Adilsinho escapou por duas vezes de ser preso pela PF, por ser blindado por policiais corruptos
Dessa vez, nĂŁo poderia dar errado. Policiais federais e civis foram cirĂşrgicos na prisĂŁo do bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, para evitar que ele escapasse pela terceira vez. O prĂłprio superintendente da PolĂcia Federal no Rio, Fábio GalvĂŁo, afirmou num vĂdeo divulgado apĂłs a prisĂŁo, que o contraventor contava com uma rede de proteção formada por policiais. NĂŁo por acaso, o alvo fugiu do cerco no fim do ano passado, quando estava em uma casa no Itanhangá, na Zona Sudoeste do Rio, e novamente em janeiro, ao escapar de outro endereço mantido sob sigilo pelas forças de segurança.
Quem é Adilsinho: ele está no futebol, no samba e foi alvo de investigações por máfia e assassinatos
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Além da escolta de policiais militares, Adilsinho pagava para receber informações sobre operações destinadas à sua captura, blindando-se à base de propina. Também utilizava potentes câmeras instaladas nos arredores dos esconderijos, o que lhe permitia identificar a presença policial e empreender fuga. Durante um ano e três meses, manteve um jogo de esconde-esconde com as autoridades.
Um agente o definiu como “sagaz”. Para nĂŁo se afastar dos negĂłcios ilĂcitos, mantinha-se por perto, dando ordens aos subordinados e impondo terror. O bicheiro tem cinco mandados de prisĂŁo em aberto — trĂŞs deles por homicĂdio. As Delegacias de HomicĂdios da Capital e da Baixada Fluminense ainda o investigam por cerca de 20 assassinatos. O indiciamento mais recente foi pelo homicĂdio do policial penal Bruno Kilier da Conceição Fernandes, concorrente no comĂ©rcio ilegal de cigarros, executado em 2023, no Recreio. O inquĂ©rito foi concluĂdo pela DH da Capital desde dezembro do ano passado. AtĂ© o momento, o MinsitĂ©rio PĂşblico nĂŁo o denunciou.
Mas a fuga terminou na manhĂŁ de quinta-feira (26/02). Criminosos tambĂ©m cometem erros. Na primeira escapada, no Itanhangá, Adilsinho e o cabo da PolĂcia Militar Diego D’Arribada Rebello de Lima deixaram o local poucos minutos antes da chegada da PolĂcia Federal. Ao analisar imagens do entorno, no entanto, os agentes conseguiram identificá-los correndo pelo condomĂnio. Reconhecido o segurança, ele passou a ser monitorado.
— Parecia investigação de FBI — comentou um dos policiais que atuaram no caso.
NĂŁo deu outra. O cabo D’Arribada, que acumulava as funções de segurança e personal trainer do bicheiro, acabou levando a polĂcia atĂ© o foragido. Os dois faziam exercĂcios ao redor da piscina quando agentes da PF e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da PolĂcia Civil chegaram de helicĂłptero e cercaram a casa, em Cabo Frio, na RegiĂŁo dos Lagos. Adilsinho foi rendido e colocado no chĂŁo, de bruços, Ă beira da piscina. Era a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco), que reĂşne PF e PolĂcia Civil, batendo Ă porta do integrante da máfia dos cigarros.
Ao ser rendido, o cabo D’Arribada — que, quando nĂŁo faz serviço extra para o contraventor, Ă© lotado na Unidade de PolĂcia Pacificadora (UPP) da Fazendinha, em Ramos — lançou uma pergunta aos agentes, sondando a possibilidade de suborno, segundo um policial que participou da operação:
— Ele olhou para nós e perguntou: “Foram vocês que tentaram nos prender no Itanhangá?”. Quando respondemos que sim, ele disse: “Então não vou nem perder meu tempo”. Entendemos que ele percebeu que não éramos como ele.
Durante o perĂodo foragido, Adilsinho chegou a frequentar um salĂŁo de beleza em um shopping da Barra, hábito antigo por conta da cabeleireira de confiança. O receio de ser preso, porĂ©m, fez com que evitasse, desde agosto do ano passado, novas escapadas.
A cena final de sua prisĂŁo parecia construĂda para as câmeras. De um lado, Adilsinho, o bicheiro que durante mais de um ano driblou operações policiais, agora descabelado, de camiseta branca e short grená — uma das cores de seu time, o Fluminense — mĂŁos para trás, sem algumas, olhar baixo. O homem que se blindava com propina, câmeras e informantes já nĂŁo tinha para onde correr.
Do outro, o delegado Sergio Sahione, da Subsecretaria de InteligĂŞncia da PolĂcia Civil, uniforme impecável, postura ereta, conduzindo-o com firmeza pelo braço. Sem pressa, atravessou o saguĂŁo da sede da PolĂcia Federal, na Praça Mauá, diante das lentes e dos celulares erguidos da imprensa e dos prĂłprios policiais.
Era mais do que uma prisão. Era a inversão pública de forças. O foragido mais sanguinário e protegido do Rio, enfim, despojado da blindagem que o manteve intocável por tanto tempo.
