Agentes de IA, tela dobrável e bateria removível: o que deve mudar no iPhone com a troca de comando na Apple?

 

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O anúncio da saída de Tim Cook do comando da Apple, prevista para 1º de setembro, reacendeu a curiosidade sobre como isso pode mudar o iPhone e os outros eletrônicos da empresa.

Porém, a curto prazo, não espere grandes revoluções ao estilo Steve Jobs: o iPhone deverá mudar por dentro, com chips cada vez mais eficientes e alta integração com inteligência artificial (IA). As grandes transformações deverão ficar reservadas para outras classes de dispositivos.

Apple anuncia novo CEO: John Ternus vai substituir Tim Cook

Engenheiro dos iPhones: quem é John Ternus, novo CEO da Apple

A empolgação com a mudança na chefia se justifica. John Ternus, o novo CEO, lidera a engenharia de hardware desde 2021 e soma 25 anos dedicados ao desenvolvimento de produtos. É a volta ao comando da Apple de alguém intimamente ligado ao desenvolvimento de dispositivos, algo que não ocorria desde a era Jobs. Ao mesmo tempo Cook não ficou famoso por inovar em hardware, ainda que tenha diversificado o iPhone (saiu de um modelo para os cinco atuais) e apresentado o Apple Watch e os AirPods.

Dessa maneira, os fãs da marca passaram a se empolgar com as possibilidades de uma nova era de grandes saltos tecnológicos para o smartphone da maçã. Mas, os especialistas acreditam em poucas mudanças a olho nu e mais transformação dentro do capô, como explica Renato Franzin, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).

— Essa transição não vai ter uma guinada para voltar a ser aquele navio de batalha da era Jobs. Vai ter uma continuidade ali de desenvolvimento corporativo.

Siri: agora vai?

O trabalho que Cook deixou inacabado — e que se tornou a missão número um de Ternus — é fazer a transição da Apple para a era da IA. A companhia demorou para apresentar algo neste novo momento do mercado e não agradou. A Apple Intelligence só chegou a modelos seletos de dispositivos da companhia em 2024, e a Siri, que seria o carro-chefe deste novo momento, surgiu inteligente em uma demo que nunca conseguiu ser replicada no mundo real. Agora, o objetivo é corrigir essa rota.

Segundo a Bloomberg, em uma reunião com funcionários logo após o anúncio da saída de Cook, Ternus disse: “A IA vai criar um potencial quase ilimitado. Seremos capazes de continuar a descobrir possibilidades que criarão oportunidades totalmente novas para nossos produtos e serviços, e estou muito animado com o que isso significará para nossos usuários.”

A transição para uma Siri mais inteligente ganhou um tampão com o acordo de US$ 1 bilhão anuais entre Apple e Google, que vai levar o Gemini para a assistente da Apple. A expectativa é que a partir disso, a marca do iPhone consiga desenvolver modelos próprios, que rodem diretamente no celular, além de integrar grandes modelos de linguagem (LLMs) com outros sistemas de IA já bem executados pela companhia, como os algoritmos que cancelam ruído nos AirPods o que monitoram saúde no Apple Watch.

O desafio é tornar o iPhone um aparelho voltado para a era dos agentes de IA: ou seja, no qual modelos de IA não apenas respondem aos usuários, mas tomam ações. A Samsung deu os primeiros passos no segmento com o Galaxy S26, apresentado em fevereiro, que traz agentes de IA integrados ao sistema por meio de recursos como o “Now Nudge”, que traz informações e sugestões em tempo real com base nas conversas dos usuários, e os recursos da assistente Bixby.

John Ternus foi anunciado como novo CEO da Apple

Bloomberg

Show dos chips

O pilar desse novo momento de IA do iPhone será construído sobre os avanços na produção de chips, que a Apple atingiu nos últimos anos. No ano passado, a companhia lançou a família M5 — que em março deste ano ganhou também o M5 Pro e o M5 Max —, classe de chips para computadores com capacidade para rodar nos próprios dispositivos grandes modelos de linguagem com até 70 bilhões de parâmetros (nome dado às representações matemáticas para conexões entre palavras).

A família M tornou, por exemplo, o MacMini uma febre na era do OpenClaw, quando desenvolvedores perceberam que o agente de IA tira bastante proveito do computador da Apple. A companhia também realizou avanços nos chips de iPhone a ponto de o A18 Pro, o processador do iPhone 16 Pro, ter virado o coração do MacBook Neo, o laptop de baixo custo lançado pela companhia no mês passado. Avanços desse tipo no iPhone terão consequências claras:

— Quando você traz esse consumo para o dispositivo local, você ganha eficiência e consumo de energia. Então, a Apple sempre tem a faca e o queijo na mão — diz Franzin. Ou seja, os novos iPhones poderão ter baterias mais resistentes, um velho sonho do consumidor, e alta performance.

Novos formatos

Pouca gente aposta em uma transformação total do iPhone. No fim das contas, o retângulo de vidro e metal deverá permanecer por muito tempo. Apesar disso, alguns pequenos retoques podem surgir. O primeiro deles deve ocorrer no ano que vem, quando o iPhone completa 20 anos — no aniversário de uma década, a Apple eliminou o botão home, criou o entalhe no topo da tela (conhecido como franja) e lançou o FaceID.

Agora, a expectativa é de que a companhia apresente modelos dobráveis, um tipo de design que já evoluiu muito nas sete gerações do Galaxy Fold, da Samsung. Apesar de rumores de problemas na fabricação do suposto aparelho nos últimos meses, a Apple teria encontrado a solução para eliminar o vinco comum de telas flexíveis.

Outra mudança no design do iPhone pode ser imposto, como lembra Luciano Soares, professor do Insper:

— A União Europeia vai exigir que as baterias dos celulares possam ser trocadas. No passado, ela fez muita pressão pelo conector universal e hoje o iPhone tem o USB-C. É um problema de engenharia, mas a Apple vai ter que aceitar isso de alguma forma.


Pós-iPhone

Com chips altamente capazes e IA integrada ao hardware, Ternus deve preparar a Apple para a era do pós-iPhone. Segundo a Bloomberg, o novo CEO é um “conservador” no que diz respeito ao lançamento de novas categorias de eletrônicos. No entanto, existe consenso dentro da companhia de que o atual formato dos smartphones não deve durar para sempre.

Em um depoimento durante o julgamento antitruste do Google no ano passado, Eddy Cue, chefe de serviços da Apple, afirmou: "Daqui 10 anos, você pode não precisar de um iPhone, por mais maluco que isso soe”.

— Por mais que a Apple queira vender vários dispositivos, a gente está vendo que cada vez mais o iPhone, o iPad e o Mac estão se fundindo uma coisa só, um dispositivos versátil — afirma Eduardo Pellanda, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

E a origem para isso pode estar no avanço de eletrônicos vestíveis avançados e turbinados por IA. Um dos principais rumores é de que a Apple estaria trabalhando em óculos inteligentes, inspirados pelo sucesso da parceria entre Meta e Ray-Ban, que só em 2025 vendeu 7 milhões de unidades.

Outros projetos seriam um pingente inteligente e versões turbinadas do AirPods — nos dois casos os acessórios tirariam proveito de IA integrada para compreensão do ambiente e tomada de decisão com baixo consumo energético. Tudo isso, seria também uma forte resposta ao projeto secreto da OpenAI com Jony Ive, o designer que fez história na Apple. A dupla planeja um novo dispositivo, supostamente sem telas, e turbinado com modelos de IA para o ano que vem.

Segundo o jornalista Mark Gurman, especialista em Apple da Bloomberg, a meta da Apple é evoluir a ideia de “visual intelligence”, que significa modelos de IA capazes de interagir com o ambiente, algo fundamental em um mundo sem telas. Se funcionar, o grande projeto de Ternus à frente da Apple pode ser um “não-iPhone” — de quebra, inauguraria uma nova era dos eletrônicos e entraria para a história.