Acidentes em série: hospital em São Gonçalo recebe 41 motociclistas feridos só no fim de semana da Páscoa
Na manhã de sábado, um jovem de 22 anos foi levado ao Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), em São Gonçalo, após sofrer uma queda de moto no bairro Jardim Catarina. Com fraturas expostas no fêmur e na tíbia, o paciente já era conhecido da equipe médica: cerca de um ano antes, havia passado por cirurgia semelhante — o primeiro tratamento sequer tinha terminado. No fim de semana, até as 17h de ontem, 41 pessoas deram entrada na unidade, vítimas de acidentes com motos. Dessas, oito eram menores que estavam conduzindo o veículo.
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— Há um aumento bastante significativo desse tipo de paciente. No Heat, realizamos cerca de 500 cirurgias por mês em ortopedia, entre emergenciais e eletivas. Aproximadamente 70% delas são decorrentes de acidentes de moto. Se incluirmos também os procedimentos eletivos relacionados a traumas anteriores, pode chegar a 80% — diz Carlos Neves, coordenador do serviço de ortopedia do Heat. — São aproximadamente 4.800 por ano, um cenário de guerra, com uma geração inteira, entre 16 e 30 anos, sendo afetada. Essas lesões deixam sequelas, com impactos na vida pessoal e profissional.
Em 14 anos à frente do tratamento de traumas no Heat, o médico afirma que o crescimento dos casos de acidentes com motos é indiscutível. O Corpo de Bombeiros registrou, até a sexta-feira passada, 14.303 ocorrências envolvendo motocicletas no estado: 9.115 colisões, 4.382 quedas e 806 atropelamentos.
O cenário na capital é contundente. Nos primeiros três meses deste ano, foram realizados 12.071 atendimentos a vítimas do trânsito nas unidades de saúde do município. Desses, 8.506 eram pessoas envolvidas em acidentes com motocicletas, o equivalente a 70,47% do total.
A comparação com períodos anteriores só reforça uma percepção cada vez mais evidente nas ruas: os casos de acidentes com motos são crescentes. Os números de 2026 entre janeiro e março são 7,7% maiores que os de 2025, quando foram registrados 7.895 casos envolvendo motos. Em relação a 2024, a diferença é ainda mais expressiva. Naquele ano, foram 4.158 vítimas de acidentes com motocicletas no primeiro trimestre, menos da metade do total registrado neste ano no mesmo intervalo.
— Temos observado, nos últimos dois anos, tanto um aumento quanto, principalmente, uma maior gravidade dos casos. Se compararmos 2023 com 2025, o número de acidentes de moto praticamente dobrou no que atendemos no hospital. De 2024 para 2025, houve um aumento superior a 30%. É algo assustador, quase uma epidemia de acidentes de moto — diz o ortopedista Cristiano Chame, diretor-geral do Hospital Municipal Miguel Couto.
A predominância de acidentes envolvendo motos na cidade do Rio em relação a outros modais pode ser verificada ainda na comparação dos números anuais mais recentes. Em 2024, foram 22.034 casos, correspondendo a 68,21% do total. Já em 2025, houve 32.714 atendimentos, o que representa 69,50%.
Sistema de saúde impactado
Para Marcos Musafir coordenador da Comissão de Campanhas Públicas da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), a proliferação de motos nas ruas é uma realidade irreversível e precisa ser encarada com políticas que visem permitir seu uso com mais segurança.
— Precisamos organizar o ambiente do trânsito para esse usuário e, assim, diminuir os impactos no trauma — analisa o ortopedista. — As vítimas são jovens que podem ficar incapacitados para o trabalho e outras atividades. É um fenômeno com grande repercussão para todo o sistema de saúde e para essas pessoas que muitas vezes contribuem para o sustento familiar. Um acidente pode levar à piora da qualidade de vida de todos.
A perpecpção de aumento dos casos de acidentes envolvendo motocicletas vem de longe.
— Esse é um fenômeno que a gente já detecta há quase 20 anos. Se você pegar os números do extinto DPVAT, que acabou em 2020, havia estatísticas muito claras. Eu mesmo fiz um estudo lá por 2005 prevendo que, em 2010, o número de indenizações por invalidez permanente em acidentes com motos superaria os demais veículos. E isso aconteceu. De lá para cá, só cresceu. Nos últimos dados, cerca de 70% das indenizações estavam relacionadas a motocicletas — disse Rodolfo Rizzotto, fundador da organização Trânsito Amigo.
