia Federal, mas de uma suposta “quadrilha totalitária” destinada, segundo ele, a perseguir adversários políticos. Em outra postagem, classificou como “extorsão na cara dura” a atuação dos investigadores ao comentar a apreensão de documentos. Até agora, ele não fez uma defesa específica das condutas atribuídas a Frias, mas interlocutores próximos afirmam que a tendência é que assuma a defesa do deputado. A diferença de postura ocorre em meio a uma disputa mais ampla sobre os rumos da candidatura de Flávio. Eduardo e Carlos Bolsonaro vêm demonstrando incômodo com o espaço ocupado na campanha por nomes que consideram distantes do núcleo ideológico do bolsonarismo e cobram do irmão uma associação maior à imagem e às bandeiras do pai. O descontentamento veio a público nesta semana. Carlos afirmou nas redes sociais que Flávio precisa compreender que seu crescimento eleitoral se deve ao pai, à rejeição a decisões do Judiciário e ao desgaste do governo Lula. Em seguida, fez um alerta sobre a influência exercida pelo entorno do candidato. — Qualquer um de seu entorno que tente levá-lo para qualquer outra linha de raciocínio o afasta de sua base e o torna refém pós-eleitoral, como o sistema deseja — disse Carlos. Interlocutores de Carlos afirmam que a crítica tinha como um dos alvos Daniella Marques, responsável pela formulação do programa econômico da candidatura. A avaliação é compartilhada por Eduardo, de acordo com pessoas próximas ao ex-deputado ouvidas pelo jornal. Ex-presidente da Caixa e ex-assessora de Paulo Guedes, Daniella ganhou espaço nas últimas semanas, com discursos em atos importantes, participação em transmissões ao lado de Flávio e uma agenda própria de eventos e viagens. Uma ala do bolsonarismo critica o protagonismo da economista e a identifica com setores do mercado financeiro que considera incompatíveis com a linha ideológica do movimento. A disputa por influência ganhou força justamente no momento em que Flávio passou a vislumbrar a possibilidade de vitória. A última rodada da Quaest mostrou empate numérico entre o senador e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno, com 41% para cada um. Integrantes do entorno do candidato avaliam que a melhora nas pesquisas e a crise no STF aumentaram também a disputa interna por espaço na campanha. A reação à operação sobre Frias acrescenta agora uma nova frente a esse embate. Enquanto o núcleo próximo de Flávio tenta evitar que a situação individual dos alvos de “Dark Horse” seja incorporada à candidatura, a ala ligada a Eduardo sinaliza uma disposição maior de transformar a operação em mais um episódio da ofensiva contra instituições que considera responsáveis por perseguir o bolsonarismo. A operação desta quinta-feira ocorre ainda em um momento particularmente delicado para Flávio porque “Dark Horse” é alvo de duas investigações distintas no STF. A apuração conduzida por Dino trata do possível uso irregular de emendas parlamentares e de recursos públicos. Outra investigação, sob relatoria de André Mendonça, apura os recursos que Daniel Vorcaro teria destinado à produção depois de um pedido de Flávio e investiga o caminho percorrido pelo dinheiro.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo