O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, sofreu um forte revés em sua pretensão de formar governo e ser reconduzido ao cargo, nesta quinta-feira, após perder o apoio de um de seus aliados históricos, o partido ultraortodoxo Judaísmo Unido da Torá — sigla que integra a base governista do líder conservador desde o seu primeiro Gabinete, em 1996.
A decisão, comunicada pela liderança da legenda em reunião com o presidente Isaac Herzog abre caminho para a indicação do ex-chefe do Estado-maior israelense Gadi Eisenkot para liderar a formação do novo governo. Eleição israelense: Comitê eleitoral de Israel nega fraude no pleito; presidente do país condena declarações racistas contra árabes
Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países
A eleição em Israel, que registrou recorde de participação, terminou com um cenário de indecisão entre as coalizões formadas por partidos judeus. Nenhum dos grupos de partido alinhados conquistou mais de 61 cadeiras para garantir maioria no Parlamento, com a base de apoio a Netanyahu ficando com 53 assentos, e a oposição reunida em torno de Eisenkot terminando com 48.
As vagas restantes ficaram com os partidos árabe-israelenses, que chegaram a 19, mas são vistos com desconfiança pelo campo sionista (que defende o caráter judeu do Estado de Israel). A composição de forças sofreu uma alteração fundamental nesta quinta-feira, quando o presidente Herzog, incumbido de reunir-se com as lideranças partidárias e entregar a um dos líderes das listas eleitas para o Parlamento o dever de formar governo, comunicou que os representantes do Judaísmo Unido da Torá disseram que não vão declarar apoio a nenhum deputado entre os que almejam se tornar premier.
— Queremos que, em qualquer governo que seja formado, o elemento prévio ou imediato seja a regulamentação do status dos estudantes da Torá — disse o deputado Isaac Pindrus, membro do partido, durante o encontro com Herzog, delineando o motivo do rompimento, que na prática deixa o bloco pró-Netanyahu com 46 cadeiras.
O Judaísmo Unido da Torá, cuja base é composta por judeus asquenazes, procedentes da Europa Central e do Leste, é um dos principais partidos ultraortodoxos de Israel, ao lado do Shas, que tem maior representatividade entre os judeus sefarditas, procedentes do Norte da África e de países árabes.
Os dois partidos se opõem a qualquer convocação para o Exército de estudantes religiosos, tema que desperta grandes tensões em Israel, país comprometido militarmente em várias frentes. Netanyahu apoiou os esforços das duas legendas nos últimos anos, mas não conseguiu aprovar uma legislação para consagrar a isenção do serviço militar, o que irritou os partidos ultraortodoxos.
Com a abstenção do Judaísmo Unido da Torá, a margem necessária para que outro governo se forme será menor. Para a oposição, o cenário parece cada vez mais aberto, uma vez que recebeu o apoio do partido árabe Ra'am (Lista Árabe Unificada), que declarou ao presidente que respaldaria a candidatura de Eisenkot — elevando o total de votos do militar reformado para 56.
Herzog planeja concluir as consultas sobre a formação do novo governo até a noite desta quinta-feira, mas não descarta prolongar as reuniões. Oficialmente, ele tem até 11 de novembro para decidir se vai confiar a Netanyahu ou a Eisenkot a missão de formar o governo.
Aposta na 'fraude' O resultado eleitoral insuficiente para garantir a permanência do governo ultraconservador no poder fez Netanyahu e seus aliados mais próximos ampliarem suas críticas ao sistema eleitoral, denunciando uma suposta fraude no pleito.
O premier Netanyahu redobrou, na quarta-feira, acusações sobre interferência estrangeira nas eleições — algo que autoridades minimizaram nos últimos dias. O primeiro-ministro se referiu a "sérias suspeitas de que Estados estrangeiros teriam investido quantias consideráveis para influenciar os resultados das eleições em Israel", apontando detenções de várias pessoas com envelopes de dinheiro em espécie no dia das eleições — episódios que as autoridades classificaram como incidentes isolados.
Também acusou dirigentes de receberem dinheiro do Catar. A autoridade eleitoral israelense anunciou que realizou uma auditoria em 9.069 seções eleitorais após receber denúncias e que não encontrou provas que colocassem em dúvida a integridade dos resultados.
A comissão, que reflete a composição do Parlamento que está deixando o cargo, aprovou os resultados por 15 votos a favor e dois contra, enquanto outros 14 integrantes se abstiveram. (Com AFP)
O Globo