Acervo de Sérgio Bernardes é doado para a UFRJ e declarado de interesse público e social; veja a obra do arquiteto

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

“Como inventor que sou, uso esse direito de inventar, que é um direito que nasceu comigo, que nasceu com qualquer um que esteja participando desse mesmo mundo que eu”. Assim, o arquiteto modernista Sérgio Bernardes (1919-2002) defendeu sua maneira inovadora de criar, num trecho de entrevista exibido em documentário sobre sua trajetória. Carioca, ele deixou sua marca na cidade: foi o idealizador dos postos de salvamento da orla, em formato de quilha de barco, do Pavilhão de São Cristóvão — com seu vasto vão livre — e do manifesto Rio do Futuro: a proposta para o ano 2000, publicada em 1965 em edição especial da extinta Revista Manchete, trazia, entre outras soluções cibernéticas e tecnológicas, torres gigantes em hélice (bairros helicoidais), além de duas pontes e um túnel ligando o Rio a Niterói. Um luxo: Rio tem três hotéis entre os melhores do mundo pelo Guia Michelin Palácios, chorinho, forró, feira e mercadinho: qual é o charme de Laranjeiras, eleito um dos bairros mais legais do mundo Cerca de 50 mil itens de Bernardes — incluindo croquis, mapas, projetos executivos, fotos, negativos e maquetes — foram doados, em maio, por sua família ao Núcleo de Pesquisa e Documentação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UFRJ. Em meio a essas relíquias, acondicionadas em 220 caixas-boxe e 250 caixas-rolo, encontram-se até poesias, manuscritas ou datilografadas pelo arquiteto. Outra iniciativa, de 31 de agosto, também assegura que o material permanecerá no Brasil: uma portaria, publicada no Diário Oficial da União, o declara como de interesse público e social, “por constituir patrimônio de elevado valor histórico, cultural e científico”. Acervo Sérgio Bernardes: equipe da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo com desenhos e mapa de projetos do arquiteto Custódio Coimbra A chancela do governo federal e a doação das peças à UFRJ tranquilizam o diretor da FAU, Alexandre Pessoa. — Existem fundações internacionais que estão adquirindo acervos de arquitetos brasileiros. O do urbanista Lúcio Costa, por exemplo, com seus projetos para Brasília e Barra da Tijuca, hoje está em Matosinhos, em Portugal. Essa coleção, importantíssima para o Brasil, infelizmente está longe — lamenta ele, informando que a FAU reúne 500 mil itens de arquitetos e urbanistas. Acervo de Sérgio Bernardes: croquis dos postos de salvamento da orla Reprodução O reitor da UFRJ, Roberto Medronho, conta que Sérgio Bernardes estudou na antiga Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, hoje FAU/UFRJ. Ele considera simbólico que seu patrimônio fique na universidade que o ajudou a formar-se, passando a contribuir para o desenvolvimento de novas gerações de arquitetos: — Para nossos estudantes, professores e pesquisadores, esse acervo será muito mais do que um conjunto de documentos. Será uma fonte permanente de aprendizado, pesquisa e inspiração. Grande exposição: 2027 O material está sendo catalogado, mas já está acessível a pesquisadores. E a intenção de Pessoa é promover uma grande exposição, em 2027, quando serão lembrados os 25 anos de morte de Bernardes. Entre os documentos disponíveis, estão desenhos dos postos de salvamento da orla, projetados na década de 1970. Seriam 32 ao todo, mas só foram feitos seis em Copacabana e no Leme e seis em Ipanema e no Leblon, que, ao longo dos anos, sofreram modificações. Estado conclui 30 auditorias em contratos de R$ 2,6 bi: caso envolvendo Douglas Ruas e Altineu Côrtes é enviado à PGR para investigação A coleção também permite analisar como foi concebido o Pavilhão de São Cristóvão, inaugurado no início dos anos 1960. Com manutenção deficiente, o espaço, maltratado por incêndio e vendaval, perdeu a cobertura original formada por uma teia de cabos de aço revestidos de lona plástica. Acervo Sérgio Bernardes: desenho da cúpula do Pavilhão de São Cristóvão com riscos do arquiteto sinalizando ajustes Reprodução Outro projeto emblemático de Bernardes é o do Hotel Tambaú, em João Pessoa (PB). Famoso por sua arquitetura circular construída sobre a areia, o edifício está fechado desde 2020 devido a uma disputa judicial. Do material reunido, consta ainda o desenho do mastro da Bandeira Nacional na Praça dos Três Poderes, em Brasília — uma estrutura de cem metros de altura que gerou controvérsia à época por ter sido encomendada pelo governo da ditadura militar. Entre as maquetes, a do Pavilhão do Brasil na Exposição Internacional de Bruxelas (1958) também tem história. Como o espaço foi instalado em um lugar de pouca visibilidade, o arquiteto projetou um balão inflável de gás na cor vermelha, com sete metros de diâmetro, como elemento de atração visual. Acervo Sérgio Bernardes: maquete do Pavilhão do Brasil na Exposição Internacional de Bruxelas, de 1958, com balão inflável de gás Reprodução Mais documentos revelam um ousado Rio do Futuro. Antes da construção da Ponte Rio-Niterói, Bernardes imaginou um túnel cortando o Morro do Leme que desembocaria numa “Ponte Turística”, com nove hotéis ao longo. Uma segunda ponte (a “Píer”) partiria do Caju, passaria pela Ilha do Governador, chegando a Niterói e tendo portos no percurso. Além disso, foi proposto um túnel ligando a Avenida Presidente Vargas a Niterói — “uma prioridade posterior”, segundo o autor. “Tem coisas que você tem que tentar realizar no tempo e deixar uma visão global para poder existir um futuro”, já disse Bernardes. Acervo Sérgio Bernardes: desenhos e mapa do Rio do Futuro para o ano 2000 Reprodução Arte perdida: mais de 500 peças sacras de igrejas do Rio estão desaparecidas, segundo Iphan Mais 12 mil itens O patrimônio doado à UFRJ vai engordar. Viúva do arquiteto, a jornalista e pesquisadora Kykah Bernardes, que coordena o Projeto Memória, criado para preservar e difundir sua obra, conta que há mais 12 mil peças, dos últimos anos dele, guardadas. Ela espera que a universidade consiga recursos para digitalizar o material. — O Sérgio deixou um legado que ultrapassa a arquitetura e o urbanismo. Ele se empenhou em projetos para o país. E foi um grande arquiteto de moradias (como a Casa da Lota, em Petrópolis; a residência de Ivo Pitanguy, em São Conrado; e o condomínio inclinado Parque Maria Cândida Pareto, no Humaitá). Numa casa, chegava a desenhar os talheres, a banheira, o vaso sanitário. Tudo para ele era muito conceitual, muito simbólico — destaca Kykah, que acabou adotando o apelido dado pelo marido no lugar do nome de registro (Mariângela). Estudo preliminar do condomínio inclinado Parque Maria Cândida Pareto, no Humaitá Reprodução De arquiteto a poeta; de secretário de Planejamento de Nova Iguaçu e candidato a prefeito do Rio a piloto de carros. Bernardes foi múltiplo, e fez escola em casa. Cláudio, já falecido — um dos quatro filhos —, seguiu sua profissão, assim como o neto Thiago, que assina o projeto do Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá. Thiago define o avô como uma pessoa aberta ao mundo e generosa: — Ele me ensinou a enxergar a arquitetura no espaço em que está inserida. Você tem que analisar o quarteirão, o bairro, a cidade, como algo do mundo. Mais do que a visão de arquitetura, destaco a relação humana do meu avô. Do engenheiro até a pessoa que mexia a massa, tratava todo mundo igual. Acervo Sérgio Bernardes: poema escrito para a esposa Mariângela, a Kykah Reprodução Acervo Sérgio Bernardes: poesia para a mãe Maria Reprodução Bernardes chegou a dividir o escritório com Oscar Niemeyer, mas tinham estilos diferentes. Segundo Luiz Othon, vice-presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura do Rio de Janeiro (AsBea/RJ) — que criou, em 2014, o prêmio bianual Sérgio Bernardes de Arquitetura, que será concedido mais uma vez em novembro —, Bernardes tinha características marcantes: — Uma é a questão da experimentação, que o levava para o caminho tecnológico. Outra é o contexto: no projeto, ele tinha uma análise muito individualizada, observando o entorno; jamais utilizava uma solução pré-fabricada. Trabalhava ainda com a escala muito ampliada: ia do móvel à cidade. E usava a tecnologia como meio, não como ornamento.

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