'AK-47 dos céus': conheça drone iraniano de baixo custo que mudou paradigma da guerra
A guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã está evidenciando uma mudança profunda no modo como conflitos são travados no século XXI: drones suicidas baratos podem ter impacto tão grande quanto armas que custam bilhões de dólares.
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No centro desse debate estão dois equipamentos quase idênticos: o drone iraniano Shahed-136 e o LUCAS (Low-cost Uncrewed Combat Attack System), versão mais recente do arsenal americano. Curiosamente, segundo a revista Forbes, o sistema dos Estados Unidos foi desenvolvido a partir da engenharia reversa do próprio modelo iraniano.
Drone dos Estados Unidos com inspiração em modelo iraniano.
Divulgação / Exército dos EUA
O Shahed-136 ganhou notoriedade não por sua sofisticação tecnológica, mas por algo mais simples — custo e escala. Estimativas indicam que cada unidade custa entre US$ 10 mil (aproximadamente R$ 52 mil) e US$ 50 mil (aproximadamente R$ 263 mil) para ser produzida no Irã. Seu design triangular reduz o número de peças estruturais e simplifica a montagem, permitindo produção em massa.
Essa lógica muda o cálculo militar: em vez de disparar mísseis que custam milhões de dólares, o Irã pode lançar centenas de drones simultaneamente, saturando sistemas de defesa aérea. A estratégia inspirou a criação do LUCAS, drone americano projetado para ataques em grande volume e que custaria cerca de US$ 35 mil por unidade, segundo veículos de imprensa dos EUA.
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Além do baixo custo, esses drones podem operar em rede, coordenando movimentos durante o voo — um reflexo da mudança estratégica do Pentágono para o chamado “attritable warfare”, conceito que prioriza armas baratas o suficiente para serem perdidas em grande número.
Ataques em massa
Nos primeiros dias do atual conflito regional, o Irã teria lançado centenas de drones Shahed contra alvos no Golfo, segundo estimativas militares citadas pelo New York Times. Desde o início das hostilidades, o número total de drones de ataque lançados na região pode chegar a 2 mil.
Alguns atingiram diretamente seus objetivos. Dois acertaram o complexo da embaixada dos Estados Unidos em Riad. Outro ataque em Kuwait provavelmente matou seis militares americanos. Também houve ataques a portos, infraestrutura petrolífera, hotéis e instalações diplomáticas.
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Enquanto mísseis balísticos costumam dominar as manchetes, especialistas afirmam que os drones estão transformando silenciosamente o campo de batalha.
A 'AK-47 dos céus'
O impacto estratégico está ligado ao desequilíbrio de custos entre ataque e defesa. Interceptadores de defesa aérea podem custar milhões de dólares, enquanto um drone Shahed pode valer apenas dezenas de milhares.
“É completamente insustentável disparar um interceptador de um milhão de dólares contra um drone de €30 mil (aproximadamente R$ 160 mil)”, observou um analista europeu de defesa.
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Por isso, especialistas militares passaram a chamar o Shahed de “AK-47 dos céus” — uma arma simples, robusta, barata e extremamente eficaz quando usada em grande número.
Drone 'kamikaze' Shahed-136, usado pelo Irã no ataque a Israel, também é fabricado na Rússia
Reprodução/Youtube
O modelo também apresenta características que dificultam a interceptação: pode voar a baixa altitude, possui alcance de até cerca de 2 mil quilômetros e é frequentemente utilizado em ataques simultâneos em massa.
Guerra de desgaste
O Irã não depende apenas de drones. Mísseis balísticos e de cruzeiro continuam sendo usados, mas analistas afirmam que os drones cumprem papéis estratégicos importantes: saturar defesas aéreas, forçar o uso de interceptadores caros, atingir alvos menos protegidos e ampliar o campo de batalha.
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Dados divulgados por autoridades do Golfo indicam que, nos primeiros dias da guerra, um país da região enfrentou 165 mísseis balísticos e mais de 500 drones. Embora a maioria tenha sido interceptada, mais de uma dúzia de drones conseguiu atingir estruturas civis.
O uso intensivo desses equipamentos já havia sido observado na guerra da Ucrânia. O Irã forneceu milhares de drones Shahed à Rússia, que os utilizou em ataques noturnos contra infraestrutura ucraniana.
Agora, segundo analistas, Teerã aplica táticas semelhantes no Oriente Médio: enxames de drones combinados com mísseis em ataques em camadas projetados para sobrecarregar radares e estoques de interceptadores.
Estratégia de sobrevivência
Para alguns especialistas, a escala dos ataques reflete um cálculo estratégico de longo prazo.
“Para o Irã, esta precisa ser a última guerra”, disse o especialista em Irã Vali Nasr em entrevista ao New York Times. “Eles querem fazer o Ocidente acreditar que guerras com o Irã serão muito custosas.”
Autoridades iranianas também afirmam que armamentos mais avançados ainda não foram utilizados, indicando que os drones podem ser apenas a primeira fase de uma estratégia prolongada de desgaste.
No campo de batalha moderno, analistas resumem a mudança em termos simples: mísseis podem decidir batalhas — mas drones podem decidir quanto tempo uma guerra consegue durar.
