Acusado por naufrágio de submarino argentino, que deixou 44 mortos, diz que embarcação tinha 'condições de navegar'

 

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O submarino argentino que implodiu submerso em 2017 com 44 tripulantes a bordo estava em condições de navegar, disse, nesta quarta-feira (4), um dos quatro ex-oficiais acusados no julgamento realizado no sul da Argentina.

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— O submarino cumpriu as normas e os requisitos estabelecidos. É falso que não estava em condições de navegar — afirmou Claudio Villamide, ex-comandante da força de submarinos encarregada do ARA San Juan quando ocorreu a tragédia, ao depor ao tribunal em Río Gallegos, 2.500 km ao sul de Buenos Aires.

O submarino perdeu contato depois de reportar uma falha elétrica e um início de incêndio enquanto navegava de volta para sua base em Mar del Plata, ao sul de Buenos Aires, procedente de Usuhaia, no extremo sul da Argentina. Seus destroços foram encontrados um ano depois a 900 metros de profundidade e 500 quilômetros da costa argentina depois de uma busca internacional.

Villamide é um dos quatro ex-oficiais julgados no processo iniciado na terça-feira sem a presença de familiares das vítimas, 43 homens e uma mulher.

Na abertura do processo, o Ministério Público expôs que o naufrágio "não se deveu a um fato fortuito, mas foi um desfecho previsível devido ao estado da unidade, que tornou o naufrágio possível".

Mas para Villamide não foi o que ocorreu.

— A embarcação estava em condições de navegar em segurança, contava com suas caixas de ferramentas e manuais necessários, elementos de segurança e de escape — insistiu este ex-oficial, destituído por um tribunal de guerra em 2021 devido ao caso.

Monumento em memória aos 44 membros da Marinha Argentina que morreram no naufrágio do submarino ARA San Juan, em 15 de novembro de 2017. Homenagem está em Río Gallegos

Walter Diaz / AFP

Seu advogado, Juan Pablo Vigliero, disse à AFP que confia "absolutamente em uma absolvição" de seu cliente, ao destacar que o julgamento carece de provas "essenciais" para chegar a uma condenação.

— Aqui morreram 44 pessoas, uma embarcação militar do Estado argentino afundou e não há perícia mecânica, é insólito. O problema é que agora não pode ser feita porque o submarino ficou a 900 metros de profundidade, seria tão grave quanto querer trazer o Titanic à tona — afirmou.

O advogado assinalou que essa circunstância favorece sua estratégia de defesa, e por extensão a dos demais acusados.

— A realidade com toda a justiça é que hoje não se sabe o que aconteceu, por que afundou e se foi a pique por algo além de uma situação de colapso — disse.

As dúvidas razoáveis podem deixar os familiares sem justiça.

Villamide, assim como os outros acusados, enfrentam acusações de descumprimento e omissão de deveres e dano culposo, com penas de um a cinco anos.

'Os ninguém'

Nenhum dos familiares das vítimas, 43 homens e uma mulher, compareceu à abertura do julgamento, que foi transmitida pelo YouTube.

— Eles não conseguem nem pagar as fotocópias, quanto mais uma passagem aérea e hospedagem. O mais importante é ter chegado ao julgamento — afirmou à AFP a advogada Valeria Carreras.

Justiça argentina inicia julgamento sobre implosão de submarino que matou 44 marinheiros em 2017

Reprodução

— São pessoas sem poder, dinheiro nem sobrenome influente; sentiram-se os ‘ninguém’ nestes oito anos, por isso há muita expectativa. A visibilidade é importante para que o esquecimento e o tempo não sejam cúmplices da impunidade — acrescentou.

As acusações são descumprimento e omissão de obrigações e negligência qualificada, que têm penas de um a cinco anos.

— Foi uma tragédia evitável, mas é malvisto na Marinha dizer ‘tenho medo’, ‘há riscos’; existe uma cultura de silêncio — afirmou Carreras.

Os acusados, que chegam ao julgamento em liberdade, são o ex-chefe do Comando de Treinamento Luis López Mazzeo, o ex-comandante da Força Submarina Claudio Villamide, o ex-chefe do Estado-Maior do Comando Submarino Héctor Alonso e o ex-chefe de Operações Hugo Correa. Em 2021, um Conselho de Guerra destituiu Villamide por negligência.

'Invisibilizar'

A Justiça rejeitou pedido do advogado Luis Tagliapietra — pai de Alejandro, morto no submarino aos 27 anos — para que o julgamento fosse realizado em Mar del Plata, a 400 km da capital argentina, onde residiam os tripulantes e três dos quatro acusados.

Os familiares realizaram protestos em frente aos prédios da Marinha nessa localidade durante o período de buscas e depois da localização do submarino, uma exposição que incomodou a força. Eles denunciaram que foram vítimas de espionagem, um caso em que Macri foi processado e que a Suprema Corte encerrou em 2025.

— Levando o debate para Río Gallegos, tão distante de Buenos Aires, buscam invisibilizar a tragédia — afirmou Tagliapietra, que representa cerca de vinte familiares.

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A realização do julgamento em Río Gallegos foi determinada pela Câmara Federal de Cassação Penal.

O julgamento

As audiências ocorrerão em blocos de quatro dias consecutivos, com intervalo de uma semana entre cada etapa.

A principal hipótese é que uma falha em válvula tenha permitido a entrada de água no compartimento de baterias, provocando um incêndio seguido de explosão. Para confirmar essa tese, seria necessária a reflutuação dos destroços — uma operação considerada milionária.

Carreras acredita que mais de 90 testemunhas devem apresentar provas. Durante a instrução, "a memória de muitos falhou, agora isso pode mudar", indicou.

Na terceira semana de março, as testemunhas vão começar a depor. As audiências serão realizadas durante quatro dias consecutivos, com intervalos de uma semana.

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