Poucos artistas fazem uma carreira que atravessa um século, e poucas mulheres tiveram a coragem de ser tão debochadas quanto ela. Dercy Gonçalves foi uma atriz e humorista à frente de seu tempo. No Estúdio CBN desta sexta-feira (29), Tatiana Vasconcellos e Fernando Andrade receberam a escritora Adriana Negreiros, que está lançando a biografia “Dercy: A diva debochada”.
Nascida em 1907, a centenária, que faleceu apenas em 2008, passou por diversos ambientes, como teatro, rádio, televisão e cinema. "Ela chegou a pegar o comecinho da internet também", como ressaltou a autora.
"[Ela] ter sido essa testemunha ocular de todas as transformações, e de ter sido uma mulher também muito transgressora, uma mulher, usando aqui o clichê, muito à frente do seu tempo, foi o que me atraiu nela”, compartilhou.
A biógrafa fez questão de apresentar a artista nas palavras do crítico teatral Sábato Magaldi, que descreveu Dercy como “a grande dama do teatro marginal brasileiro”. Segundo ela, define muito bem sua figura icônica.
A improvisação no palco era uma marca registrada de Dercy, que nasceu de sua recusa em memorizar seus textos. Adriana explicou que a atriz não gostava de ensaiar e que tinha “habilidades muito reduzidas de leitura”. Para a artista, os diálogos aconteciam na hora.
“Ela dizia que não acreditava em ‘deixa’. Esse negócio de ‘deixa’ é para quem não consegue pensar rápido, e ela defendia que você tinha que pensar rápido”, destacou.
A ousadia de Dercy Gonçalves foi transportada para o livro. Conhecida por um vocabulário recheado de palavrões – algo fora do padrão para uma mulher da época –, a humorista desafiou o status quo, e a autora Adriana Negreiros usou essa irreverência para nomear os capítulos da obra.
Negreiros explicou que a escolha de títulos com “picardia” e frases célebres da atriz foi uma “brincadeira” pensada para promover um “certo equilíbrio”. Apesar de engraçada, Dercy viveu uma vida que não foi nada fácil, e o humor se tornou um contraponto necessário para a narrativa da biografia.
“A ideia era promover um certo equilíbrio entre os palavrões da Dercy e a vida dela, que realmente não foi fácil”, explicou.
