Aliado alvo do MP, racha com PL, CPI sobre BRB e recusa de ir ao Senado: a turbulenta semana de Ibaneis Rocha
Em meio ao envolvimento do Banco de Brasília (BRB) no escândalo do caso Master, o governador do Distrito Federal (DF), Ibaneis Rocha (MDB), acumulou desgastes ao longo da última semana. Com sua pré-candidatura ao Senado ainda indefinida e o desejo de concorrer em uma chapa com a primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), o mandatário viu o PL romper com a sua gestão, além de ter seu líder de governo, o deputado distrital Hermeto (MDB), sendo alvo de uma operação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).
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A operação policial, realizada nesta quinta-feira, foi deflagrada para investigar um esquema de corrupção que desviou cerca de R$ 50 milhões da Secretaria de Educação em contratos de locação de imóveis. De acordo com as autoridades, a maior parte dos recursos fraudados eram oriundos de emendas parlamentares, motivo pelo qual Hermeto foi um dos alvos de mandados de busca e apreensão.
O deputado, por sua vez, alegou não possuir relação com os contratos administrativos firmados pela secretaria, que são de responsabilidade do "Poder Executivo", ou seja, comandados por Ibaneis. Hermeto também afirmou que os recursos destinados por seu mandato foram enviados para a reforma das escolas públicas, sem a possibilidade de serem utilizados em aluguéis.
— Estou à disposição da Justiça para esclarecer qualquer fato. Tenho a consciência tranquila — afirmou o parlamentar, em comunicado divulgado em suas redes sociais.
Questionado sobre o caso pela imprensa, Ibaneis afirmou "não ter nada a ver com isso", e que "cada um tem seus problemas" para resolver com a Justiça:
— Eu não tenho informações do que aconteceu, e também se eles que estão envolvidos quiserem apresentar para mim alguma coisa, mas não tenho interesse nenhum, não cita meu nome. Eu não tenho nada a ver com isso. Cada um que tem seus problemas que responda perante a Justiça — afirmou o governador.
Abertura de CPI
Ainda no início da noite de quinta-feira, Ibaneis recusou o convite para comparecer à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado para prestar esclarecimentos sobre a relação do BRB com o Banco Master. Em ofício enviado ao Colegiado, o governador afirmou "não possuir conhecimento técnico sobre sistema financeiro", além de não ter participado das negociações entre as instituições.
Antes, na terça-feira, deputados distritais do PL protocolaram um pedido para a abertura de uma CPI a fim de questionar a "ausência de explicações concretas" por parte do governo Ibaneis em relação ao caso Master. A decisão representou o rompimento do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro com o governador.
Segundo o partido, a deliberação ocorreu a partir de uma reportagem divulgada pelo GLOBO. Conforme mostrou a colunista Malu Gaspar, o escritório de advocacia de Ibaneis fechou um contrato de R$ 38 milhões envolvendo a venda de honorários de precatórios a um fundo ligado à Reag, gestora investigada pela Polícia Federal (PF) por fazer parte do esquema fraudulento relacionado ao banco de Vorcaro.
De acordo com o documento enviado à Presidência da Casa, a ação busca "apurar as circunstâncias, a regularidade, os procedimentos de governança, avaliação de risco e tomada de decisão relacionados às negociações e operações realizadas entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, no período compreendido entre janeiro de 2024 e março de 2026".
Na Câmara Legislativa, o requerimento foi assinado pelos deputados distritais Thiago Manzoni, Joaquim Roriz e Roosevelt Vilela, do PL, além de Rogério Morro da Cruz, do PRD. O objetivo dos parlamentares, agora, é conquistar o número regimental de assinaturas para a instalação da CPI.
Rompimento político
A medida foi tomada por unanimidade em uma reunião que contou com a presença da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e da deputada federal Bia Kicis (PL). Ambas integram a provável articulação do PL para o Senado, em uma composição majoritária encabeçada pela vice-governadora Celina Leão, principal cotada para concorrer ao Palácio do Buriti.
— Não dá mais para esperar. Quando aparecem indícios graves de desvio de recursos, temos obrigação de agir. CPI é instrumento de fiscalização, e esta se tornou inevitável — afirmou Kicis.
A postura do PL abre caminho para a composição pretendida por Michelle, amiga e apoiadora da candidatura de Leão ao governo. O entrave para a definição estava na possibilidade de Ibaneis disputar o Senado, como mostrou as anotações vazadas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante uma reunião da sigla.
Ao lado do desenho que previa Celina ao governo e duas candidaturas do PL ao Senado — Michelle e Kicis —, Flávio anotou que, caso Ibaneis entre na disputa pelo Senado, “não dá para oficializar” o apoio a atual vice-governadora.
Já em relação à base local, Ibaneis também sofreu desgaste. Na quinta-feira passada (5), Manzoni e Cardoso anunciaram o rompimento com o governador. Ambos votaram contra o projeto de socorro ao BRB, o que culminou na exoneração de servidores comissionados indicados por eles. Outro deputado que votou contra a iniciativa foi Morro da Cruz, que, embora tenha assinado o requerimento de abertura da CPI, disse ao g1 que permanecerá na base governista.
— Se fazer oposição ao que é escuso, ao que não é certo, ao que é errado, ao que penaliza a população, é fazer oposição ao governo Ibaneis, então eu farei — afirmou Manzoni, durante discurso no plenário.
Master X BRB
Em setembro do ano passado, o Banco Central barrou a negociação entre as instituições, que havia sido anunciada em março. O processo previa a aquisição de 58,04% do capital social total do Master (49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais) pela instituição detida pelo governo do DF, o que gerou questionamentos entre políticos e também no mercado financeiro.
"Os fatos revelados indicam que as negociações entre o Banco BRB e o Banco Master ocorreram em contexto de instabilidade financeira da instituição alvo, o que impõe exame rigoroso acerca da compatibilidade das decisões adotadas pelo BRB", diz o requerimento. "A população do Distrito Federal tem o direito de saber em que medida houve a utilização inadequada de instrumentos financeiros ou concessão de garantias em desacordo com critérios técnicos de gestão responsável", completa outro trecho.
Em meio à solicitação dos bolsonaristas, Ibaneis sancionou, no início desta tarde, um projeto que estabelece alternativas para fortalecer o capital do BRB. Como divulgou a coluna de Míriam Leitão, do GLOBO, uma edição extra do Diário Oficial deverá ser publicada nas próximas horas para oficializar a ação. Além da tentativa de aquisição do Master, o BRB ficou com um rombo nas contas após a compra de carteiras fraudulentas do banco de Vorcaro no valor de R$ 12,2 bilhões.
