O agricultor familiar Joaquim Aparecido Alves da Cruz, de 58 anos, ajudava o pai no plantio do algodão no norte de Minas Gerais desde criança. Aos 18 anos, passou a ter sua própria roça, mas na década de 90 parou de plantar algodão porque a colheita de 30 a 60 arrobas por hectare já não pagava a conta. Voltou para o algodão após se associar à Cooperativa dos Produtores Rurais de Catuti, que uniu os pequenos agricultores, agregou tecnologia no campo e passou a comprar e beneficiar a pluma, afastando os atravessadores. “Antes, a gente plantava algodão de sequeiro. Quando comecei com a irrigação de gotejo, produzia de 180 a 230 arrobas por hectare, mas tive problemas com a água do rio. Adotei o pivô e cheguei no ano passado a 260 arrobas. Neste ano, colhi pela primeira vez com máquina da cooperativa e espero atingir 300 arrobas”, diz o produtor que planta 2,5 hectares e também trabalha com leite. Ele diz que a cooperativa, além de comprar o algodão, ajuda com as sementes, adubo e assistência técnica. No ano passado, Joaquim gastou R$ 6.000 com a colheita. Neste ano, com a máquina da cooperativa, estima metade do custo e espera obter um lucro de R$ 20 mil com seu algodão. Joaquim Aparecido Alves da Cruz (ao fundo, à esquerda) e seus dois filhos com a colheita de algodão da família Arquivo pessoal José Tibúrcio de Carvalho Filho, gerente técnico da cooperativa fundada em 2006 com a retomada do algodão em Minas, diz que a região norte de Minas era tradicional produtora de algodão até meados de 1990, mas faltava tecnologia para elevar a produção e produtividade. "A chegada do bicudo (maior praga da cultura), associada com outras doenças, praticamente dizimou os 130 mil hectares de algodão do Estado. Inspirado em modelos de manejo adotados em outros Estados para lidar com a praga e com o auxílio da cooperativa, os pequenos produtores mineiros, mais envolvidos com produção de leite e outras culturas, voltaram a investir no algodão", comenta Carvalho Filho. Em 2012, a área plantada na região chegou a 3.000 hectares, mas o clima obrigou os cotonicultores a mudar a forma de cultivo. De 2011 a 2015, houve seguidos veranicos de até 60 dias, que derrubaram a produtividade e a qualidade do algodão e desanimaram os produtores. A cooperativa fez, então, uma experiência com irrigação de salvação em uma área de 2.500 m², que produziu 4.500 quilos. Na área testemunha, sem irrigação, a produção foi de 450 quilos. “Concluímos, então, que a irrigação era necessária porque na nossa região semi-árida faltam chuvas em janeiro e fevereiro. Atualmente, quase 100% dos produtores associados usam algum tipo de irrigação", destaca. Outro gargalo, segundo Carvalho Filho, era o sistema de beneficiamento de algodão, que era rudimentar até 2024. Uma parceria com a Associação Mineira dos Produtores de Algodão (Amipa) permitiu a construção de uma nova usina que beneficia todo o algodão dos cooperados. Além disso, a cooperativa adquiriu uma máquina no ano passado que colhe até 600 arrobas por dia - na colheita manual, esse volume demanda 45 dias de trabalho. “Um bocado de gente foi ver a estreia da colheitadeira”, contou o gerente. A máquina é uma John Deere de geração antiga adaptada para colher o algodão em pequenas áreas. Além da rapidez, a colheitadeira resolveu o problema do ensacamento, que era um fator limitante da rentabilidade porque antes os produtores usavam sacos de café para guardar a pluma e algumas indústrias não aceitavam esse algodão alegando risco de contaminação por plástico dos sacos. A cooperativa incentiva também a adoção de cultivares mais resistentes e enfatiza a necessidade de investimento na nutrição adequada das plantas. Outra tecnologia adotada recentemente que deve elevar a produtividade é o uso de drones na pulverização.
Carvalho Filho diz que a tecnologia agrega muito porque alguns agricultores são resistentes ao uso dos EPIs (equipamentos de proteção individual) no trabalho manual de pulverização. A cooperativa comprou um drone e faz escala de uso nas propriedades. A colheita na região segue até o final de outubro. A área plantada por 31 produtores nesta safra somou 270 hectares, com uma produtividade de até 350 arrobas por hectare, ante a média brasileira de 250 arrobas. A tendência, diz o gerente, é triplicar a área nos próximos anos. A estimativa de custo de produção é de R$ 11,3 mil por hectare, com faturamento de R$ 27 mil. "Produtores de alimentos vêm enxergando a qualidade e rentabilidade do nosso algodão produzido com tecnologia, que tem vantagem sobre outras culturas de poder ser armazenado de um ano para o outro", afirma o gerente. No ano passado, a cooperativa fez a primeira exportação, em parceria com a Cargill. Foram enviadas 50 toneladas de pluma para o Paquistão, mas Carvalho Filho diz que, para exportar regularmente, o volume de produção precisa aumentar. Colheitadeira de algodão da Cooperativa dos Produtores Rurais de Catuti Divulgação Programa de incentivo Lício Pena, diretor-executivo da Amipa, diz que na safra que está terminando os 160 produtores mineiros de todos os portes plantaram quase 40 mil hectares (39.839,60) de algodão e a estimativa é fechar com uma produção de 82.083 toneladas de pluma, sendo 50 mil destinadas à exportação. Na safra passada, que teve um veranico inesperado em fevereiro e março, a produtividade média no Estado fechou em 269 arrobas de algodão em caroço por hectare, mas nesta safra em que o clima ajudou a estimativa é chegar a 330 arrobas por hectare. Segundo o diretor, o Estado tinha sete usinas de beneficiamento de algodão há dez anos, número que passou para 18 neste ano. “O investimento em infraestrutura de beneficiamento prova que o setor está estruturado para crescer ao longo dos próximos anos, gerando empregos e renda no interior do Estado de Minas Gerais.” Para a próxima safra, a expectativa é plantar 42 mil hectares, um crescimento de 5%. A região noroeste tem a maior área plantada de algodão do Estado, seguido pelo Alto Paranaíba, região Norte e Triângulo Mineiro. Uma das preocupações da nova safra, diz Pena, é a ocorrência do El Nino. Para minimizar os impactos do fenômeno climático, a Amipa recomenda aos produtores a escolha das melhores áreas para o plantio, uso de plantas de cobertura, plantio direto, plantio dentro da janela ideal e escolha de variedades resilientes. O governo do Estado mantém desde 2003, o Proalminas (Programa Mineiro de Incentivo à Cultura do Algodão). Os cotonicultores recebem um ágio na venda para a indústria têxtil mineira de 7,85% sobre o preço referência do indicador Cepea/Esalq. A indústria também é beneficiada com a desoneração fiscal de ICMS de 41,66%. Pena diz que, segundo estudos da Fundação João Pinheiro, de cada R$ 1,00 que o Estado deixa de arrecadar com a desoneração fiscal, retorna aos cofres públicos estaduais o valor de R$ 1,40 com os impostos gerados pelo aumento da produção industrial. Exemplos do Ceará Além da cooperativa de Minas Gerais, o diretor-executivo da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), Marcio Portocarrero, aponta bons exemplos no Ceará de pequenos produtores de algodão, com média de 12 hectares. "É possível ser pequeno produtor de algodão com boa rentabilidade, desde que não seja de forma isolada. Precisa estar integrado em uma cadeia", afirma Portocarrero. A engenheira agrônoma Josefa Maria Francieli da Silva, assessora técnica da Associação dos Produtores de Algodão do Estado do Ceará (Apaece), diz que há dois perfis de pequenos produtores da pluma no Estado que recebem incentivos do governo: os agricultores familiares que plantam no sistema tradicional e os de base agroecológica, que só usam sementes convencionais e produtos biológicos e cultivam no máximo 5 hectares. Os 800 agricultores familiares espalhados por 42 municípios recebem assistência gratuita da associação, do Senar e das secretarias municipais de agricultura, além de subsídio para compra das sementes transgênicas. Segundo Josefa, o algodão é a renda extra do agricultor cearense que planta milho, feijão e cria cabras para consumo próprio. Os 161 produtores agroecológicos, concentrados na região de Tauá, são certificados para exportação, também recebem assistência técnica e horas de trator para preparo do solo. A colheita é manual. Josefa diz que a associação chegou a oferecer máquinas, mas falta preparo do solo para o uso das colheitadeiras, já que o relevo e solos pedregosos do semi-árido dificultam a mecanização. Estão sendo feitos testes com colheitadeiras manuais a gasolina de tecnologia chinesa. O equipamento age como se fosse um aspirador e o agricultor consegue colher sua área sozinho na metade do tempo. O beneficiamento é feito em duas indústrias antigas parceiras da Apaece, que compram o algodão em rama. Há também a opção de terceirizar o beneficiamento da pluma em uma indústria grande. O grupo agroecológico tem sua própria usina. “Nos dois casos, a associação articula para que o produtor obtenha um preço justo na indústria têxtil.” A irrigação de salvação está nos planos futuros, mas antes é necessário fazer um trabalho para captação de água, já que no Estado a água dos açudes é direcionada para segurança humana e dos animais. Josefa, cuja família plantava cana-de-açúcar e mandioca, conta que se tornou produtora de sementes de algodão na região do Cariri depois de trabalhar nos projetos de reestruturação do plantio da pluma na agricultura familiar e observar que faltavam sementes. Ela começou a produção em áreas arrendadas e atualmente tem área própria de 10 hectares, com irrigação e colhe 20 toneladas de sementes por ano. O plano é expandir para 50 hectares, acompanhando o crescimento da área plantada no Estado.
Globo Rural