Acusações de 'uso indevido de IA' atingem livros badalados e editoras procuram meios de provar 'escrita humana'

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

No início do ano, numa dessas feiras internacionais onde editores do mundo todo negociam os próximos best-sellers, um profissional brasileiro comprou os direitos de publicação de uma comédia romântica de uma escritora nigeriana. O que chamou sua atenção foi a voz da narradora, uma moça destrambelhada que entabulava uma conversa despretensiosa com o leitor.

A autora era conhecida no mercado por atuar como ghostwriter e esse seria seu primeiro romance assinado. Democracia, violência e consumo: Livro mostra como a produção cultural refletiu os valores americanos

'Colcoz': Emmanuel Carrère lança livro sobre a mãe que previu a queda da URSS e viveu a contradição de defender Vladimir Putin Meses se passaram e o editor brasileiro nunca recebeu o arquivo completo do livro (ele havia lido uma amostra na feira) para enviá-lo para a tradução.

Desconfiado, procurou a agência que havia intermediado a negociação e soube que o contrato de publicação fora cancelado. Após uma apuração de bastidores, foi informado do motivo do cancelamento: “Uso indevido de inteligência artificial.” Sim, aquela voz que ele julgou tão “autêntica” era produto de IA — embora não seja possível saber o que ou o quanto da história foi escrito pela máquina.

— Não sei se a autora pediu para a IA escrever o livro todo ou só uns parágrafos. Ou se falava tanto com a IA a ponto de calibrar a linguagem da ferramenta e pedir um livro que tivesse a voz dela.

Tudo o que sei é que o contrato foi cancelado por “uso indevido de IA” — afirma o editor, que falou reservadamente ao GLOBO. Best-seller: John Green fala sobre envelhecimento e conta como se protege de 'reações negativas' a seu trabalho

Nos últimos meses, livros de grande repercussão foram questionados por “uso indevido de IA”, forçando editores a redobrar a atenção na hora de avaliar originais, rejeitar textos “suspeitos” e buscar meios de assegurar que os títulos que publicam foram realmente escritos por pessoas de carne e osso.

Um dos casos mais rumorosos explodiu no mês passado, quando uma conta anônima na rede social X (que, descobriu-se depois, pertence a Samuel Fitoussi, colunista do jornal francês Le Figaro) acusou o romance “C’était ça ou mourir” (“Era isso ou morrer”), do haitiano-canadense Thélyson Orélien, de ter sido “redigido quase integralmente por uma inteligência artificial” a partir de análise do Pangram, uma ferramenta avançada de detecção de conteúdos gerados por IA.

“C’était ça ou mourir” é protagonizado por um professor que, após um incêndio em Porto Príncipe, onde vivia, empreende uma odisseia para fugir da violência do Haiti e chegar ao Canadá. O romance era um dos favoritos ao Prêmio Goncourt, o mais prestigioso da literatura em língua francesa, e acabou desclassificado.

Após as acusações, as vendas do livro na França explodiram. Casos emblemáticos

O autor negou que tenha usado IA na escrita, disse que sofreu ataques racistas e afirmou que, juntamente com suas editoras no Canadá e na França, prepara um dossiê para provar que diz a verdade. Ontem, Orélien disse à AFP que “nenhuma frase” de seu romance “foi criada por uma máquina”, mas admitiu ter plagiado textos de autores renomados no passado.

“Lamento profundamente e peço desculpas”, acrescentou. “C’était ça ou mourir” será publicado no Brasil pela Intrínseca, em fevereiro de 2027.

Procurada pelo GLOBO, a editora preferiu não comentar o caso. Siri Hustvedt: Em livro sobre luto, viúva de Paul Auster fala de traumas familiares e machismo no meio literário

Em julho, o manuscrito de “Call me, I’ll hide the body” (“Me liga, eu escondo o corpo”), estreia do nigeriano Jerry Adedayo Falade, foi retirado de circulação por suspeitas de uso de IA. Apresentado às editoras pela agência Europa Content, o romance já teria recebido ofertas de publicação de mais de US$ 2 milhões.

Falade rechaçou as acusações. Também em julho, a revista americana The Atlantic afirmou que a distopia “Daggermouth”, da americana H.

M. Wolfe, “pode ser o primeiro best-seller parcialmente descrito por um chatbot”.

A reportagem revelou um estudo da Universidade Stony Brook, nos Estados Unidos, que submeteu mais de 14 mil e-books ao Pangram e concluiu que 60% de “Daggermouth” havia sido total ou parcialmente escrito por IA. “Escrevi este livro sozinha”, disse a autora, que recebeu o apoio da Simon & Schuster, sua editora nos Estados Unidos.

No Brasil, o livro será publicado pela Arqueiro, selo da Sextante, em 2027. — A autora negou as acusações e acreditamos nela.

Evitamos acusações sumárias, feitas no calor do momento, para alimentar polêmicas — afirma Nana Vaz de Castro, diretora de aquisição da Sextante. — As ferramentas usadas para detecção de IA nos parecem ainda muito falhas.

Não confiamos mais nelas do que na palavra dos autores. Pesquisador do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), Fernando Osório afirma que ferramentas como Pangram podem fornecer indícios de que um texto foi gerado por IA, mas não provas.

À medida que os grandes modelos de linguagem (LLM, na sigla em inglês) avançam, tornam-se mais capazes de imitar a escrita humana, o que dificulta o veredicto. Os detectores, diz Osório, devem ser apenas o ponto de partida de uma investigação e não podem, sozinhos, embasar decisões como excluir um livro de um concurso literário.

Na falta de ferramentas confiáveis, resta o “olhar bem treinado” de profissionais. Editores ouvidos pelo GLOBO citam como sinais de alerta a repetição da mesma estrutura, relações de causa e efeito automáticas, tom exageradamente elogioso (típico de ferramentas como ChatGPT) e textos “excessivamente ajeitados”, “sem muita vida” ou “sem alma”.

Um editor desconfiou de um livro de não ficção nacional porque achou o texto “estranho”. Ao ser questionado, o autor admitiu que, sem tempo, contratara um assistente para terminar o livro.

Descobriu-se depois que o assistente usara IA. Não há no mercado consenso sobre o que constitui “uso indevido de IA”.

A tecnologia foi incorporada pelos editores, que já avaliam livros em línguas pouco acessíveis (como coreano ou tcheco) a partir de amostras traduzidas por IA — por respeito aos direitos autorais, essas traduções devem ser feitas por ferramentas pagas. Também é considerado aceitável usar modelos de linguagem para pesquisa, resumos, sugerir títulos ou apontar inconsistências num manuscrito.

Em maio, a polonesa Olga Tokarczuk, Nobel de Literatura, disse usar IA como ferramenta de pesquisa, “da mesma forma que uso dicionários ou enciclopédias”. O que é definitivamente vetado é pedir para a IA escrever sozinha uma história a partir de orientações do humano que pretende estampar seu nome no livro.

Uma editora consultada pela reportagem diz já ter descartado manuscritos com “muita cara de IA”, mesmo com características de best-seller, para evitar dores de cabeça futuras. O avanço da IA pode também impactar a própria vocação das editoras: se antes elas faziam curadoria de títulos e emprestavam sua credibilidade aos autores, agora podem ser pressionadas a atestar que um texto foi escrito por um humano e não por uma máquina.

— O problema é que nós não temos as ferramentas para atestar isso. A gente só tem os contratos e a palavra do autor — diz uma editora.

Rascunhos como prova Para assegurar que um livro não foi escrito por IA, as editoras talvez passem a exigir garantias dos autores, que, para se proteger, teriam de documentar seu processo de trabalho e, eventualmente, apresentar rascunhos ou manuscritos datados.

Jerry Adedayo Falade, o autor de “Call me, I’ll hide the body”, um dos livros cancelados por suspeita de uso indevido de IA, colocou à disposição mensagens de 2021 como evidência de que já trabalhava no manuscrito antes do lançamento do ChatGPT. Na visão de um editor, autores jovens e estreantes (como Falade) tendem a ser mais prejudicados pela desconfiança, já que os outros podem recorrer à obra pregressa como prova de que são capazes de desenvolver uma história sem auxílio de uma máquina.

O agente literário João Paulo Riff afirma que é cada vez mais comum autores e editoras incluírem nos contratos vetos ao uso de IA na tradução ou na capa e proibirem que o livro seja usado para alimentar LLMs — o que pode ser inócuo, uma vez que big techs têm sido acusadas de recorrer a material pirata para treinar seus modelos.

Por outro lado, editoras “mais pragmáticas” já apostam em traduções feitas por IA que são editadas por humanos. — A IA não vai acabar com a escrita humana, assim como e-books e audiolivros não acabaram com livros físicos — diz Riff.

— Claro, vamos encontrar livros escritos por IA que são uma porcaria, assim como obras maravilhosas escritas por humanos e outras que não valem o nosso tempo. Com relação à IA, o mercado editorial está na fase das dores de crescimento, mas vai se adaptar.

Até lá, os editores precisarão se equilibrar entre o veredicto dos detectores de IA e a palavra de seus autores, além de torcer para não serem enganados por textos escritos por uma máquina — por mais humanos que eles pareçam.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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