Alana Cabral, a Joélly de 'Três Graças', conta que a mãe engravidou cedo como sua personagem: 'Tenho na vida um exemplo de mulher'
Vestido longo, maquiagem impecável e cabelo pronto para a “festa”. Nas imagens do ensaio que acompanha esta entrevista, Alana Cabral, a Joélly de “Três Graças”, posa como se estivesse fazendo as fotos do seu baile de formatura da faculdade. Na trama das nove, a menina, que engravidou aos 15 e vendeu a filha para tentar livrar o namorado de uma dívida de drogas, sonha ser médica. Se pudesse escolher o desfecho da adolescente, a atriz diz que não abriria mão do diploma em medicina. Enquanto fotografa na sofisticada Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa, Alana “realiza” o sonho da personagem.
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Veja fotos de Alana Cabral em ensaio exclusivo para a Canal Extra
— A única coisa que eu quero ver é Joélly se formar. Seria uma quebra de ciclos gigante no nosso país, para tantas meninas que engravidam cedo. Acho muito importante mostrar isso em rede nacional. O final feliz da Joélly seria ela com o canudo na mão, sendo o orgulho da mãe, após tanto caos — reflete a paulistana, que encara sua quarta novela.
Recentemente, ela terminou o ensino médio, um marco importante para qualquer jovem de 18 anos e teve uma festa de formatura memorável na vida real. A diferença é que, enquanto muitos colegas ainda decidem que caminho seguir, ela já vive a sua vocação diante das câmeras brilhando em sua estreia no horário nobre.
Aluna dedicada desde pequena, Alana aprendeu a equilibrar a rotina de gravações com os estudos.
— Meus pais nunca precisaram sentar comigo para estudar. Eu sempre prestava muita atenção na aula, porque sabia que em casa teria pouco tempo — diz ela, que conta sobre a formatura do ensino médio: — Nunca dancei, cantei e gritei tanto. No dia seguinte, eu tinha gravação e fui trabalhar sem dormir, mas muito feliz.
Se Joélly planeja vestir um jaleco branco, Alana percebeu cedo que só seria realizada na atuação.
Alana Cabral
Márcio Farias
— Quando eu era criança, dizia que queria ser veterinária, porque gostava de animais. Também falava que ia ser cantora. Acho que encontrei a profissão certa, porque assim posso ser médica, adolescente, veterinária…
Por enquanto, a atriz decidiu adiar o vestibular. Com a novela no ar e novos projetos no horizonte, prefere investir em cursos mais rápidos.
— “Três Graças” me deu uma bela sequestrada nesse momento (risos). Mas quero estudar cinema, artes cênicas... Faculdade é algo que quero fazer com calma. Não preciso ter pressa aos 18 anos!
Na ficção, Joélly enfrenta um dos dramas mais delicados da adolescência: a gravidez precoce. Para interpretar a personagem, Alana mergulhou em pesquisas e relatos reais. Entre as referências está o documentário “Meninas” (2006), que acompanha histórias de jovens mães.
— Estudei demais esse doc e vi várias cenas de parto. A gente consegue sentir a dor dessas garotas. Existem muitas que precisam parar de sonhar para cuidar de um bebê. Se sentem perdidas e não são acolhidas pelo Estado nem pela família.
Alana Cabral
Márcio Farias
Desde que a novela estreou, Alana tem percebido como a personagem toca o público. Um encontro recente a marcou especialmente:
— Uma menina de uns 20 anos veio falar comigo com uma criança de 3 anos no colo. Estava emocionada e disse: “Você me representa”. Olhei pra ela, pra filha dela e pensei: “Podia ser qualquer uma de nós: Joélly, eu, uma amiga...”. Ela contou que, assistindo à novela, conseguia enxergar a própria história de outra forma e perceber o que fez de errado e também o que as pessoas ao redor fizeram de errado com ela. Mexeu comigo.
Mas a própria história familiar serviu de inspiração. Amanda, a mãe de Alana, engravidou do irmão mais velho da atriz aos 18 anos.
— Não era tão adolescente quanto Joélly, mas ainda tinha muita coisa pela frente. Tenho na vida um exemplo de mulher batalhadora — afirma a jovem, que diferentemente de Joélly mantém uma relação de transparência com a mãe: — Eu conto tudo pra ela. Tudo mesmo. Contei do primeiro beijo no mesmo dia e ainda disse que foi horrível (risos). Mentir para Gerluce foi uma das coisas mais difíceis de interpretar.
Filha e neta de professoras, Alana teve conversas sobre educação sexual desde novinha.
Alana Cabral
Márcio Farias
— Quando eu tinha 9 anos, minha avó me mostrou um livro sobre o corpo. Não foi uma única conversa. Foram vários momentos ao longo da minha vida que me ajudaram a entender que eu preciso ser respeitada. Minha tia é sexóloga e faz ações sociais com jovens. Tive sorte de ter essa base, mas me dói saber que várias crianças não têm. Muitos acham que, por causa da internet, não precisamos mais falar sobre educação sexual. Mas é urgente — diz Alana, defendendo que o tema vai muito além da prevenção da gravidez: — Educação sexual também ensina meninas a conhecerem seus limites e meninos a crescerem mais respeitosos. A gente vê tantos casos de abuso… Joélly caiu como uma luva, porque eu consigo fazer o que amo, que é atuar, e também jogar luz sobre questões importantes.
A trajetória de Alana até a TV começou cedo e sempre foi acompanhada de perto pela família. Natural de Vila Sílvia, na Zona Leste de São Paulo, a filha de uma educadora — que também trabalhou como palhaça — e de um diretor comercial traz no DNA a resiliência da periferia. Os pais saíram de casa muito jovens e construíram a vida com esforço.
— Minha mãe é artista. Foi palhaça para ajudar a sustentar a casa. Minha veia artística vem dela.
Por conta do trabalho do pai, Ayrton Cabral Junior, a família se mudou para Petrópolis, na região serrana do Rio. Foi lá que a menina de 8 anos fez um desabafo inesperado.
— Falei: “Pai, você está acabando com a minha carreira. Aqui não tem aula de teatro” — relembra ela, recordando que ele riu, mas levou a sério: — Foi atrás de um curso de teatro no Rio. Todo domingo a gente descia a serra: eu, meus pais e meus dois irmãos (Tom, de 22 anos, e Alicia, de 14). Eu fazia aula e eles ficavam me esperando na orla, tomando sol, água de coco, dormindo no carro quando chovia. Foi um sacrifício da família inteira.
Alana Cabral
Márcio Farias
O esforço coletivo deu resultado. Depois, todos voltaram a morar em São Paulo, e logo veio o teste para a novela “Verão 90” (2019).
— Pegamos um ônibus de ida e volta para o Rio só para fazer o teste. Dois dias depois, veio a notícia de que eu tinha passado. Em um mês, nos mudamos de vez. Sou muito grata à minha família. Meus irmãos abriram mão de coisas por causa do meu sonho. Trocaram de escola, deixaram amigos... Hoje a gente ama o Rio. Não sei se voltaria a morar em São Paulo — conta.
O caminho não foi pavimentado apenas por facilidades. Alana é sincera ao falar dos “nãos” que moldaram sua trajetória.
— Já chorei muito. O “não” faz a gente questionar o que fez de errado. Mas às vezes não é você. Às vezes, só não é o momento ou a personagem certa.
O tempo, agora, é de colheita. Com mais de 500 mil seguidores nas redes sociais, a artista lida com a fama mantendo os pés no chão, embora se emocione ao ser reconhecida por meninas negras que nela enxergam um espelho.
Alana Cabral
Márcio Farias
— Joélly me trouxe muito a sensação de representatividade. Outro dia três garotas, de uns 12 anos, me viram no aeroporto e começaram a gritar meu nome.
Também tem quem confunda as bolas e pense que a atriz é a personagem.
— Às vezes o público me vê como a Joélly. Já me perguntaram se estou grávida e se eu e Paulo (Mendes, o Raul da novela) somos um casal de verdade. Meu namorado até brinca às vezes: “Que palhaçada é essa aí?” (risos). Mas eles já se conhecem e se gostam muito. Não tem nada de ciúme!
Na vida pessoal, a atriz vive o desafio de um namoro a distância com o ator João Guilherme Fonseca, que mora em Singapura com a família. Com 11 horas de fuso de diferença, o romance acontece no “off”, preservado da exposição.
— Como ele mora lá, não dá para assistir à novela ao vivo, mas ele tenta ver. A gente se conheceu aqui no Rio e tô curtindo namorar ele. Mas gosto de deixar o meu relacionamento mais privado.
Alana Cabral
Márcio Farias
Umbandista praticante, Alana busca na fé e na ancestralidade o equilíbrio para a rotina.
— Sou nascida e criada na umbanda. Minha bisavó era mãe de santo, minha avó e minha mãe também. Sempre fui agarrada à minha fé. Acredito que se eu tiver coisas boas para oferecer ao mundo, o mundo terá coisas boas para mim. É muito importante se proteger espiritualmente. Não importa se você acredita na Bíblia, em Cristo, em provérbios africanos... Quando eu me sentia perdida ou pensava “por que nada está acontecendo?”, eu agradecia, repetia para mim mesma que tudo tem seu tempo, acendia uma vela.
Deu certo!
Créditos:
Reportagem e produção executiva: Isabella Cardoso
Edição: Camilla Mota
Fotos: Márcio Farias @marciofariasfoto
Styling: Ale Duprat @aledupratoficial
Assistente de styling: Lara Mota @larooty
Beleza: Vivi Gonzo @makegonzovivi
Agradecimento: Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa @julietadeserpa
Alana Cabral usou:
Look nude: Splash @splash.boutique
Look verde: Fabulous Agilità @agilitabrasil
Look rosa: Fabulous Agilità @agilitabrasil
Joias: Atelier Iara Figuêiredo @iarafigue
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