Um Aldir Blanc como o público nunca viu está em dois filmes que serão lançados no Festival do Rio, em outubro.
Os diretores e roteiristas de “Aldir Blanc — Resposta ao tempo” e “Fui olhar você dormir” tiveram acesso ao apartamento de onde o compositor praticamente não saía, a vídeos caseiros e a escritos muito pessoais.
Aldir completaria 80 anos nesta quarta-feira (2).
Ele morreu aos 73, em 4 de maio de 2020, de Covid-19.
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Os documentários têm em comum a entrada cuidadosa na intimidade do artista e algumas ideias, mas as propostas são diferentes.
“Resposta ao tempo”, de Marcus Fernando e Hugo Sukman, parte de quase dez horas de entrevistas feitas com Aldir em 2019 (uma em áudio, outra em vídeo) para mostrar, sem didatismo, como foi sua vida e como era seu processo criativo.
— O filme é uma visita ao Aldir — explica Sukman, que classifica o trabalho como um “ensaio poético”.
— Aldir é muito grande, dá 20 filmes.
A gente optou por entrar na cabeça e no texto dele.
Não tem depoimentos de outras pessoas.
São letras, crônicas e falas dele.
Dois mil bilhetes para a mulher
Em “Fui olhar você dormir”, que tem direção de Anna Azevedo e roteiro dela e de Claudio Uchoa, o foco é no amor entre Aldir e sua companheira por quase 34 anos, Mari Lúcia de Sá Freire, chamada por todos de Mary.
— É uma tentativa de entrar na cabeça do Aldir.
Não é um filme para fora, não é uma biografia.
É o Aldir para dentro daquele prédio — situa Anna, que teve, juntamente com Uchoa, acesso a cerca de dois mil bilhetes escritos pelo artista para Mary, todos preservados por ela.
Os projetos só se tornaram viáveis porque têm, entre os criadores, gente que conhecia Aldir há muito tempo.
Sukman foi pela primeira vez ao apartamento da Rua Garibaldi, na Tijuca, no início dos anos 1990.
Marcus conheceu o letrista em 1995.
Uchoa também foi próximo de Aldir desde a década de 1990 e apresentou Anna a Mary.
— Tem documentário impessoal, de quem vai pesquisar, e o pessoal, de quem viveu.
É o nosso caso.
De quem conheceu o Aldir e tenta traduzir isso — afirma Sukman.
'Não vim para facilitar'
Não é uma tradução simples.
Já no início do filme — que estará na Mostra Retratos, do Festival do Rio —, Aldir resume seu princípio como artista: “Não vim para facilitar.
Vim para criar problemas.”
“Resposta ao tempo” apresenta elementos que ajudam a explicar como se formou a personalidade de Aldir.
Sua mãe quase morreu no seu parto e emendou numa depressão da qual nunca se livrou — o que era motivo de culpa para o filho.
O pai bebia, jogava em cavalos e tinha crises fortíssimas de asma.
O menino se apoiou nos avós maternos, em cuja casa, em Vila Isabel, passou a maior parte da infância.
Noêmia, a avó, tinha “14 religiões ao todo” — segundo ele diz, irônico, no filme — e o levou para conhecer terreiros que despertaram sua musicalidade.
João Bosco e Aldir Blanc, em 1982
Luiz A.
Barros/13-12-1982
Para satisfazer o pai, formou-se em Medicina em 1971, mas largou de vez quando testemunhou no hospital, sem poder fazer nada, suas filhas gêmeas recém-nascidas morrerem em 1974.
O documentário tem um vídeo, cedido pelo Canal Brasil (coprodutor do projeto), de Aldir lendo o dilacerante poema “Choro pra bandolim”, inspirado nas filhas mortas.
— Aldir vai em lugares aonde ninguém vai.
Não tem paralelos.
Com o despudor que ele trata, não tem — acredita Marcus.
— Ele era um artista no sentido pleno da palavra — acrescenta Sukman.
— Inventou um universo.
Muita gente faz letra de música, mas ele criou um universo próprio.
20 mil livros
“Mostrar o ofício do letrista”, segundo Marcus, é algo que o filme permite.
Ouvem-se, por exemplo, as fitas com as melodias de “Catavento e girassol” e “Resposta ao tempo” enviadas, respectivamente, por Guinga e Cristovão Bastos.
Aldir dizia escutar muitas vezes as músicas que recebia até a letra surgir.
E, na hora de escrever, como o filme revela, era deitado na cama, todo torto, e não no escritório, reservado às leituras — tinha cerca de 20 mil livros.
Aldir Blanc em cena do filme 'Resposta ao tempo'
Divulgação
O documentário passa por outros parceiros, como João Bosco (“Somos imbatíveis”, dizia Aldir), Moacyr Luz, Edu Lobo e Ivan Lins.
Mostra o amor dele pelas quatro filhas, os cinco netos e o bisneto.
E a relação difícil com a bebida, da qual praticamente se afastou na última década de vida.
— Está no filme porque Aldir falava muito disso, sempre dizia que a bebida era uma muleta.
E ele conta o que o avô disse para ele sobre bebida: “Isso vai te ajudar, mas não vai funcionar.” — recorda Marcus.
Antes de começar essa que seria a sua última entrevista, Aldir disse que precisava gravar um epitáfio: “Faltou quase tudo.” E dá um alerta: “Corram atrás da vida.”
500 composições
Soa amargo, mas Aldir tinha muito orgulho de sua obra de cerca de 500 composições.
Preferia, porém, que as letras fossem conhecidas, não ele.
— Ele pensava que, existencialmente, ele e o bêbado da esquina eram a mesma coisa — interpreta Sukman.
Essa aversão à fama aparece de modo mais explícito em “Fui olhar você dormir” — que estará na mostra competitiva do Festival do Rio.
Num momento do filme, suas palavras são: “Todo letrista tem que aspirar a ser anônimo.
Quero ser cantado e assobiado.
E que, na hora de perguntarem de quem é, o cara não saiba.
Essa é a glória do compositor popular.”
Um bilhete escrito em 2009 para Mary reforça: “Não quero ser homenageado.
Meus heróis são Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, os incógnitos.
Não quero passar o resto da vida fazendo coisas que detesto e que já pedi para suspenderem 800 vezes.”
Dois mil bilhetes
A ideia de “Fui olhar você dormir” nasceu após Uchoa contar a Anna que Mary não parava de encontrar bilhetes no apartamento da Garibaldi.
O título é uma das frases amorosas que Aldir destinava à companheira.
— O que tem ali é a essência do Aldir.
Não é um bilhete escrito por mim, por você.
É escrito por Aldir Blanc, tem um valor literário, por causa das escolhas de palavras, da emoção — ressalta Uchoa.
Aldir Blanc e Mary, em foto retirada de acervo com manuscritos, letras de música e cartas para a mulher
Fabio Rossi/11-8-2021
São coisas como “Essa história de ser mulher ou ser marido/ é como se você fosse terra/ e eu tivesse chovido”; ou “Olhar a cicatriz dói quase tanto quanto na hora em que foi feita”.
Os bilhetes foram digitalizados e organizados pela pesquisadora Maria Carolina Campos.
— Foi um trabalho lento, porque a gente dependia da Mary para ler os bilhetes — conta Anna.
— Só uma pessoa do mundo entende o que Aldir escrevia.
E era preciso respeitar o tempo dela, porque é também o tempo da dor, do reencontro com toda a sua história.
Dos dois mil bilhetes, foram selecionados cem.
Destes, pouco mais de 30 estão no filme.
São lidos por Mary.
— Ela é a destinatária desses bilhetes.
A voz que leu primeiro foi a dela.
E o Aldir, quando escreveu, provavelmente imaginava a Mary lendo — justifica Anna.
— Para ajudar, ela lê muito bem.
Tributos pelos 80 anos
A paixão de Mary pelos bilhetes é sintetizada numa cena em que ela tenta colar alguns que Aldir rasgou.
Ele a chamava de Mary, à inglesa, mas escrevia Mari, o nome real — ou Mariluz, Maricéu, Marilua, tal como está na sua versão para “Moonlight serenade”, de Glenn Miller.
— É uma história de amor e, também, uma história de intimidade — diz Uchoa.
— Como Aldir não saía do apartamento, e nos últimos cinco anos não pisou nem no elevador, aquele era o mundo dele.
Era ali que ele criava, tinha as angústias, emoções, alegrias, tristezas.
Para Anna, “é uma história de amor possível”.
— Não é romântica, idealizada.
É como a gente vive dentro das nossas casas.
A depressão e o alcoolismo também estão nas casas.
É muito fácil se identificar com aquele casal.
E querer estar naquela casa, na farra, nos saraus.
É tudo muito brasileiro — afirma a diretora.
Há muito amor e carinho nos bilhetes, como Anna destaca, mas há os momentos de ciúme e desespero (“você está me deixando”, “não me abandone”).
Uma passagem do filme recorda uma viagem feita por Mary para Canadá e Nova York em dezembro de 1994.
Duraria 20 dias, mas Aldir não aguentou a solidão e fez com que ela voltasse antes.
Num trecho do documentário, ele pede que nunca saiam todos juntos (mulher, filhas e netos) e o deixem sozinho em casa.
Para registrar a força do amor do casal, Anna projetou alguns dos bilhetes sobre Mary, especialmente um em que está escrito “BO-NI-TA”.
É como ele gostava de chamá-la desde a primeira noite em que passaram juntos.
— A relação tinha esse elemento sensual forte.
A feminilidade dela aflora muito com o Aldir.
Ele despertou nela a mulher bonita, que não tem vergonha do próprio corpo.
E é uma mulher de mais de 70 anos falando disso, o que eu acho o máximo.
O “BO-NI-TA” está tão introjetado nela que é que como se fosse uma tatuagem na alma — explica Anna, que ainda filmou Mary sendo tatuada no ombro com um desenho de uma flor feito por Aldir.
A “minha garota”, como Aldir também a chamava, continua morando na Garibaldi.
Ela e as filhas ainda buscam um destino para o acervo do letrista.
Há outras homenagens por ocasião dos 80 anos.
Hoje, às 19h30, Mariana Baltar e Água de Moringa apresentam na Casa do Choro, no Centro do Rio, um show de músicas com letras de Aldir.
Nos dias 1/10 e 25/11, Guinga, Moacyr Luz e Zé Renato fazem o mesmo no Teatro Rival, no Centro, mas os ingressos estão esgotados.
No dia 2/10, João Bosco celebra os seus 80 anos e os do parceiro com um espetáculo no Qualistage, na Barra.
E, nas plataformas, está o álbum “Salve, Aldir!”, lançando pelo conjunto vocal Equale.
Aldir Blanc, que completaria 80 anos nesta quarta-feira (2), é tema de dois longas que estreiam no Festival do Rio
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