Aliado de Gabriel Medina em 2014, Alejo Muniz busca desfrutar do seu último ano na WSL: 'Nunca consegui aproveitar o circuito'
Antes de completar 36 anos, no dia 22 de fevereiro deste ano, Alejo Muniz já havia tomado uma das decisões mais difíceis da sua vida: se aposentar do surfe profissional. Mas o coração está tranquilo para competir a sua última temporada no circuito mundial, o que faz o brasileiro nascido na Argentina garantir que a escolha “não tem mais volta”. Conhecido pela determinação dentro e fora da água, ele passou por altos e baixos ao longo da carreira e, em sua despedida, busca fazer algo inédito: desfrutar realmente do tour, que começa na etapa de Bells Beach, na Austrália — a primeira chamada é hoje, às 17h30 (de Brasília), com previsão de ondas pequenas.
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— Eu sempre fui muito disciplinado e regrado, e nunca consegui aproveitar o circuito porque sempre queria dar o meu melhor. Quando perdia, ficava mal e não conseguia realmente aproveitar. Quero ter boas performances e passar as baterias, com certeza, mas competir de um jeito mais leve, aproveitando cada dia que estarei aqui, já que será a última vez — destaca ele.
Conselhos do Mineiro
Após ficar oito anos fora da elite, Alejo demonstrou perseverança para, enfim, retornar no ano passado, mas se viu com a corda no pescoço quando sobreviveu ao corte do meio da temporada com a última vaga (22º lugar). Por ter se desgastado além do que imaginava nos lados físico e mental, o catarinense começou a pensar na possibilidade de se aposentar das competições. À época, o seu técnico e campeão mundial Adriano de Souza, o Mineiro, foi uma espécie de conselheiro por já ter vivido essa situação.
— Muita coisa que ele me respondeu encaixava com o que eu estava sentindo naquele momento. Acabei ficando cansado com as viagens e os campeonatos, que exigiam muito de mim. Foram muitos anos viajando. Passei muito pouco tempo com meu filho (Martin, hoje com 8 anos) desde que ele nasceu — confessa Alejo, que também acrescenta a influência da idade na queda de seu desempenho. — Eu treinava bastante e chegava a 70% do que a molecada e os tops estavam fazendo, sem eles precisarem se esforçar tanto, às vezes. Isso já estava começando a me incomodar. Apesar de eu ser disciplinado em tudo, o que me manteve até agora (na elite), já está tudo mais difícil pra mim.
Nascido na Argentina, Alejo Muniz é um dos integrantes da Brazilian Storm
WSL/Divulgação
Outro fator que pesou na decisão foi o desejo de voltar ao Championship Tour (CT) — primeira divisão da WSL — para justamente ter a oportunidade de escolher por conta própria o momento exato de não vestir mais a lycra, ao contrário de ser praticamente forçado a encerrar a carreira.
Ao anunciar que iria se aposentar no final desta temporada, Alejo voltou a sentir orgulho de si com a quantidade de agradecimentos por seus feitos na carreira. O mais marcante foi quando Gabriel Medina se tornou o primeiro brasileiro campeão mundial de surfe, em 2014. Alejo ficou marcado na história do surfe brasileiro ao vencer surfistas lendários como o americano Kelly Slater e o australiano Mick Fanning, concorrentes do tricampeão naquele ano.
— Foi uma montanha-russa de sentimentos, porque ajudei meu amigo, mas eu tinha caído do CT, que era o meu sonho pessoal. O que isso representou para a minha carreira foi muito maior que todos os títulos que eu já tive, que qualquer onda que eu já surfei. Hoje, tenho certeza de que meu nome é muito mais lembrado e maior por causa desse campeonato em si. Eu tive muita sorte de estar ali, mas, naquele momento, eu não conseguia enxergar isso — lembra.
Integrante da Brazilian Storm (“tempestade brasileira”), Alejo se sente privilegiado por fazer parte da profusão de talentos mais vitoriosa da modalidade. Enquanto Medina, Filipe Toledo e Italo Ferreira quebram recordes e empilham títulos, o catarinense reconhece que não tem a mesma genialidade do trio, mas, ao mesmo tempo, se considera um exemplo a ser seguido pelas novas gerações por conta do foco e da disciplina como atleta.
Com anos de circuito mundial, Alejo pode fazer uso dessa experiência no pós-carreira. Se antes não se via como treinador, ele já admite a possibilidade de ocupar o cargo que foi do seu pai, Rubens Muniz, logo no início da sua carreira.
— Além de eu gostar de passar conhecimento adiante, sempre que pude estive com novas gerações de vários lugares, tentando ajudar de alguma maneira. Foram muitos anos competindo, então acho que aprendi muita coisa que posso passar adiante — destaca.
