A menção ao nome de Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, em depoimentos de servidores recém revelados no inquérito sobre o Banco Master, tem estimulado aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a tentar ligar o economista indicado ao cargo por Jair Bolsonaro (PL) com o escândalo protagonizado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Em comício realizado neste domingo na avenida Paulista, em São Paulo (SP), Fernando Haddad (PT), ex-ministro da Fazenda, mencionou Campos Neto em declaração pedindo de aprofundamento das investigações. Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente candidato à reeleição, engrossou o coro. — O Banco Master foi criado no governo Bolsonaro, o Vorcaro virou banqueiro no governo Bolsonaro e foi no nosso governo que o Banco Master foi fechado por roubalheira corrupção, com o Vorcaro sendo preso. Esse é o fato — disse Alckmin a jornalistas. — Agora cabe ao Judiciário aprofundar as investigações. Os aliados de Lula avaliam que a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula nesta eleição, ainda não sofreu todo o dano que pode tomar em razão de ele ter tido uma conexão direta com Vorcaro, que financiou a maior parte de um filme sobre Jair, hoje preso em domicílio cumprindo pena por tentar golpe de estado. Campos Neto, que passou a trabalhar como vice-chairman do banco Nubank depois de sair do BC e cumprir quarentena, não é candidato e não tem filiação partidária, mas a campanha dos petistas avalia que ele é um nome chave para ligar Flávio a Vorcaro, por ter sido indicado por Jair para chefiar a principal autoridade financeira do país. O nome do economista apareceu em inquéritos tornados públicos na sexta-feira, em que servidores do BC que teriam sido aliciados por Vorcaro o mencionam. Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC que tinha conexões com Vorcaro, disse que Campos Neto soube ainda em 2024 que o Master tinha feito operações suspeitas usando um fundo para alavancar sua liquidez artificialmente, para captar recursos cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito e tentar se alavancar. O fato só foi comunicado ao Ministério Público Federal em outubro de 2025. Haddad, que ainda era ministro na época, disse que soube do problema quando Campos Neto terminou seu mandato e foi substituído pelo indicado de Lula, Gabriel Galípolo. — O que eu sei, porque foi me comunicado oficialmente em reunião de agenda, foi que vários atores do mercado financeiro, durante mais de um ano, alertaram o presidente Campos Neto de que o que estava acontecendo no Master era, no mínimo, estranho, e exigia uma investigação minuciosa da autoridade reguladora, que é o Banco Central — afirmou. — E, segundo esses depoimentos, esses alertas foram ignorados. Isso não foi dito clandestinamente. Isso me foi dito em audiência marcada no meu gabinete. Haddad lamentou que Campos Neto não tivesse sido convocado, ainda, para depoimento aprofundado no caso, mesmo que algumas dessas informações já tivessem sido divulgadas antes da quebra de sigilo sobre o inquérito, determinada na última sexta-feira (11) pelo ministro Edson Fachin, do STF. — Eu tenho as informações de que, pelo menos durante o ano de 2024, os alertas foram feitos ao Banco Central, oficialmente, por parte do Fundo Garantidor e por parte de atores importantes do mercado financeiro — completou Haddad. — Isso me foi comunicado e eu já disse isso publicamente mais de uma vez: os alertas foram ignorados. Depois de falar com a imprensa rapidamente na Paulista, Haddad e Alckmin se dirigiram a uma concentração de apoiadores e discursaram em microfone. O escândalo Master foi praticamente o único assunto levantado ali. — Depois de muita briga, até com o presidente da República entrando no debate, nós conseguimos levantar o sigilo de parte das falcatruas do Vorcaro. Mas nós não conseguimos ainda levantar o sigilo de tudo de errado que ele fez contra esse país e das pessoas que ele comprou para ter o benefício que ele teve ao longo do governo Bolsonaro — afirmou Haddad. — Nós temos que lutar por transparência. Quem está lutando contra as trevas, somos nós. Se depender deles, vai tudo para baixo do tapete. Um nome que ficou de fora do discurso de Haddad e Alckmin foi Alexandre de Moraes, ministro relator do inquérito que condenou Jair Bolsonaro, que foi posteriormente implicado no inquérito de Vorcaro quando o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, fechou contrato com o Master. Em relatórios da polícia federal revelados pelo ministro relator do caso, André Mendonça, Moraes aparece trocando mensagens com Vorcaro.
Moraes evitado Jornalistas perguntaram a Haddad se lhe parecia preocupante o fato de candidatos de direita estarem usando Moraes (que não tem filiação partidária e foi indicado pelo ex-presidente Michel Temer, do MDB) para tentar ligar a esquerda ao caso Master. Haddad não respondeu se ele e Lula devem evitar proximidade com Moraes, que foi associado ao governo federal pela opinião bolsonarista durante o inquérito do golpe. — O que a gente tem defendido é jogar luz sobre o problema. Quanto mais luz nós jogarmos sobre o problema, mais vai ficar claro quem é quem nessa história. De dez dias pra cá, o que tem sido defendido por todos nós é que nenhum sigilo se mantenha. Nada, nada, nada se mantenha — disse Haddad. — Muita coisa já veio a público, demonstrando a intersecção entre o bolsonarismo e o esquema do Vorcaro. Se nós levantarmos agora o sigilo de tudo dos celulares do Vorcaro, eu acho que nós vamos ter a oportunidade de passar esse país a limpo, ainda no primeiro turno. Alckmin, que indicou Moraes como secretário de Justiça quando era governador de São Paulo em 2002, discursou na Paulista contra Vorcaro também evitando menções a seu antigo subordinado. — Quem criou o Banco Master, o banco da corrupção e do desvio, foi o governo Bolsonaro — disse ao microfone. — O Vorcaro se tornou banqueiro no governo Bolsonaro. O governo do presidente Lula fechou o banco da corrupção, e o Vorcaro está na cadeia. O GLOBO entrou em contato ontem com o economista Roberto Campos Neto e com o Nubank pedindo comentário sobre a menção de seu nome em depoimentos de Paulo Sérgio à Polícia Federal, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem.
O Globo