A virada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mudou o clima de confiança que inicialmente tomava o local onde Flávio Bolsonaro (PL) acompanhava a apuração dos votos, em uma casa onde funciona o Quartel-General da campanha, no Lago Sul, em Brasília. Apreensão aumentou quando o petista assumiu a dianteira, com cerca de 80% das urnas apuradas.
Diante dos números, o senador deixou o espaço onde acompanhava a contagem em um telão e se reuniu reservadamente com integrantes da cúpula da campanha, entre eles o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e a advogada Maria Claudia Bucchianeri.
A movimentação ocorreu na casa do advogado Vicente Santini, amigo pessoal de Flávio e eleito primeiro suplente na chapa de Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado. O local havia sido escolhido para reunir familiares, amigos e aliados do candidato durante a apuração.
Até a virada de Lula, os presentes acompanhavam juntos os números exibidos no telão, em meio a conversas sobre as possibilidades de vitória. Segundo pessoas que acompanhavam a movimentação, a mudança de ambiente foi imediata.
Flávio se retirou para uma sala reservada acompanhado de integrantes da equipe política, senadores eleitos e advogados. O grupo permanecia reunido até por volta das 21h15, enquanto os demais convidados continuavam acompanhando a apuração.
Nos bastidores, aliados avaliam que a reunião servirá para discutir os próximos passos diante do resultado eleitoral. A presença de Bucchianeri ocorre em meio à insatisfação da campanha com a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar o horário de votação.
Ainda não há confirmação de que o grupo esteja preparando alguma medida judicial para questionar o resultado. A irritação com a decisão já vinha sendo manifestada por integrantes do grupo político de Flávio ao longo da tarde.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), questionou o fato de o pedido de prorrogação ter sido apresentado a Zanin, que atuou como advogado de Lula. — O rito judicial era que as decisões fossem tomadas pelo TSE.
Quando fazem uma petição ao ministro Zanin, causa estranheza porque ele foi advogado do presidente Lula — afirmou. Entre os aliados, a avaliação é de que a prorrogação teria prejudicado a direita.
Um integrante do grupo chegou a afirmar, antes da conclusão da apuração, que acreditava na vitória de Flávio, mas que, caso o resultado fosse desfavorável, a decisão judicial seria um dos principais motivos de contestação política. — (Foi um clima de) tensão muito grande, gerada a partir dessa decisão extemporânea do STF passando por cima de uma jurisprudência e de uma Justiça especializada.
Isso fragiliza muito a democracia. O resultado pode ter sido fruto dessa balbúrdia — afirmou o deputado Danilo Forte (União-CE), ao deixar o local.
A apreensão contrastou com o início da tarde do senador. Flávio havia chegado à casa de Santini acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, e da mãe, Rogéria Bolsonaro.
Também estavam no local amigos próximos, como o publicitário Marcello Lopes, e o pastor Pedro Leite, da igreja frequentada pelo candidato. O começo da apuração foi marcado por conversas e vinho, em um ambiente descrito como tranquilo por pessoas próximas.
Com o avanço da contagem, porém, o clima começou a mudar. Em determinado momento, Flávio se recolheu a uma sala inicialmente destinada a orações.
Tarcísio também entrou no espaço, em uma primeira movimentação reservada que chamou a atenção dos presentes. A reunião em Brasília atraiu aliados de diferentes estados, entre eles o governador eleito do Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL), o governador eleito do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL), e o deputado Altineu Côrtes (PL-RJ).
O senador Cleitinho (Republicanos-MG) também esteve entre os presentes. A expectativa de comemoração, no entanto, foi substituída por conversas reservadas e incerteza sobre os próximos passos do candidato.
O Globo