Adilsinho: patrono do Salgueiro e dono de clube de futebol, contraventor preso deu festa no Copacabana Palace
O carnaval deste ano, vencido pela Viradouro, foi marcado por um comunicado prévio do Salgueiro, divulgado horas antes de a escola entrar na Marquês de Sapucaí: a escola afirmava manter “plena confiança na realização de julgamentos justos”, com “total confiança na lisura” do processo. Por trás desse movimento, O GLOBO apurou que estaria um racha entre duas gerações do jogo do bicho, com Adilson Coutinho Filho, o Adilsinho — que acabou preso nesta quinta-feira —, como protagonista desses bastidores da folia. Patrono da vermelha e branca tijucana, o contraventor ainda foi o batedor oficial de pênaltis de um clube de futebol da Zona Sudoeste do Rio, assim como foi anfitrião de uma festa de arromba no Hotel Copacabana Palace.
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Historicamente ligada à família Garcia, tendo como patronos Miro e seu filho, Maninho, o Salgueiro viu os bicheiros morrerem no início dos anos 2000. Maninho foi assassinado aos 42 anos, quando deixava uma academia de musculação, em Jacarepaguá, em setembro de 2004. Já Miro morreu 34 dias depois, aos 77 anos, por complicações de um enfisema pulmonar.
A motocicleta de Maninho no local onde ele foi morto, na Freguesia
Fernando Quevedo/Agência O GLOBO
Desde então, uma disputa sangrenta pelo comando da escola se consolidou. Entre as mortes, está a de Alcebíades Paes Garcia, o Bid, irmão de Maninho, assassinado após uma noite na Sapucaí no carnaval de 2020: quem foi preso como mentor intelectual do crime foi Bernardo Bello, ex-companheiro de Tamara Garcia, irmã gêmea de Shanna Garcia, filhas de Maninho. Já José Luís de Barros Lopes, o Zé Personal, então marido de Shanna, foi morto em 2011, dentro de um centro espírita. A própria Shanna Garcia sofreu um ataque a tiros em 2019, mas sobreviveu.
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Com apoio de Rogério Andrade e Vinicius Drumond, integrantes, assim como ele, da chamada nova cúpula do bicho, Adilsinho tomou áreas do jogo do bicho que, no passado, eram dominadas por Maninho. Depois da contravenção, também deu as cartas no mundo do carnaval, anunciado como patrono do Salgueiro em 2024, em feijoada na quadra: na ocasião, foi apresentado como quem chegaria para "ajudar" no carnaval.
Mas em seu primeiro carnaval figurando como patrono — ano em que, até nos microfones da Sapucaí, o nome de Adilsinho foi celebrado como patrono da agremiação —, em 2025, o Salgueiro ficou fora do Desfile das Campeãs, o que motivou uma nota da escola aos que definiu como "ladrões de plantão". Já no último carnaval, o Salgueiro divulgou um comunicado antes mesmo de pisar na Avenida, expressando sua "total confiança na lisura" da apuração.
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A escola acabou em quarta colocada em 2026 (e voltou no Desfile das Campeãs). Uma das hipóteses da nota preventiva foi um racha entre duas gerações da contravenção: para Adilsinho, a penalização do Salgueiro no carnaval anterior estaria ligada à sua má relação com bicheiros da antiga, como Aniz Abraão David, o Anísio, e Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, patronos da 2ª e 3ª colocadas neste carnaval, a Beija-Flor e a Vila Isabel, respectivamente.
Por isso, nos bastidores, contou-se que Adilsinho pediu para que seu nome fosse desvinculado da agremiação: ordenou que menções fossem retiradas da quadra, assim como evitadas em entrevistas, numa aposta de que isso pudesse ajudar num julgamento mais generoso, no desfile considerado o mais rico dos últimos anos.
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No futebol, Adilsinho era batedor oficial de pênaltis
Em 2010, Adilsinho também fundou o Clube Atlético Barra da Tijuca (CABT), que até hoje disputa as divisões inferiores do Campeonato Carioca e tem uniforme com as mesmas cores do Fluminense, seu time do coração. O escudo do Tricolor, aliás, é sua marca no submundo da contravenção e está estampado até nos lacres de suas máquinas de caça-níquel.
O contraventor, que já foi presidente do clube, atuou como atacante e batedor oficial de pênaltis da equipe. Entre 2011 e 2018, disputou 63 partidas, marcou 10 gols e chegou a ser destacado como o jogador mais velho em atividade no país. Vários funcionários do CABT são acusados de integrarem sua organização criminosa.
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A festa do 'poderoso chefão' no Copacabana Palace
Em maio de 2021, Adilsinho fez ainda uma festa de arromba no Copacabana Palace para celebrar seus 51 anos. A comemoração para 500 convidados — com fila na porta do hotel que viralizou nas redes sociais, por acontecer no auge da pandemia de Covid-19 — contou com shows de artistas, como Gusttavo Lima, Ludmilla, Alexandre Pires e Mumuzinho. Além disso, o vídeo-convite enviado aos convidados contou com o tema do filme "O Poderoso Chefão".
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Por conta da festividade, a Vigilância Sanitária chegou a multar o hotel em R$ 15,4 mil, por infrações classificadas como "gravíssimas", à época, às medidas de combate à pandemia. O estabelecimento também ficou interditado para festas por 10 dias, como punição do poder público.
Um mês depois de passar a ser conhecido nos noticiários por conta da festa, Adilsinho virou o foco da Operação Fumus, da PF — que, pela primeira vez, o acusou de chefiar uma quadrilha que monopolizava a venda e a fabricação de cigarros ilegais. Ao longo dos anos seguintes, ele foi alvo de várias operações, até que a polícia o localizasse cinco anos depois, nesta quinta-feira, em operação conjunta das polícias Civil e Federal.
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