Aiatolás não estavam em prédio atingido por ataques de Israel; reunião que elegerá sucessor de Khamenei passa a ser virtual
A Assembleia de Especialistas do Irã, órgão responsável por escolher o próximo líder supremo do país, tem realizado reuniões virtuais desde a morte do aiatolá Ali Khamenei, no último sábado. Nesta terça-feira, ataques atribuídos a Israel e aos Estados Unidos atingiram um dos prédios do complexo, mas nenhuma sessão da assembleia que elegerá o sucessor de Khamenei estava sendo realizada no momento, de acordo com a agência de notícias semioficial iraniana Fars. Segundo a agência, a assembleia está nos “estágios finais” da escolha de um novo líder supremo.
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Com a saída de Khamenei, seus poderes foram temporariamente transferidos para um conselho de três pessoas composto pelo presidente Masoud Pezeshkian, o chefe do Judiciário Mohseni-Ejei e um clérigo sênior do Conselho dos Guardiães, formado por 12 juristas que supervisiona as atividades do Parlamento iraniano, até que um novo líder supremo seja escolhido.
Prédio do órgão que escolhe o líder supremo do Irã sofre ataque de Israel e dos EUA
Mais cedo, a agência de notícias Mehr já havia informado que o prédio atingido já não estava sendo usado para reuniões, enquanto a agência Tasnim relatou que outros ataques já haviam atingido na segunda-feira a sede principal da Assembleia dos Especialistas em Teerã. As ofensivas ocorrem após a República Islâmica anunciar, no domingo, o início de um processo de transição.
Prédio da Assembleia de Especialistas, órgão que escolhe o líder supremo do Irã, sofre ataque de Israel e dos EUA
Editoria de Arte/O Globo
Mais cedo, as Forças Armadas de Israel bombardearam a Presidência do Irã e a sede do Conselho de Segurança do país. No mesmo dia, um dos dois aeroportos de Teerã, o de Mehrabad, que opera principalmente voos domésticos, foi alvo de ataques israelenses e americanos. O Exército de Israel também disse, em comunicado, que sua força aérea atingiu instalações industriais “em todo o Irã” usadas para produzir armas, “especialmente mísseis balísticos”.
Sem mencionar os ataques, veículos de comunicação do Irã afirmaram que Mojtaba Khamenei, filho do líder da República Islâmica morto, “está em plena saúde”. A agência de notícias Mehr escreveu que Mojtaba “acompanha neste momento questões relacionadas às famílias dos mártires, a condução dos assuntos, consultas e a análise de temas importantes do país”. Segundo filho de Ali Khamenei, Mojtaba tem sido mencionado nos últimos anos como possível sucessor do pai.
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O escritório e a residência de Khamenei foram bombardeados no sábado, no início da guerra com Israel e os EUA. Na segunda, a imprensa iraniana informou que sua esposa, Mansoureh Khojasteh Bagherzadeh, morreu após permanecer três dias em coma em consequência do ataque. A mesma ofensiva também matou Zahra Haddad Adel, nora de Khamenei e esposa de Mojtaba Khamenei, além de uma filha do líder supremo, o marido dela — genro de Khamenei — e um de seus netos.
A confirmação da morte do líder supremo da República Islâmica não aplacou a ofensiva, que já destruiu ou avariou instalações militares, arsenais de mísseis e mesmo instalações nucleares. Houve também a confirmação de danos a infraestruturas civis — o principal deles a uma escola de ensino primário, que o governo iraniano diz ter resultado na morte de 175 pessoas na cidade de Minab, a maioria meninas.
Ao menos um ataque parece ter atingido diretamente o programa nuclear iraniano, apontado pelo presidente Donald Trump como alvo prioritário da contenção americana. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou nesta terça que houve danos aos “edifícios de entrada da central subterrânea de enriquecimento de combustível de Natanz”, uma das principais centrais nucleares do país. A autoridade nuclear da ONU, porém, afirmou que não foram detectadas quaisquer “consequências radiológicas”.
Embora o enfrentamento com o Irã venha sendo prioritariamente uma guerra aérea, combates navais também parecem estar em curso no Golfo Pérsico, onde parte da frota americana enviada ao Oriente Médio está mobilizada, e onde drones navais iranianos acertaram navios-petroleiros nos últimos dias. Há também o primeiro indício de uma ação por terra: fontes ouvidas pelo jornal al-Arabiya afirmaram que Forças Especiais de Israel teriam realizado uma operação em solo iraniano.
Estratégia coordenada
Os EUA e Israel também vêm atacando delegacias de polícia, centros de detenção e escritórios de inteligência do Irã, além de alvos militares tradicionais, em um aparente esforço para enfraquecer as complexas e arraigadas agências de segurança do país. Para especialistas ouvidos pelo New York Times, os ataques podem fazer parte de uma estratégia para incentivar a manifestação de iranianos contrários ao regime.
— Este é claramente um dos principais objetivos desta operação: desmantelar a máquina operacional de um regime — afirmou Farzin Nadimi, analista de defesa especializado no Irã no Washington Institute for Near East Policy.
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Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, de Israel, classificaram a ofensiva como uma “oportunidade histórica” para que os iranianos derrubem seu governo. Eles ofereceram poucas explicações públicas sobre como uma população civil desarmada poderia fazer isso diante de um aparato de forças de segurança fortemente armado.
Ainda não está claro se os ataques encorajarão os iranianos a tentar derrubar o governo. Mesmo assim, analistas dizem que atingir delegacias locais e centros de detenção — onde milhares de manifestantes e dissidentes foram mantidos ao longo de ondas de protestos antigoverno no Irã — terá um peso simbólico para muitos iranianos.
As Forças Armadas de Israel, por sua vez, deram sinais contraditórios sobre suas intenções. O tenente-coronel Nadav Shoshani, porta-voz do Exército israelense, afirmou nesta terça que o Estado judeu estava “agindo contra ameaças militares e terroristas aos nossos civis”. Mas acrescentou: “Estamos mirando o aparato de segurança iraniano, que também inclui elementos relevantes para a repressão do povo iraniano”.
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Entre esses alvos, segundo Shoshani, está a Basij, uma milícia à paisana afiliada à força militar mais poderosa do Irã, a Guarda Revolucionária Islâmica. A Basij, estimada em cerca de um milhão de integrantes, desempenhou papel central na repressão a protestos anteriores e auxiliou na repressão brutal às manifestações nacionais que começaram em janeiro e deixaram milhares de mortos.
O Exército israelense divulgou um vídeo mostrando um ataque de grande intensidade contra o que afirmou ser o quartel-general da unidade Thar-Allah, da Guarda Revolucionária, na capital Teerã, que no passado foi uma das principais forças encarregadas de defender o governo e instituições estatais. Vídeos gravados em Teerã e verificados pelo NYT mostram montes de escombros ao redor dos restos destruídos de uma delegacia próxima à Praça Nilufar, na região central da cidade.
Outras imagens verificadas pelo jornal mostram danos em outra delegacia no centro de Teerã no início desta semana. Grande parte do sistema de segurança iraniano está profundamente enraizada nas cidades, e ataques americanos e israelenses contra esses locais trazem alto risco de mortes de civis. Alguns ativistas de direitos humanos também expressaram preocupação de que ataques a instalações de segurança possam colocar em perigo pessoas detidas ali.
(Com AFP e New York Times)
