Aldir Blanc: Como o compositor largou a psiquiatria para viver só da música - QTU Questões do Universo

Aldir Blanc: Como o compositor largou a psiquiatria para viver só da música

Fonte: Bandeira da fonte

O compositor Aldir Blanc estava perto de completar 30 anos de idade quando recebeu a equipe do Jornal O GLOBO para uma longa entrevista no seu pequeno apartamento na Avenida Maracanã, na Tijuca, Zona Norte do Rio, em agosto de 1976.
Letrista em ascensão e parceiro de João Bosco, o carioca nascido no Estácio via seus versos fazendo sucesso na voz Elis Regina.
No início da conversa com o repórter Vitor Sznejder em sua casa, Aldir relutou um pouco, mas aceitou falar dos tempos em que trabalhou como médico psiquiatra e de como largou a profissão para viver só da música.

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Autor de mais de 600 canções, entre elas clássicos como "O Bêbado e a Equilibrista", "Um por Todos" e "Mestre-Sala dos Mares", o compositor era um cronista das ruas, conhecia a alma dos bares e deu voz à resistência contra a ditadura no fim dos anos 1970.
Boêmio transformado em alma reclusa devido a uma fobia social desenvolvida na década de 1990, Aldir passou anos confinado em sua residência na Rua Garibaldi, na Muda.
Diabético e hipertenso, largou o cigarro e o álcool, mas, em maio de 2020, o autor contraiu pneumonia devido à COVID-19 e morreu, causando um enorme luto na MPB.

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Nesta quarta, Aldir estaria completando 80 anos.
Em sua homenagem, o Blog do Acervo resgata a entrevista que o compositor concedeu sentado em seu sofá, descalço e com as pernas balançando sem parar.
Ele falou da época na área da saúde mental, que classificou como um "erro de nove anos", analisou a "culpa" do artista nascido nascido na classe média, mas que gostaria de se identificar com o proletariado e criticou a censura "totalmente arbitrária" na ditadura militar.
Terminou falando da Vila Isabel e de como paisagens e hábitos vinham mudando em nome de uma "falsa" ideia de progresso.
Aldir Blanc em agosto de 1976
Luís Alberto/Agência O GLOBO
COMEÇO NA MEDICINA.
"Entrei para a medicina e já por volta do segundo ano, as parcerias musicais, predominantemente com o Sílvio da Silva Júnior, caminharam num sentido mais profissional.
Eu sentia uma satisfação muito grande com todo tipo de compromisso musical, ao passo que assistia às aulas chateado, e comecei a achar lógico que ficasse só fazendo música e abandonasse o curso.
Quando cheguei ao quarto ano, pensei definitivamente em abandonar, e me desinteressei da parte mais teórica do curso.
Ia às aulas e comparecia regularmente ao hospital, mas já sentia que estava abandonando.
'Era uma barra realmente pesada'
"Nessa época eu trabalhava no Hospital Graffrée Guinle, em reumatologia.
E quando comentei com um colega que ia abandonar a medicina, ele me disse que era uma estupidez, faltando só um ano para terminar, e sugeriu que eu concluísse o curso e arquivasse o diploma para o caso de um dia querer exercer a profissão.
Mas o que realmente funcionou foi que ele trabalhava no Engenho de Dentro e me chamou para dar plantões lá, dizendo que precisava de ajuda, havia carência de pessoal.
Eu fui, e me interessei muito, sabe? Pensei que fosse encontrar com dificuldades, mas isso é só uma frase: havia gente no chão, sem roupa, faltavam colchões, roupa de cama, casacos, calçados e remédios.
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"Era uma barra realmente pesada, e eu senti que aquele tipo de atividade precisava de mim e trabalhei com muito afinco.
É difícil você dizer que eu fazia algum tipo de psiquiatria.
O que fazíamos mesmo era assistência social: conversar com o paciente, levar cigarros, arrumar roupas velhas.
Eletrochoque, nessa enfermaria, já não se usava; usávamos remédios, quando havia.
Aplicávamos um critério, que mais tarde acabou sendo consagrado internacionalmente, de alta precoce: assim que a pessoa tinha condições mínimas de ser colocada fora daquele tipo de asilo, dávamos alta.
Os parceiros João Bosco e Aldir Blanc em 1982
Luiz A.
Barros/Agência O GLOBO
ERRO DE NOVE ANOS.
"Fiquei lá por cerca de três anos, sem ser contratado.
Por que abandonei? Acho que, emocionalmente, sem fazer demagogia, porque não pretendo ser internado por solidariedade, cheguei à conclusão de que eu tinha muito mais afinidade com o tipo de comportamento dos chamados loucos do que com aquele padronizado, das atitudes consideradas normais.
Então, quando larguei, foi porque concluí que havia cometido um erro de nove anos; estudei seis, exerci três, e ainda fiz um de vestibular, dez anos ao todo, e simplesmente estava errado.
Sinto muito esse aparente desperdício de tempo, que aliás não considero perdido: foi uma experiência como outra qualquer.
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Tive um consultório na Rua da Assembleia, onde não cheguei a ganhar dinheiro.
Eu não conseguia cobrar.
Isso não está sendo dito aqui para que eu pareça bonzinho; e claro que eu tenho um tipo de personalidade-problema (chame do que quiser) que não me permitia cobrar.
Fazer letra hoje em dia, então, é um troço muito mais simples.
Ora eu me valorizo , ora me desvalorizo, mas é uma relação de mim para mim mesmo, e quando envolve outros, é um outro tipo de transação emocional.
'Era impossível seguir na outra profissão'
FECHEI O CONSULTÓRIO.
Larguei tudo da noite para o dia, depois do lançamento de um LP do João Bosco.
Comigo as coisas funcionam muito assim, vai acumulando até um dia estourar.
Participei do lançamento como percussionista, e me senti quase um traidor.
Eu tinha tanta identificação com aquela conversa, me sentia tão bem falando sobre música, do resultado desse ou daquele arranjo, sobre o ensaio, tudo isso, que fui ficando mais tenso em relação à medicina.
Acabado o lançamento, vendo a plateia saindo, tive a consciência absoluta de que aquilo era minha vida e de que era impossível seguir na outra profissão.
No dia seguinte, avisei os clientes da minha decisão e fechei o consultório.
Eu me lembro de que, quando exercia a medicina, tinha horror quando um cliente qualquer de primeira vez se despedia dizendo: "Mas você também é compositor..." Hoje, tenho medo de que esse tipo de mística passe a existir em função da profissão de músico.
Quer dizer, de repente o sujeito gosta da minha letra e justifica dizendo: "Mas é lógico, ele é também psiquiatra..." Isso é ridículo, eu não sou psiquiatra, não me sinto psiquiatra, tenho consciência de que jamais fui psiquiatra.
Não posso definir claramente até que ponto era uma atividade médica...Talvez possa ter ajudado algumas pessoas, e é possível também que tenha prejudicado outras".
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CRÍTICA MUSICAL.
"Assim como a crítica cobra um certo capricho nas minhas coisas, me sinto no direito de cobrar da crítica, pelo menos, um estilo jornalístico decente.
E muitas vezes ela é exercida da forma mais leviana possível, erros são cometidos a todo momento — desde o erro que faz uma referência inteiramente equivocada à sua obra, até erro do teu nome: já fui chamado de Aldir Blanes, Aldair Manes, Aldecir Blancoso, e isso não é falta de revisão, é falta de informação.
Francamente, o que eu cobro da critica, ou de cada crítico, é a mesma coisa que eu cobro da arrecadadora: critério.
Aldir Blanc em 1984
Paulo Araújo/Agência O GLOBO
CULPA DE ARTISTA.
"Como a maioria dos artistas, nós viemos mais ou menos da classe média, mas viemos com um curioso remorso de sermos artistas.
Quer dizer, o artista é artista, mas filho da classe média, essa filiação ele abomina.
A simpatia dele vai para uma área proletária, ele busca essa identificação.
Quando trabalha, ele quer se sentir proletário.
E quando o resultado do trabalho dele aparece inclusive gerando dinheiro, ele olha o proletário e se sente mal, ele vive numa rede de culpa.
Eu resolvo essa contradição trabalhando da melhor maneira possível.
Não vou poder me libertar de um dia para o outro de tudo que a minha classe social me encucou, e não vou ter esse tipo de conduta demagógica que me faz passar mal.
Às vezes vejo uma entrevista, e lá vem o cara, até bem intencionado, dizer que é "o operário da arte plástica" e o "pedreiro da literatura".
'Censura é inteiramente arbitrária'
CENSURA.
"O que me chama a atenção na censura, e me estarrece, é que ela é inteiramente arbitrária.
Tive música censurada por causa da expressão 'tem São', empregada no mais estrito senso.
Disseram que ela "podia se prestar a um trocadilho.
E não podia, não, e vou explicar por quê: a letra dizia 'o saci tem pé, o porão tem pó, o luar dragão e João tem São', em letra maiúscula, numa referência óbvia ao santo.
Depois, tivemos censurada a música 'Uma brasileira' porque o cara da censura considerou o título ofensivo, genérico: era a história de uma balconista que morria atropelada na Avenida Brasil.
Mudei o titulo para: "Fatalidade: balconista teve morte instantânea", e recebi na própria censura uma espécie de moção elogiosa por ajudar uma possível campanha de trânsito, no futuro...
Já tive censurada uma letra sobre a gravidez da minha mulher.
Foi considerada imoral.
Dizia do meu conflito moral, pequeno burguês, e justamente por isso resolvi submetê-la à crítica pública: era a minha inquietação numa praia, por estar ao lado da minha mulher, grávida.
Do outro lado havia uma mulher que eu não conhecia.
Era muito bonita e usava uma tanga.
Coloquei isso: naquele momento eu estava gostando das duas, e concluía com uma moral: em alguns momentos eu me sentia sábio, e em alguns, cretino.
Consegui até fazer a síntese no final, porque quem vai à praia domingo, com a mulher grávida, sabendo da quantidade de tangas que existem lá, é sábio e cretino.
Isso foi considerado imoral...
Aldir com Moacyr Luz, Beth Carvalho e Maria do Rosário, dona de um bar na Tijuca
Ary Lago/Agência O GLOBO
MOBILIDADE SOCIAL.
"A ânsia do cara sentir que está melhorando de vida, mesmo com a fome alheia, faz com que ele diga, em Ramos, que agora está para morar em Vila Isabel, num prédio com piscina.
É bem verdade que a piscina tem dois por dois metros, e que, se resolverem descer todos no domingo, vai haver uma catástrofe.
Ao mesmo tempo, sei que os moradores da Vila querem ir para Copacabana, os de Copacabana para Ipanema, e os de Ipanema para não sei onde.
Eles não sentem que tem um momento em que o cara não tem mais para onde ír, porque os seus núcleos de identificação estão completamente destruídos.
Aí vem essa aspiração ridícula de ser um cidadão do mundo.

VILA ISABEL.
"Minha relação com Vila Isabel tem uma nuança impressionista grande.
Me lembro, por exemplo, quando da morte de Getúlio, das mulheres saindo para chorar na rua.
Lembro de um tipo de convivência em que todo mundo à noite colocava sua cadeira na calçada, havia um convívio maior...
O rádio tocava na sala, o som saia pela janela e não impedia as pessoas de falar, talvez o programa fosse interessante e podia até mesmo ser ouvido em comum.
A Vila tinha um sentido de fraternidade maior, mais apurado...
Hoje em dia, eu trato a Vila dentro de uma política de resistência: não interessa se sou o único soldado da Vila, mas sou.
Posso ser o último, mas vão ter que me aturar.
Resisto a uma falsa ideia de desenvolvimento, de ascensão, de ser emergente.
Você caminha pela Vila e vê: me lembro de casas, de árvores, de um barulho ininterrupto de passarinho, um cachorro fazendo xixi em cada arvore.
Achar um cachorrinho aqui, hoje, vai ser uma dificuldade.
Achar árvore, também.
As casas estão sendo destruídas, daqui mesmo você vê que é impressionante o número de prédios.
LENDA DO PROGRESSO.
Quase não há mais a boêmia do tempo de Noel.
O que existe é um pessoal mais sossegado, aqui se conversa mais, se tem menos pressa.
Existe um tempo de conversa.
O pais anda aceleradamente em direção não se sabe de quê.
As pessoas têm a pretensão de acompanhar esse ritmo , e ele impõe certas modificações: o sujeito que andava de bermuda anda de gravata; o cara que usava gíria, hoje tem vergonha de usar, o sujeito fumava cigarros sem filtro e fuma agora um longo, parece um canudo na boca.
Ele tenta acompanhar essa lenda que está sendo vendida por aí, pelo jornal, pela tevê, pela política, de que nós estamos bem, estamos crescendo, e você precisa crescer junto com a gente.
Então ele cresce malignamente, cancerosamente, desorganizadamente.
Crescer de forma saudável implica, antes de mais nada, saber bem o que é o brasileiro, qual a sua aspiração.
Hoje em dia você cresce, tenta o desenvolvimento, mas a aspiração do brasileiro, essa ninguém conhece.
O pessoal de Belo Horizonte não está satisfeito com o que fizeram com a cidade deles.
Então, aquilo não cresceu, não é óbvio? O carioca está sendo agredido pelo metrô.
Então, não está melhorando.
O carioca e o brasileiro estão mais tristes.
E um ex-presidente da República foi obrigado a reconhecer que a economia vai bem, mas o povo vai mal.
Isso é um contrassenso.
CASA COM QUINTAL.
Se tivesse dinheiro para comprar uma casa, compraria uma com quintal em Vila Isabel.
É claro que eu posso ouvir da mulher, dos filhos, dos amigos, uma série de outros argumentos.
A minha filha tem um ano e oito meses, e vai ser uma briga muito dura convencê-la de que um quintal de cinco por cinco na Vila é melhor do que Ipanema inteira.
Será a chamada luta inglória.
A psicanálise dá diversas significações para a casa, e não é à toa.
Quem você reúne nela, o que ela representa, como você vive no seu interior; é uma casa ao lado de que outras casas? O que as pessoas dessa casa produzem, a partir do momento em que se sentem mais ou menos felizes dentro dela? Uma casa é um momento político da vida do homem.
Acho horroroso o sujeito tratar a própria casa como se trata qualquer motel da Barra da Tijuca: um tem piscina, o outro não tem, um tem espelho na parede, o outro não.
Eu vim de uma casa da Rua dos Artistas que hoje é uma casa de cômodos.
Havia um outro espírito...
Não apenas no sentido de família, é mais complicado...
Você tinha um tipo de festa, de relacionamento, de sinceridade, que o próprio processo político tende a dividir.
Hoje, toda vez que você quer mentir, você diz que é um realista; toda vez que você quer ser desonesto, você diz que é um profissional.
Nós temos os realistas da mentira e os profissionais da desonestidade.
É fantástico.