Agência regulatória dos EUA anuncia revisão de licenças de transmissão da rede ABC após piada sobre Melania Trump

 

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A Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos EUA determinou uma revisão de todas as licenças de transmissão de emissoras locais da rede ABC, e determinou um prazo de 30 dias para que a documentação necessária seja apresentada. Oficialmente, a FCC credita a medida, rara nos Estados Unidos, a um inquérito sobre políticas de diversidade dentro da ABC, mas o real alvo da ofensiva é o comediante Jimmy Kimmel, autor de uma piada sobre a primeira-dama, Melania Trump, considerada um insulto pela Casa Branca.

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Na ordem, emitida nesta terça-feira, a FCC afirma que “vem investigando as emissoras ABC da Disney por possíveis violações da Lei de Comunicações de 1934”, que regula as comunicações interestaduais e internacionais nos EUA, e “das normas da FCC, incluindo a proibição da agência à discriminação ilegal”, uma referência ao veto determinado pelo presidente Donald Trump a políticas de diversidade.

A agência afirma ter poder para exigir que uma empresa sob investigação apresente os documentos para a renovação de licenças de transmissão antecipadamente, “permitindo que a FCC conduza sua investigação em andamento e possibilite que a FCC assegure que a emissora esteja cumprindo suas obrigações de interesse público de forma mais ampla".

Segundo a agência, a ABC deve fornecer “os pedidos de renovação de licença para todas as suas emissoras de TV licenciadas dentro de 30 dias — ou seja, até 28 de maio de 2026”. Ao todo, oito emissoras foram citadas, todas com licenças ainda válidas por mais alguns anos.

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A ojeriza às políticas de inclusão e diversidade pelo governo Trump é notória, e levou muitas empresas americanas e de capital estrangeiro que operam no país a mudarem suas ações internas para evitar a ira da Casa Branca. Os impactos também foram sentidos em escolas, universidades e nas Forças Armadas, sob a égide do “combate à cultura woke”.

Mas no caso da ABC, o alvo real chama-se Jimmy Kimmel, um dos mais populares apresentadores dos Estados Unidos, e que mais uma vez entrou para a lista de indesejáveis do governo Trump por uma piada, agora sobre Melania Trump.

— Nossa primeira-dama, Melania, está aqui. Olhem para Melania, tão linda. Senhora Trump, a senhora tem a aura de uma futura viúva — disse Kimmel em seu programa na quinta-feira passada.

Dois dias depois, um homem armado tentou invadir o salão onde Trump participava de um jantar de jornalistas que cobrem a Casa Branca, supostamente com a intenção de matá-lo, e a piada de Kimmel rapidamente foi resgatada e notada pelo entorno do presidente.

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Na segunda-feira, Melania Trump disse na rede social X que "pessoas como Kimmel não deveriam ter a oportunidade de entrar em nossas casas todas as noites para espalhar ódio", e perguntou até quando "a direção da ABC vai tolerar o comportamento atroz de Kimmel às custas da nossa comunidade". No mesmo dia, Trump foi ao seu Truth Social acusar o comediante de incitação à violência, e terminou a mensagem com um pedido que soou como ordem: “Jimmy Kimmel deveria ser demitido imediatamente pela Disney e pela ABC”.

A gigante do entretenimento não respondeu à determinação de Trump, e o programa de Kimmel foi exibido normalmente na segunda-feira. Como esperado, ele mencionou a pressão pela demissão.

— Aquela foi uma piada bem leve sobre o fato de ele [o presidente Trump] ter quase 80 anos e ela ser mais jovem do que eu. Não foi, de forma alguma, um incitamento ao assassinato, e eles sabem disso. Há muitos anos me manifesto veementemente contra a violência armada, em particular — disse o comediante. — Concordo que discursos de ódio e violência são algo que devemos rejeitar. Acho que um ótimo ponto de partida para diminuir esse discurso é conversar com seu marido sobre isso.

Nesta terça-feira, após a determinação da FCC, a Disney disse, em comunicado, que a ABC sempre seguiu as normas federais de comunicação, que está confiante na renovação das licenças e que está preparada “para demonstrar isso pelos canais legais apropriados”.

Especialistas dizem que as chances de sucesso da ofensiva da FCC — inédita em tal escala — são pequenas, mas alertam que esse é mais um sinal de como a agência está sendo usada para propósitos que vão além de regular as telecomunicações, sob liderança de Brandon Carr, um advogado fiel a Donald Trump.

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Em setembro passado, o próprio Kimmel foi afastado temporariamente do ar após comentários considerados nocivos sobre o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk: na ocasião, disse que os trumpistas estavam "tentando desesperadamente caracterizar esse garoto que assassinou Charlie Kirk como qualquer coisa que não fosse um deles", na esperança de "ganhar pontos políticos". Meses antes, em fevereiro, uma investigação foi lançada contra a rede CBS, sob acusação de favorecimento à candidata democrata na eleição presidencial de 2024, Kamala Harris. No mês passado, Carr ameaçou cassar licenças de emissoras por causa da cobertura crítica da guerra no Irã.

“A Primeira Emenda [à Constituição, que trata da liberdade de expressão] e o mandato da FCC não permitem que a agência use licenças de transmissão como armas para punir emissoras por conteúdo constitucionalmente protegido que veiculam”, disse, em comunicado, Seth Stern, da Fundação pela Liberdade de Imprensa, nesta terça-feira. “A decisão de Carr de abandonar seus princípios para bajular Trump e alavancar sua carreira não muda a lei que Carr sabe muito bem que se aplica. A FCC não é a polícia do jornalismo nem a polícia do humor. Isso não passa de uma manobra ilegal para intimidar a ABC e fazê-la ceder.”