Ainda uso mochila

 

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A primeira foi meio quadrada, tinha duas fivelas, com vinil branco nas bordas e brim no resto. A padronagem era escocesa, azul-marinho, branca e amarela. Não estranhem a precisão na memória: ao menos nessa época, eu era um ícone fashion. Com ela, carregava livros e um caderno enorme, com várias matérias e um surfista na capa. Com todo o material dentro, ela pesava umas duas toneladas. Ao menos era o que me parecia, aos 10 anos.

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Mesmo com esse peso todo, era bem melhor que a antiga e ultrapassada pasta, tipo baú. A nova tinha alças, dava para levar nas costas e deixava as mãos livres para aplicar pescotapas e petelecos na saída do colégio e, claro, para fugir das consequências.

Quem foi o gênio que inventou a mochila?

Foi ali pelo meio dos anos oitenta que apareceram as de náilon com zíper e um bolso externo, muito mais leves e práticas. Como as da Company: só quem viveu lembra a febre que foi. O uniforme da época: camiseta do colégio, jeans surrados, uns tênis que um dia foram brancos e a mochila. Ah, e a carteira emborrachada de velcro.

Não precisava mais nada para sair de casa.

Eu sabia que um dia essa simplicidade ia acabar. Eu me tornaria adulto e teria que me vestir como eles: o tênis daria lugar ao sapato fechado, os jeans surrados, às calças de pano, a camiseta, à camisa de botão. Talvez uma gravata, quiçá um terno.

E a mochila seria trocada pela pasta de executivo, tipo 007. Aquela retangular, com uma alça e um fecho com chave ou segredo. A mesma que nossos pais usavam e largavam em cima do sofá quando chegavam em casa, reclamando do dia, do trabalho, da vida.

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Era usar uma dessas pela primeira vez e dar adeus à juventude para sempre.

Na faculdade, porém, a mochila resistiu. Levada para todo lado no ombro direito, só mudou o conteúdo: o estojo foi trocado por uma única Bic com tampa mordida, o caderno ficou mais organizado e os livros se multiplicaram. Até na formatura ela se fez presente. Manter a mochila no ombro era uma maneira de empurrar a chegada da vida adulta para a frente.

Mas vejam só o que me aconteceu.

Vieram o primeiro emprego, a saída da casa dos meus pais, as viagens pelo mundo, o casamento, o filho. Entraram e saíram jeans surrados, calças de pano, camisetas de bandas de rock, camisas de punhos duplos, mocassins finos, tênis ordinários, dezenas de havaianas e até um chapéu panamá.

A pasta 007? Nunca chegou.

Foi na semana passada que me dei conta de que, entre tantas coisas que passaram, a mochila foi a única que continuou ali, no meu ombro, acompanhando-me por todos os lados. Mudaram suas cores e marcas, mas, na essência, sempre foi a mesma. Náilon, zíper, um bolso grande do lado de fora. Ela continua prática, ainda que os petelecos e pescotapas não sejam, por sorte, tão frequentes. Sim, ainda continuo correndo das consequências dos meus atos.

Tenho uma sensação de abraço ao pegar a mochila para sair. São quase cinquenta anos juntos, para cima e para baixo.

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Já estou próximo dos sessenta, mas, cada vez que abro a porta com a mochila no ombro, tenho a breve ilusão de que a vida adulta, com todas as suas preocupações e problemas, ainda não chegou. Como se ela ainda me sussurrasse toda manhã: vamos logo, que hoje vai ter pelada no recreio e fliperama depois da aula.

Às vezes, um pouco de ilusão é só o que a gente precisa para sair pela vida feliz.

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