Adeus ao 'moleque' da MPB: O acidente de carro que matou Gonzaguinha

 

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O cantor e compositor Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, comeu uma canja de galinha no restaurante do Hotel Província, em Pato Branco, no Paraná, pouco depois de fazer um show na cidade. Antes de ir para o quarto, ele falou com a menina Ariane, de 9 anos, filha da gerente, Iná, de quem tinha ficado amigo, após dias hospedado no hotel. "Olha, Ariane, vou me despedir de você agora porque não vou te ver mais. Amanhã saio cedo para viajar e você vai estar dormindo".

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De madrugada, o músico falou pelo telefone com sua mulher, Louise Margarete, a Lelete, que tinha ficado na casa deles, em Belo Horizonte. Depois de mais de uma semana excursionando no Paraná, o cantor iria de carro até Foz do Iguaçu, onde pegaria um voo para Florianópolis (ele tinha seis shows marcados em Santa Catarina). O autor de "Explode Coração" saiu do Hotel Província às 7h10 daquela segunda-feira, 29 de abril de 1991, há 35 anos. Ele morreu dez minutos depois.

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Gonzaguinha estava num Chevrolet Monza com o empresário Renato Manoel, além de Aristides Pereira da Silva, organizador da turnê no Sul do país. Eles trafegavam pela estrada, entre os municípios de Renascença e Marmeleiro, quando um um caminhão atravessou a pista e bateu de frente com o carro. O cantor sofreu um traumatismo craniano e foi levado para a Policlínica São Francisco de Paula, em Francisco Beltrão, mas chegou sem vida à unidade. Horas depois, Aristides também morreu.

O Monza em que Gonzaguinha estava quando sofreu o acidente, em 1991

Reprodução

O Brasil perdia, então, uma de suas vozes mais queridas. Filho do pernambucano Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, Gonzaguinha foi criado no Morro do São Carlos, no Rio. Nascido em 1946, iniciou a carreira em 1971, com Ivan Lins, Aldir Blanc e César Costa Filho, no Movimento Artístico Universitário (MAU). Foi um dos artistas a enfrentar a ditadura militar. Teve mais de 50 músicas censuradas. Entre elas, "Comportamento geral": "Você deve rezar pelo bem do patrão e esquecer que está desempregado".

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De tão crítico, ganhou do mercado fonográfico o apelido de "cantor rancor". Depois, porém, mudou a temática de trabalho, com canções como "Lindo lago do amor", "O que é, o que é?" e "Explode coração", gravada por Maria Bethânia. Mas nunca abandonou a veia da contestação. No dia 30 de abril de 1981, ele parou sua apresentação no show em homenagem ao Dia do Trabalhador, no Riocentro, para avisar ao público que bombas haviam explodido do lado de fora. Era a noite do infame atentado no Riocentro.

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"Eu devo dizer a vocês uma coisa que é muito importante. As pessoas organizadoras da festa me pediram", afirmou o cantor. "Durante o espetáculo, explodiram, eu disse, explodiram, duas bombas. Essas duas bombas que foram explodidas foram mais duas tentativas de acabar com essa festa, que foi conseguida! Essas duas bombas representam exatamente uma luta para destruir aquilo que todos nós queremos: uma democracia e uma liberdade! Lembrem-se muito bem disso. Depende de vocês essa festa no ano que vem. Desculpem. Desculpe, meu pai. A festa é sua".

Gonzaguinha e seu pai, Luiz Gonzaga, em 1981

Antonio Nery/Agência O GLOBO

Pai de quatro filhos de diferentes relacionamentos, Gonzaguinha tinha 45 anos e morava no bairro da Pampulha, Zona Norte de Belo Horizonte, quando sofreu o acidente no Paraná. Sua mulher recebeu a notícia pelo telefone, na manhã daquela segunda-feira. De acordo com pessoas próximas à família, ela ficou estarrecida e foi chorar perto da piscina, para esconder seu sofrimento da filha do casal, Mariana, de 7 anos, que reagiu com uma frase poética quando soube da morte do pai.

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"O pai vai cantar agora no palco do céu, ao lado do Vô Lua", disse a criança, referindo-se ao avô Luiz Gonzaga, que morrera em 1989.

Gonzaguinha perdeu a mãe quando tinha 3 anos e foi praticamente abandonado pelo pai. Criado por um casal amigo de Luiz Gonzaga, o "moleque da MPB" cresceu um tanto amargo. Vivia às turras com o Rei do Baião, que não aprovava o engajamento político do rapaz. Os dois só se entenderam em 1981, quando fizeram juntos a turnê "Vida de viajante". O carioca do Estácio conheceu, então, a imensidão da obra do pai, que, por sua vez, encantou-se pela poesia do filho. Viraram amigos de estrada.

Parte da família queria que Gonzaguinha fosse enterrado em Exu, Pernambuco, cidade de seu pai. Mas Lelete insistiu para o corpo ficar em Belo Horizonte. Mais de 2 mil pessoas se reuniram na porta do Palácio das Artes, na capital mineira, para o velório do autor de "Começaria tudo outra vez". O Jornal O GLOBO publicou depoimentos de artistas como Ney Matogrosso, Beth Carvalho e Nana Caymmi, lamentando a morte de Gonzaguinha, que planejava um show para celebrar 20 anos de carreira.