A gigante do fast-fashion Shein teve uma estreia discreta na Bolsa de Hong Kong nesta terça-feira, arrecadando US$ 1,7 bilhão (R$ 8,8 bilhões) em sua oferta pública inicial (IPO), que encerrou um esforço de anos para abrir o capital.
Na abertura do pregão, o preço de suas ações despencou até 10%.
Em seguida, se recuperou e fechou o dia com queda de apenas 0,1%, a HK$ 48,50 (US$ 6,18 ou R$ 32,01) por ação.
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A muito aguardada estreia na Bolsa avaliou a empresa em aproximadamente US$ 26,3 bilhões (R$ 136 bilhões), com um preço inicial por ação de HK$ 48,56 (US$ 6,19, R$ 32,07), significativamente menor do que os quase US$ 100 bilhões (R$ 518 bilhões, na cotação atual) alcançados durante as rodadas de financiamento privado em 2022.
A estreia das ações da varejista no mercado acionário, há muito aguardada, ocorreu em um momento delicado: os anos de maior crescimento da varejista de moda rápida ficaram para trás, justamente quando tarifas, pressão regulatória e concorrência cada vez mais intensa tornam mais difícil sua próxima fase de expansão.
Os planos da empresa de listar suas ações em Nova York e Londres foram frustrados por questões regulatórias, mas em julho ela recebeu autorização das autoridades chinesas para vender ações no centro financeiro do sul do país.
A Shein, conhecida por seus preços extremamente baixos e roupas de produção rápida, afirma que os fundos arrecadados serão usados para financiar suas capacidades tecnológicas e fortalecer sua presença internacional.
Raízes chinesas
Entre 2021 e 2022, a empresa transferiu a sede para Cingapura, uma medida que, segundo analistas, teve como objetivo distanciar-se politicamente da China.
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A empresa tem sido alvo de críticas devido ao seu impacto ambiental e a denúncias de violações dos direitos humanos, e enfrenta a crescente concorrência de empresas de comércio eletrônico de baixo custo, como Temu e AliExpress.
No fim de 2025, a Shein contava com uma média de 156 milhões de usuários ativos mensais na Europa, posicionando-se entre as maiores plataformas de comércio eletrônico do continente, ao lado da AliExpress (193 milhões) e da Amazon (cerca de 180 milhões).
O presidente executivo, Donald Tang, declarou à AFP no ano passado que a empresa tem "tolerância zero" com o trabalho forçado.
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A oferta pública inicial desta terça-feira "não representa um prejuízo", apesar da recepção morna do mercado, afirmou Han Lin, diretor para a China da consultoria The Asia Group.
— Os mercados de ações veem a Shein mais como uma varejista em processo de amadurecimento, que enfrenta tarifas, regulamentações e concorrência — disse Lin, acrescentando que "a fraqueza inicial da cotação sugere que os investidores querem provas, não apenas promessas".
A Shein obteve US$ 2,06 bilhões (R$ 10,6 bilhões, na cotação atual) em 2025, mas registrou prejuízo de US$ 99 milhões (R$ 512 milhões) nos primeiros três meses deste ano, após os Estados Unidos eliminarem as isenções tarifárias para pequenos pacotes.
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No mês passado, a União Europeia impôs uma medida semelhante, com uma tarifa de € 3 (R$ 18,05) por item para pacotes avaliados em menos de € 150 (R$ 902,6).
A França também começou a aplicar, nesta terça-feira, um imposto sobre itens de moda ultrarrápida que pode chegar a quase € 20 (R$ 120,3) por peça, enquanto o governo mira nas grandes plataformas de comércio eletrônico asiáticas.
O CEO da Shein, Sky Xu, fez uma rara aparição pública este ano na província de Guangdong, no sul da China, onde prometeu alocar mais recursos para o país — uma medida que analistas interpretaram como uma tentativa de realinhar a empresa com suas raízes.
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Segundo Lawrence Loh, professor especializado em mercados ESG (Ambiental, Social e Governança) na Universidade Nacional de Cingapura, a estreia em Hong Kong representa "uma nova história asiática para a empresa", à medida que ela se redefine institucionalmente com "raízes na China".
— Mas isso tem o preço de um nível ainda maior de escrutínio público — afirma.
Desafios
O desafio para a Shein é que está chegando aos mercados públicos depois da expansão explosiva ocorrida durante a pandemia de Covid-19, que transformou a empresa em uma potência global da moda rápida.
Agora, ela enfrenta barreiras comerciais mais elevadas após o fim da isenção de minimis nos Estados Unidos e uma concorrência mais acirrada, enquanto consumidores cautelosos representam outro obstáculo.
Ao mesmo tempo, os investidores têm concentrado cada vez mais seu apetite — e os prêmios de valuation — em empresas ligadas à inteligência artificial e à robótica.
— A queda pouco expressiva na abertura do IPO não está realmente relacionada à execução da Shein, mas sim ao momento infeliz, já que a empresa foi afetada tanto pelas tarifas severas quanto pelo fim da brecha do regime de minimis — disse Jeremy Tan, CEO da Tiger Fund Management.
— Os investidores continuaram relativamente mais otimistas em relação aos setores de IA e robótica, como demonstram as fortes estreias recentes de IPOs.
A queda das ações da Shein na abertura do pregão sintetizou o enfraquecimento do apetite dos investidores por varejistas de internet, um setor que vem enfrentando dificuldades recentemente diante dos ventos contrários provocados pela inflação, pelas interrupções no comércio e pela cautela dos consumidores em mercados importantes, incluindo a China.
A recepção fraca refletiu preocupações com a intensificação da concorrência, a incerteza regulatória e um mercado cada vez menos disposto a conceder prêmios de valuation a empresas que estejam fora do tema da inteligência artificial.
Ainda assim, a Shein continua sendo uma das maiores empresas de vestuário e moda listadas em bolsa do mundo.
A concorrente sueca Hennes & Mauritz AB é avaliada em cerca de US$ 30 bilhões.
—Eles tentaram abrir o capital várias vezes, então, a esta altura, com investidores e funcionários impacientes, provavelmente não têm o luxo de escolher o momento — disse Vey-Sern Ling, diretor-gerente da Union Bancaire Privee, acrescentando.
— “O crescimento está desacelerando e os prejuízos aumentando em meio à forte concorrência, tanto de empresas de comércio eletrônico quanto de varejistas de moda rápida.
Mais importante ainda, seu modelo de negócios continua sendo afetado pela evolução das regulamentações internacionais.
(*) Com informações da Bloomberg
