Ação que prendeu o deputado Thiago Rangel tem entre alvos homem acusado de compra de votos para o parlamentar; saiba quem é

 

Fonte:


Um dos sete alvos da ação da Polícia Federal que prendeu o deputado estadual Thiago Rangel (Avante) na manhã desta terça-feira, Fábio Pourbaix Azevedo, que é apontado pela investigação como "braço direito" do parlamentar, já havia sido preso em 2022, pela prática de compra de votos para o político. No dia 22 de setembro daquele ano, R$ 39 mil em espécie e material de campanha do então candidato Thiago Rangel Lima foram apreendidos com Fábio.

Quem é Thiago Rangel: deputado estadual foi preso em operação da PF nesta terça-feira

Crime e política: PF aponta que deputado Thiago Rangel ofereceu vagas de emprego na Educação para traficante do Rio

A apreensão da quantia deu origem à Operação Postos de Midas, deflagrada em 2024. A investigação da Polícia Federal apontou a existência de uma organização criminosa liderada por Thiago Rangel, cujo objetivo era a manipulação fraudulenta de procedimentos de aquisição de bens e serviços pela Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes e pela Empresa Municipal de Habilitação da Prefeitura de Campos dos Goytacazes (EMHAB), para desvio de recursos em prol do grupo.

A investigação, conduzida em conjunto com a Receita Federal e o Ministério Público Estadual, identificou uma rede de empresas e postos de combustíveis administrada pelo parlamentar — ao menos 18 estabelecimentos e 12 empresas. De acordo com os investigadores, o grupo seria abastecido por recursos oriundos de contratos firmados sem licitação ou com dispensa fraudulenta, com indícios de sobrepreço e desvio de dinheiro público, posteriormente lavado por meio dessas atividades.

Operação Unha e Carne

A ação que prendeu Thiago Rangel nesta terça-feira integra a quarta fase da Operação Unha e Carne. Ela busca desarticular uma suposta organização criminosa voltada para a prática de fraudes em procedimentos de compra de materiais e aquisição de serviços, como obras para reformas, no âmbito da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc).

Além de Fábio Pourbaix Azevedo, são alvos de mandado de prisão o operador financeiro Luiz Fernando Passos de Souza; Rui Carvalho Bulhões Júnior, que foi chefe de gabinete de Bacellar; Marcos Aurélio Brandão Alves; Júcia Gomes de Souza Figueiredo; e Vinícius de Almeida Rodrigues. Os mandados foram expedidos por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Esta fase da operação avançou a partir de dados extraídos de um computador apreendido na Alerj, ligado ao gabinete de Rodrigo Bacellar, que orientaram novas diligências. Entre os arquivos, a PF identificou uma planilha com a relação de deputados estaduais e indicações para cargos em órgãos estratégicos do governo, com campos como “o que tem” e “o que está pedindo”. No caso de Thiago Rangel, aparece a Superintendência Regional do IPEM em Campos dos Goytacazes — cargo cuja nomeação ocorreu dias após a data do documento.

Com base nesse material, a PF pediu a prisão de outros investigados apontados como integrantes do esquema, entre eles o operador financeiro Luiz Fernando Passos de Souza; Rui Carvalho Bulhões Júnior, que foi chefe de gabinete de Bacellar; Marcos Aurélio Brandão Alves; Júcia Gomes de Souza Figueiredo; Fábio Pourbaix Azevedo; e Vinícius de Almeida Rodrigues. Os mandados foram expedidos por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo os investigadores, conversas extraídas do celular de Rangel e de seu operador financeiro apontam tratativas para manipulação de licitações e articulação com empresários. Há menções à liberação de obras e a pagamentos após a assinatura de contratos, inclusive com referências a saques em dinheiro vivo, o que reforça suspeitas de desvio de recursos públicos e uso de caixa paralelo.

A Polícia Federal também identificou, no aparelho, uma imagem com maços de dinheiro em espécie. Para a corporação, o conteúdo reforça a hipótese de que valores estariam sendo “movimentados de forma clandestina”. Em outro trecho, após receber a foto, o deputado envia um áudio ao interlocutor afirmando que um “amigo lá do transporte que ganhou a licitação” estaria tentando contato — elemento que, segundo a PF, sugere conexão entre os repasses e contratos públicos.

Os investigados poderão responder pelos crimes de organização criminosa, peculato, fraude à licitação e lavagem de dinheiro, além de outros delitos que venham a ser descobertos durante a investigação.

Veja quem é quem na investigação:

Thiago Rangel: Apontado como peça central do esquema em sua área de influência, no Norte Fluminense. Segundo a PF, o deputado teria utilizado sua posição política — primeiro como vereador em Campos e depois na Alerj — para viabilizar a nomeação de aliados em cargos estratégicos, o que permitiria interferência em contratos públicos e facilitaria fraudes em licitações.

Luiz Fernando Passos de Souza: Indicado como operador financeiro de Rangel, atuaria na movimentação de recursos do esquema. De acordo com a investigação, utilizava empresas registradas em nome de terceiros, como a de sua companheira, para receber e repassar valores desviados, incluindo recursos ligados à Secretaria estadual de Educação.

Fábio Pourbaix Azevedo: Descrito como “braço direito” de Rangel, seria o principal operador das fraudes em licitações. A PF aponta que ele coordenava, em nome do parlamentar, irregularidades em contratos tanto na Câmara de Vereadores quanto no Executivo de Campos dos Goytacazes.

Rui Carvalho Bulhões Júnior: Ex-chefe de gabinete da Presidência da Alerj na gestão de Rodrigo Bacellar, é apontado como responsável por intermediar negociações e realizar a entrega de valores em espécie, além de participar de tratativas relacionadas a contratos públicos.

Júcia Gomes de Souza Figueiredo: Diretora Regional de Educação Noroeste, é descrita como uma espécie de “longa manus” de Rangel dentro da estrutura da Secretaria de Educação. Segundo a PF, teria papel relevante na viabilização das fraudes e no desvio de recursos.

Marcos Aurélio Brandão Alves: Apontado como possível “laranja” no esquema, aparece ligado a movimentações financeiras suspeitas e empresas que receberam recursos de contratos de obras em escolas. A investigação destaca saques em dinheiro vivo e a atuação como procurador de empresas usadas para circular valores.

Vinícius de Almeida Rodrigues: Sócio da VAR Construtora, empresa citada em contratos investigados na Secretaria de Educação. Segundo a PF, a companhia aparece em planilhas ligadas ao esquema e realizou transferências para empresas associadas ao operador financeiro, com indícios de participação no fluxo de recursos desviados

O que dizem os citados

Questionada, a Secretaria de Estado de Educação disse que está realizando uma revisão administrativa de todos os procedimentos relacionados às obras de manutenção e reparo nas unidades da rede estadual.

Entre as medidas que passaram a ser adotadas pela pasta, destacou a o órgão, está a definição de um teto de R$ 130 mil para intervenções classificadas como manutenção e pequenos reparos. A resolução, justifica, é baseada nas diretrizes da Lei de Licitações 14.133. Quaisquer obras que ultrapassem esse limite passam a ser tratadas como intervenções de maior porte e passarão a ser executadas pela Empresa de Obras Públicas (Emop-RJ).

"A Secretaria segue colaborando com o Ministério Público, com o Tribunal de Contas do Estado e com os demais órgãos de controle", afirmou, em nota.

Procurada, a defesa de Thiago Rangel disse ter recebido com surpresa a notícia da ação da PF e da prisão preventiva do deputado.

"Neste momento, está se inteirando dos fatos, do teor da investigação e das medidas eventualmente determinadas, reafirmando desde logo a plena confiança nas instituições e no devido processo legal. O deputado nega a prática de quaisquer ilícitos e prestará todos os esclarecimentos necessários nos autos da investigação, local próprio para a apuração dos fatos. A defesa ressalta, por fim, que qualquer conclusão antecipada é indevida antes do conhecimento integral dos elementos que fundamentaram a medida", disse.

A de Rodrigo Bacellar informou que ainda estão tomando conhecimento dos fatos.

A Alerj, por sua vez, informou que está à disposição das instituições da República no que for necessário para colaborar no esclarecimento dos fatos.

"A Assembleia Legislativa reforça seu compromisso com a transparência e confiança no trabalho dos órgãos competentes", destacou.

O GLOBO tenta contato com as defesas dos demais citados.