Ação dos EUA pode virar oportunidade para o chavismo, afirmam integrantes do governo Lula

 

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Interlocutores do governo brasileiro avaliam que a ação dos Estados Unidos na Venezuela, ao retirar Nicolás Maduro do poder de forma considerada ilegal por diversos países --inclusive o Brasil --, pode produzir um efeito paradoxal: em vez de acelerar o fim do chavismo, o episódio pode abrir uma janela de oportunidade para setores remanescentes do regime se reorganizarem política e economicamente.

Para um importante embaixador, "não dá para cravar que o desfecho disso é o fim do chavismo". Hoje, a Venezuela é presidida interinamente por Delcy Rodriguez, antes vice-presidente de Maduro.

Com a retirada de Maduro e a ausência de perspectiva de eleições a curto prazo, a impressão de alguns auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é que parte do regime enxergue o novo cenário como uma chance de recomposição. Um dos caminhos seria a reativação do setor petrolífero, hoje com produção em torno de 700 mil barris por dia: se conseguirem aumentar a produção para um milhão, dois milhões de barris, e administrar ao menos parte desses recursos, ainda que sob algum grau de controle americano, pode haver espaço para políticas sociais mínimas.

Segundo essa leitura, uma melhora relativa das condições de vida poderia ter impacto político relevante. Se a população começa a perceber que a vida está melhorando, e o discurso sempre foi o de que o sofrimento vinha das sanções e do imperialismo americano, é possível que setores ligados ao chavismo voltem a se tornar eleitoralmente competitivos, algo que parecia fora do horizonte até recentemente.

Esses interlocutores observam que o desgaste do regime é profundo após mais de duas décadas no poder e uma crise humanitária que levou milhões de venezuelanos a deixar o país. Cerca de 9 milhões de pessoas deixaram o país e nem todas são de direita, ressaltam.

Na avaliação de integrantes do governo Lula, a operação americana, iniciada em 4 de janeiro com um ataque militar a Caracas, rompeu princípios básicos de soberania e integridade territorial e criou um precedente que preocupa inclusive governos críticos a Maduro. Eles ressaltam que, se de um lado muitos dizem que não vão chorar por Maduro, porque é um ditador; por outro há um presidente sequestrado por uma potência estrangeira, o que "bagunça todo o jogo”.

O desfecho, segundo essa avaliação, permanece em aberto e dependerá tanto da dinâmica interna venezuelana quanto das disputas dentro do próprio governo americano. Pessoas a par das discussões em Brasília apontam que há divergências entre setores mais duros, favoráveis ao confronto, e outros mais cautelosos, preocupados com o risco de instabilidade prolongada, guerra civil ou impactos eleitorais nos EUA. Nas palavras de um diplomata, "é um jogo muito difícil de antecipar; essa história ainda não está escrita”.