Índia, China e Europa foram responsáveis pelo superávit na balança comercial brasileira nos oito primeiros meses deste ano. Até agosto, o Brasil exportou US$ 23 bilhões a mais do que o mesmo período de 2025, segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). O recorde demonstra o quanto o país foi capaz de diversificar o destino dos seus produtos desde o tarifaço imposto pelos EUA, avalia Laudemir Müller, presidente da agência. Contexto: Tarifaço de Trump derruba exportações brasileiras aos EUA ao menor valor desde 2023 Veja: Governos Lula e Trump se reúnem na OMC para discutir tarifaço, mas expectativa de avanço no primeiro encontro é baixa — Das 2.400 empresas que exportavam para os EUA em maio de 2025, 78% já estavam exportando para outros mercados em junho deste ano — diz. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás da China. Em terceiro lugar vem Argentina, seguida de perto pela Índia — que, segundo Müller, foi destaque nas exportações deste ano, com aumento de US$ 3,6 bilhões no acumulado de janeiro a agosto, período em que as vendas para os EUA caíram US$ 2,6 bilhões. — Há 20 anos, a Índia era o 40º destino; em agosto de 2026, se tornou o quarto maior destino, equiparando-se à Argentina — afirma.
Com a China, o superávit foi de US$ 10 bilhões. Para Müller, no entanto, o maior avanço veio da Europa, cuja balança comercial passou de déficit de US$ 885 milhões no acumulado de janeiro a agosto do ano passado para superávit de US$ 5 bilhões no mesmo período de 2026. Auxílio a empresas O Brasil também tem se aproximado mais do continente africano, com destaque para África do Sul, Angola, Etiópia e Nigéria. — Mas algumas empresas continuam sofrendo os efeitos do aumento das tarifas — diz Müller, que aponta têxtil, calçados e moveleiro como os setores mais críticos. Entenda: EUA rejeitam pedido da China para participar de consultas da OMC com Brasil sobre tarifaço São mercados que produzem sob medida para o consumidor americano, além de enfrentarem forte concorrência global. Em agosto, a ApexBrasil lançou o Plano de Diversificação de Exportações, com investimentos de R$ 210 milhões para atender 5.300 empresas impactadas pelo tarifaço — 1.600 já são atendidas. A proposta é oferecer ferramentas de inteligência de mercado, promoção comercial, acesso a compradores qualificados e atendimento especializado. As empresas terão a chance de participar, por exemplo, de feiras no Canadá, México, América Central, Caribe e Bahamas. Soberania, negacionismo e 'democracia em xeque': entenda como Lula usou discurso em tom eleitoral na ONU para rebater Trump Na opinião da economista Lia Valls, pesquisadora associada do FGV Ibre e professora da Uerj, as restrições impostas pelos EUA afetaram companhias brasileiras de maneira heterogênea. — Grandes empresas têm maior capacidade de desviar exportações para outros mercados, pois já contam com redes de fornecedores e compradores estabelecidas — diz. — Mas pequenas e médias empresas, especialmente em setores de manufatura customizada, como calçados e produtos de madeira, são as mais atingidas. Não existe a possibilidade de reduzir custos para compensar a tarifa. Ela lembra que, mesmo no agronegócio, que foi menos atingido pelo tarifaço por conta da dependência americana a determinados produtos, existem segmentos que seguem sendo taxados. Leia também: UE aprova protocolo brasileiro para exportação de frango, diz secretário do Ministério da Agricultura Em calçados, pouco mais de 90% da indústria é formada por micro e pequenas empresas. Neste ano, as exportações caíram 17% em valor, o pior resultado desde a pandemia, segundo a Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Calçados (Abicalçados). Para o engenheiro Marcos Jank, coordenador do centro Insper Agro Global, o mundo vive uma mudança total de paradigmas. — As regras do comércio internacional do século XX, com blocos econômicos, multilateralismo e regramento pela Organização Mundial do Comércio, foram enterradas. O cenário atual é de negociação direta, pontual e assimétrica com os Estados Unidos — afirma. — Não há mais para quem recorrer. Reorganização geopolítica Müller avalia que o tarifaço levou a uma reorganização geopolítica global, com outros países afetados olhando mais de perto para o Brasil, o que vem estreitando laços comerciais. — Os empresários brasileiros não querem substituir o mercado americano, mas sim diversificar. Todos têm esperança de que esse aumento repentino e injustificado de tarifas acabe.
O Globo