'Acho que o MAGA está morrendo': movimento jovem dos EUA reflete sobre futuro em evento conservador

 

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Ao término do primeiro dia da Conferência de Ação Política Conservadora, a plateia dentro do enorme salão de baile, do tamanho de um hangar de aviões, havia diminuído à medida que Nick Shirley, o palestrante principal, murmurava suas palavras. Shirley, um criador de conteúdo de 23 anos e celebridade recente da direita, havia sido escolhido pelos organizadores da conferência para injetar uma dose de energia jovem no evento.

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Mas os jovens em si, e sua energia conservadora, não estavam em lugar nenhum entre as fileiras de cadeiras vazias, enquanto Shirley fazia uma referência hesitante ao discurso de Theodore Roosevelt, "O Homem na Arena".

Do lado de fora do salão, jovens na faixa dos 20 anos, com ternos amarrotados, estavam reunidos em grupos, debatendo os méritos de uma invasão terrestre no Irã, a reação conservadora contra aqueles que eram "J-pilled" (gíria da extrema direita para ceticismo em relação à influência israelense), os custos exorbitantes da vida americana e o que eles consideravam o lento declínio da era Trump.

— A maioria de nós não vem necessariamente a esse tipo de evento pelos palestrantes, porque geralmente eles repetem a mesma ladainha sem parar — disse Jack Moore, de 19 anos, membro da diretoria dos Jovens Republicanos da Geórgia.

Eles vieram na esperança de escapar brevemente da política de suas redes sociais e interagir diretamente com o aparato conservador na conferência deste ano, que antes era um evento de destaque no calendário conservador. O encontro do ano passado teve um tom triunfal, com Elon Musk acionando uma motosserra cromada no palco e o presidente Trump relatando com entusiasmo a história de seu retorno à política. Mas, nos últimos anos, um público mais jovem declarou o evento ultrapassado.

Na conferência de quatro dias em Grapevine, Texas, na semana passada, — em que Flávio Bolsonaro fez um discurso —os jovens conservadores dispostos a arriscar participar desse encontro se viram isolados em uma reunião apática e, com exceção de Shirley, composta principalmente por apoiadores mais velhos de Trump: figuras de segunda linha do movimento MAGA que preferiam evitar os debates acalorados sobre o futuro do partido.

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Esses oradores, em grande parte, seguiram um roteiro moderado — manifestando seu apoio à guerra do presidente no Irã, incitando reações de guerra cultural sobre temas como a lei da Sharia e denunciando as disputas internas fomentadas por figuras proeminentes do movimento MAGA.

Até mesmo Stephen K. Bannon, ex-conselheiro de Trump conhecido por seus ataques inflamados contra outros conservadores, aludiu apenas indiretamente aos problemas gritantes que pairavam sobre a conferência. Em um breve discurso na quinta-feira, Bannon minimizou o abandono, por parte de Trump, de sua promessa de campanha de "nenhuma nova guerra" e a fraca presença conservadora na conferência, que, notavelmente, não contou com a participação de Trump.

Apesar de toda a conversa sobre brigas internas e divisões dentro do MAGA, inclusive sobre assuntos como a investigação de Jeffrey Epstein e Israel, muitos jovens presentes pareciam sentir que a divisão mais acentuada no partido era geracional.

— Existe uma divisão entre os jovens e os mais velhos no partido — disse Aiden Hoffses, de 19 anos, que viajou do Maine para participar de sua primeira CPAC. — Continuamos ouvindo esses argumentos de que estamos todos unidos e no mesmo movimento. Isso não poderia estar mais longe da verdade. Sinto que, neste momento, tenho opiniões mais próximas das dos liberais do que das dos conservadores.

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Essas opiniões, observou Hoffses, giravam em torno de questões como educação e saúde.

— Não é justo que alguém se forme na faculdade e fique com uma dívida de 100 mil dólares — disse ele. — Estamos enviando bilhões de dólares para outros países. Por que não podemos ajudar nosso próprio povo?

Ao evitar os eventos programados e ao se esquivar das multidões de conservadores mais velhos com trajes temáticos do MAGA, Hoffses encontrou alguns colegas desiludidos ao longo do caminho.

Um deles era Joseph Bolick, um veterano do Exército que usava um boné azul brilhante com a inscrição “America First”, um símbolo chamativo em espaços conservadores de que a pessoa apoia Nick Fuentes, o nacionalista branco de 27 anos conhecido por fazer comentários racistas e antissemitas.

— Aqui tem um clima de culto — disse Bolick, de 30 anos, que estava participando da CPAC pela primeira vez. — Parece que a geração baby boomer está totalmente imersa nessa onda do Trump — acrescentou.

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Após conversar com outros jovens participantes da conferência, Hoffses disse que a maioria parecia estar alinhada com Fuentes, que se tornou um pária dentro do movimento conservador por, entre outros motivos, sua recente declaração de que os jovens conservadores deveriam expressar seu descontentamento com os ataques militares de Trump ao Irã votando nos democratas.

— Eu diria que pelo menos 60% dos jovens aqui são fãs do Nick — disse Hoffses.

O tema da guerra no Irã — motivo de preocupação para muitos jovens na plateia — foi abordado superficialmente no palco principal e, de resto, relegado a artifícios típicos de pavilhões de exposições, como medir o apoio ao conflito com pilhas de feijão-carioca.

Matt Gaetz, ex-congressista da Flórida, protagonizou um dos momentos de discordância mais veementes com Trump durante a sessão oficial do evento.

— Uma invasão terrestre do Irã tornará nosso país mais pobre e menos seguro — disse Gaetz, que agora apresenta um programa noturno na rede conservadora One America Network. — Significará preços mais altos da gasolina, preços mais altos dos alimentos. E não tenho certeza se acabaríamos matando mais terroristas do que criando.

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O discurso, no entanto, teve uma reação morna da multidão, e alguns permaneceram frustrados.

— Essas conversas simplesmente não estão acontecendo aqui — disse Samantha Cassell, uma estrategista republicana de 27 anos. Ela usava um boné com a inscrição "Fishback for Florida” em apoio ao candidato a governador da Flórida, conhecido por seu discurso inflamado, que mobilizou uma coalizão de jovens eleitores naquele estado. — Não há nenhuma discussão séria acontecendo. É tudo muito apático. Já participei de muitos desses eventos, a Convenção Nacional Republicana, a Convenção Nacional Democrata, e este é provavelmente o pior de todos.

Alguns na extrema-direita viram nessa divisão geracional uma oportunidade de reivindicar uma geração jovem em busca de uma válvula de escape. Joel Webbon, um influenciador digital que promove um nacionalismo disfarçado de cristianismo, escreveu que sua presença na CPAC na semana passada revelou uma descoberta importante: "A juventude é nossa", escreveu ele em uma postagem no X.

Elijah Schaffer, um comentarista de extrema-direita que foi visto circulando pelos corredores da CPAC na sexta-feira vestindo um terno preto, escreveu no X que “a CPAC 2026 me deu esperança para a juventude americana. Todos os jovens aqui estão radicalizados/influenciados”.

Entre os jovens republicanos, houve casos de pessoas que expressaram formas de otimismo cauteloso (em relação às próximas eleições de meio de mandato) e apoio provisório (à decisão abrupta do presidente de atacar o Irã), mas essas opiniões foram expressas, em sua maioria, por participantes com aspirações profissionais de trabalhar em círculos do Partido Republicano.

A profunda alienação compartilhada pelos jovens conservadores da CPAC também se estendia àqueles com gostos mais moderados. Assim como seus pares mais radicais, esses conservadores tradicionais expressaram exaustão com as provocações da guerra cultural promovidas pelo MAGA, a propensão de Trump ao caos e a nova geração de criadores de conteúdo, como Shirley, que, na visão deles, ofereciam um conservadorismo mais superficial.

— Eles precisam ir tocar na grama — disse Jack Greenberg, de 23 anos, que participa de encontros sociais organizados pelo clube Jovens Republicanos de Dallas.

Greenberg, um apoiador de Trump que trabalha como incorporador imobiliário, expressou consternação com o fato de que políticas públicas haviam sido amplamente abandonadas em favor de discursos inflamados. Ele riu ao relatar seu encontro com um jovem criador de conteúdo na CPAC que alegava ter se infiltrado na Antifa.

— Só quero que a política volte a ser chata — disse Greenberg, com ar pesaroso.

Um dos assuntos discutidos por muitos jovens presentes foi como o Turning Point USA e seu encontro anual, o AmericaFest, pareciam ter substituído a CPAC como o principal palco do movimento para debater o futuro do partido.

O evento do ano passado, realizado em Phoenix, foi palco de intensas disputas internas entre influenciadores conservadores sobre temas que variavam da influência de Israel ao papel do nativismo dentro do partido. Embora muitos dos jovens participantes do AmericaFest tenham achado essas brigas igualmente perturbadoras, os participantes da CPAC ansiavam por um pouco daquela energia.

Sem isso, pessoas como Cassell sentiram que só havia uma conclusão óbvia a se chegar sobre o estado do movimento conservador de Trump após a última semana.

— Acho que o movimento MAGA está morrendo — disse ela. — Acho mesmo.