Ações despencam enquanto guerra no Irã impulsiona petróleo, dólar e ouro
As ações despencaram e os preços do petróleo dispararam após a eclosão do conflito militar no Irã abalar os mercados globais. O ouro e o dólar subiram em meio à corrida por ativos considerados seguros.
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Os futuros do S&P 500 caíram 1,1%, enquanto as ações recuaram em várias regiões. Os contratos do Nasdaq 100 registraram queda de 1,5%. O petróleo Brent, referência internacional, foi negociado perto de US$ 79 o barril depois que o conflito praticamente fechou o Estreito de Ormuz — uma artéria vital ao largo da costa do Irã que transporta cerca de um quinto do petróleo mundial e volumes significativos de gás. Na abertura dos negócios, o Brent chegou a subir 13%, acima de US$ 82, maior preço desde janeiro de 2025.
Ativos mais seguros registraram forte demanda à medida que os investidores reduziram a exposição ao risco. O ouro subiu mais de 2%, para quase US$ 5.400 a onça. O dólar teve a maior alta em quase um mês. Os Títulos do Tesouro americano (Treasuries), no entanto, caíram ao longo de toda a curva, revertendo parte da valorização da semana passada que havia levado o rendimento dos títulos de 10 anos abaixo de 4%, diante da preocupação de que o Federal Reserve possa estar menos inclinado a cortar os juros caso os preços do petróleo permaneçam elevados.
— O desfecho final permanece altamente incerto, variando de uma saída política relativamente rápida a uma ampliação regional do conflito — disse Mathieu Racheter, chefe de estratégia de ações do Julius Baer. — Em meio a essa névoa de guerra, os mercados tendem a negociar probabilidades, e não fatos em constante mudança.
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O conflito crescente no Oriente Médio acrescenta novos obstáculos a mercados que já estavam sob pressão devido às mudanças na política tarifária dos Estados Unidos, às disrupções provocadas pela inteligência artificial e às tensões relacionadas ao crédito privado. Entre as questões mais urgentes para os operadores estão quanto tempo o conflito irá durar e até onde as hostilidades irão se espalhar.
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O presidente Donald Trump afirmou que a campanha de bombardeios no Irã continuará, possivelmente por semanas, e pediu que os líderes do país capitulem, enquanto o chefe de segurança da República Islâmica declarou que não há intenção de negociar com os EUA.
Enquanto isso, a Saudi Aramco interrompeu as operações na maior refinaria da Arábia Saudita após um ataque de drone na região, segundo fontes. A refinaria que produz 550 mil barris por dia (bpd), em Ras Tanura, que foi fechada como medida de precaução, faz parte de um complexo energético na costa do Golfo do reino, que também funciona como um terminal crítico de exportação para o petróleo bruto saudita.
No Curdistão iraquiano, que exportou em fevereiro 200 mil barris de petróleo por dia (bpd) por meio de oleoduto até o porto de Ceyhan, na Turquia, empresas como DNO, Gulf Keystone Petroleum, Dana Gas e a HKN Energy também interromperam a produção em seus campos como medida de precaução, sem registro de danos.
— Ainda é muito incerto qual será a duração do conflito e, mais importante, como o mercado de energia irá reagir — disse Andrea Gabellone, chefe de ações globais da KBC Securities. — Um ponto positivo para os EUA é que o mercado já corrigiu desde janeiro, portanto não estamos em território de sobrecompra. É justo dizer que os ativos de proteção devem continuar superando.
Na Europa, o gás disparou até 25% diante dos riscos aos fluxos globais, já que o continente permanece altamente vulnerável ao conflito com o Irã. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 forçou uma mudança drástica na matriz energética europeia, reduzindo a dependência da energia russa, e agora uma parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL) europeu vem do Catar, através do Estreito de Ormuz, onde o tráfego comercial praticamente parou.
A temporada de aquecimento de inverno esgota os estoques regionais de gás, o que significa que a Europa precisa importar grandes volumes de GNL para reconstruir suas reservas.
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Um indicador das moedas de países em desenvolvimento, que havia atingido um recorde na semana passada, caiu 0,7%. As ações de mercados emergentes recuaram 1,6%, a maior queda em mais de três semanas, com algumas bolsas do Leste Europeu chegando a cair até 3% no início das negociações.
“Não existe um ativo defensivo universal que possa blindar totalmente as carteiras contra um conflito prolongado no Oriente Médio. No entanto, o dólar continua sendo uma proteção eficaz contra altas nos preços da energia e a inflação de custos resultante, refletindo a mudança dos EUA de importador líquido de energia para exportador”, avaliou Skylar Montgomery Koning, estrategista macro da Bloomberg Economics.
Bolsas globais em queda
Na Ásia, a Bolsa de Tóquio fechou com queda de 1,35%, enquanto que a de Hong Kong caiu 2.14%. Já o índice CSI 300 da Bolsa chinesa terminou com alta de 0,38%.
Na Europa, a Bolsa de Londres operava em queda de 0,76%, enquanto a de Paris recuava 1,53%. Na Bolsa de Frankfurt, a queda era de 1,63%.
Os setores bancário e de viagens recuaram 3% ou mais, levando o Stoxx 600 a cair 1,8%. A IAG SA, controladora da British Airways, despencou 5% em meio a uma ampla interrupção de voos no Oriente Médio.
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Estrategistas do Barclays alertaram contra a compra rápida de qualquer queda. Os investidores se acostumaram a episódios geopolíticos que se dissipam rapidamente, mas este pode durar mais, escreveu Ajay Rajadhyaksha, presidente global de pesquisa da instituição, citando a possibilidade de baixas americanas, ataques à liderança iraniana e interrupções no tráfego pelo Estreito de Ormuz.
"A relação risco-retorno não parece atraente”, afirmou Rajadhyaksha. “Se as ações recuarem o suficiente (digamos, mais de 10% no S&P 500), provavelmente chegará o momento de comprar. Mas ainda não.”
Qualquer disparada prolongada nos preços do petróleo também complicaria o cenário para os Treasuries. Embora uma fuga para ativos seguros nos mercados leve os rendimentos a cair, preços mais altos de energia que se disseminam pela economia e alimentam a inflação tendem a elevá-los.
— Tudo isso ocorre em um momento delicado, à medida que os investidores estão se tornando mais cautelosos — disse Dec Mullarkey, diretor-gerente da SLC Management. — Os mercados acionários dos EUA já estão muito sensíveis às ameaças de disrupção tecnológica e ao estresse emergente no crédito, de modo que a perspectiva de preços mais altos de commodities pode forçar uma liquidação, à medida que os investidores reduzem o risco.
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