Agitador cultural ganha biografia ‘precoce’ que intercala momentos divertidos com a vivência de oito anos na prisão
Neste mundão cada vez mais pasteurizado, todo enquadradinho, é raro encontrar alguém com uma história fora do padrão, que mereça ser sacramentada em livro — e não estamos falando de fidalgos e afins. Falamos do povo mesmo, gente que rala. Pois Julio Cesar Barroso, mais conhecido em agitos culturais cariocas como Julinho Barroso, merecia essa graça — e a obteve. Legítimo representante do povo, ele acaba de se tornar o protagonista de “Dias de Glória, noites de cárcere”, uma biografia — ou, como diz, “uma pretografia precoce de um negão rasta” — assinada pelo dramaturgo e diretor teatral Marcus Galiña.
É bom alertar que se trata de uma biografia romanceada, estilo que, com frequência, faz muita gente torcer o nariz (em geral, com razão). Mas, desta vez, tudo funcionou direitinho, principalmente pelos toques surreais que permeiam as histórias reais de Julinho — incluindo aí mais de oito anos atrás das grades de algumas cadeias da cidade.
E é justamente com a prisão de Julinho que a narrativa se inicia. Sua “queda” ocorreu em outubro de 1994, quando teve a ideia de comprar uns baseados em uma favela próxima à sua casa, na Glória, Zona Sul do Rio. Fumaria os cigarretes durante um espetáculo do rei do soul, James Brown, que ocorreria por aqueles dias. Animado, ainda cravou: “Nem Deus me impede de ver esse show!”
Deus, no entanto, tinha outros planos. Julinho estava na boca de fumo quando a chapa subitamente esquentou. A polícia chegou abrindo fogo para todo lado. Ele tentou escapar e foi baleado, de raspão, no pescoço. Não morreu, mas quase. E o policial que o acertou ficou surpreso ao conferir que seu alvo tinha documentos, cartão de crédito e até recibo de pagamento. Era, afinal, um trabalhador legalizado.
“Então por que correu?”, perguntou o polícia.
“Vou tomar tiro parado?”, rebateu Julinho. Seria até um bom argumento para justificar a tentativa de fuga, mas era tarde demais. Socorrido, operado, preso e julgado, o gloriano acabou condenado como gerente do tráfico, e não como o usuário que, de fato, era. A justiça racista é simples assim.
O 'filho endiabrado’
Começava ali a grande aventura da vida dele. Não que Julinho fosse um sujeito comportado até então. Desde pequeno foi “o filho endiabrado”, garoto que conheceu uma delegacia aos 4 anos, depois de ser embriagado por uma empregada, e que cresceu dando trabalho em casa e nas escolas. Sorte, muita sorte dele, ter a família que tem, e ele deixa isso claro. Galiña alterna capítulos com causos “mais leves” — muitos deles no underground do Rio nos anos 1980 e 1990 — e as memórias do subsolo, citando um título de Dostoiévski.
Os episódios da cadeia são, por assim dizer, os mais curiosos — não é todo dia que seu dia a dia é contado com tanta crueza e, às vezes, humor desconcertante. É dureza, sim, com muitas insanidades e conflitos, mortes e rebeliões, os ônibus negreiros dos cortiços penais, tudo cercado por sua ética e etiqueta, com direito a dias de amor, lealdade, futebol, feiras livres, venenos antimonotonia e até paz de espírito.
Certo é que Julinho não perde a elegância, jamais. Nem a honestidade. Não tira onda de bonzinho, alma pura ou vítima da sociedade. Perambulou pelo lado gauche em muitos momentos da vida, e sabe que isso às vezes tem um preço. “Sempre fui precoce nas experimentações psicodélicas”, assume ele, que na outra ponta do extenso currículo registra também o cargo de coroinha de igreja e de trabalhador incansável das noites cariocas.
Além de personagens tão curiosos como humanos, há muitas reflexões bem sacadas ao longo da pretografia. No fim das contas, assim como a Glória, essa vivência nada banal concedeu a Julinho régua e compasso para tornar-se hoje, aos 58 anos, um agitador cultural com cabeça pensante bastante respeitado na cidade. Diga-se que, na cadeia, estudou muita filosofia, com especial interesse por Michel Foucault — aquele mesmo autor de “Vigiar e punir”, tão preocupado com políticas (brancas) de controle social. Tudo a ver.
Galiña foi feliz ao escrever essa “autobiografia terceirizada”, ou seja, na voz de Julinho, reproduzindo o linguajar um tanto malandro, mas nada superficial, das ruas e de um mundo que costuma ser mantido longe das belles-lettres. Grandes retratistas dos bruzundangas, dos merdunchos e dos saberes das ruas, Lima Barreto e seu discípulo maior, João Antônio, aprovariam a opção por essa oralidade tão carioca para dissecar a sociedade racista que nos rodeia.
Em tempo: o livro será lançado na próxima terça-feira, dia 17, às 18h, com sarau musical, poético e performático, no Circo Voador, sob os Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro.
