Acadêmico que desvendou escândalo bilionário de furtos no Museu Britânico morre antes de ver desfecho do caso; saiba quem era

 

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Foi um olhar treinado para reconhecer tesouros de dois mil anos — e uma memória fotográfica — que ajudaram a expor um dos maiores escândalos da história recente do Museu Britânico. Dr. Ittai Gradel, acadêmico que virou negociante de antiguidades e teve papel central na revelação do furto de centenas de artefatos da instituição, morreu de câncer aos 61 anos, em uma unidade de cuidados paliativos na Dinamarca, antes de ver a investigação chegar ao fim.

Nos últimos dias de vida, recebeu do próprio Museu Britânico uma medalha raramente concedida, homenagem descrita pelo atual diretor, Dr. Nicholas Cullinan, como “um sinal de nossa estima... em reconhecimento à sua expertise e à sua apaixonada determinação para que erros fossem corrigidos”.

A honraria veio tarde, mas carregava forte simbolismo: foi Gradel quem, praticamente sozinho, ligou as peças de um quebra-cabeça que o museu inicialmente se recusou a enxergar.

Em 2021, ele começou a suspeitar ao encontrar gemas do acervo sendo vendidas no eBay por poucas libras. Especialista em gemas da Grécia e de Roma antigas, reconheceu detalhes que passariam despercebidos para quase qualquer outra pessoa — inclusive a correspondência entre um item vendido online e um desenho publicado em um obscuro catálogo dos anos 1920 sobre a coleção do museu.

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A partir daí, mergulhou em uma investigação obsessiva. “Eu mal conseguia pensar em outra coisa. A única forma que encontrei de lidar com isso foi deixar que tomasse conta da minha vida, deixar que virasse uma obsessão”, disse à época.

Gradel reuniu evidências, incluindo um comprovante do PayPal com o nome de Peter Higgs, curador sênior que ele suspeitava estar vendendo as peças. Enviou tudo à liderança do Museu Britânico. Mesmo após um negociante devolver uma gema verde-oliva comprada no eBay, a resposta institucional foi de negação.

Jonathan Williams, então diretor-adjunto do museu, escreveu afirmando que todos os objetos estavam contabilizados e que as alegações eram infundadas.

Gradel chamou aquilo de “bizarro”.

Obstinação derrubou resistências e expôs escândalo global

O motivo de sua indignação era simples: um dos itens só constava como contabilizado porque havia sido devolvido por iniciativa dele.

Em 2023, depois de Gradel aprofundar sua própria apuração, o Museu Britânico anunciou que cerca de 2 mil itens da coleção haviam sido roubados, estavam desaparecidos ou haviam sido danificados.

O caso ganhou repercussão mundial e provocou a renúncia do então diretor Hartwig Fischer, que admitiu ser "evidente que o Museu Britânico não respondeu de forma tão abrangente quanto deveria aos alertas de 2021”.

Fachada do Museu Britânico

DANIEL LEAL-OLIVAS (AFP)

Documentos judiciais citados no caso apontam que o responsável pelos furtos é acusado de montar “uma operação de encobrimento bastante elaborada”, nas palavras de George Osborne, presidente do conselho de curadores do museu. Peter Higgs nega qualquer irregularidade.

Enquanto isso, Gradel devolveu mais de 360 itens que havia comprado sem saber que pertenciam ao museu. Em sua casa, muitas gemas tinham pequenos pontos brancos ao lado — marcações que indicavam quais voltariam ao acervo.

Quem foi Ittai Gradel?

Nascido em Haifa, em Israel, em 1965, filho de pai britânico e mãe dinamarquesa, mudou-se ainda bebê para a Dinamarca. Descrevia a infância com humor: “Completamente nerd”. “Eu sabia todos os papas e os anos dos papas — e são muitos, desde São Pedro mesmo — então, 2 mil anos”.

Acadêmico que desvendou escândalo bilionário de furtos no Museu Britânico morre antes de ver desfecho do caso

Reprodução/BBC

Ao se mudar para o Reino Unido, aos 18 anos, apaixonou-se pelo Museu Britânico. Trabalhando em empregos de meio período, passava o tempo livre dentro da instituição.

— Percorri sistematicamente o museu, departamento por departamento, vitrine por vitrine, por toda a instituição, ao longo de vários meses. E acredito que vi cada objeto que estava exposto naquela época — contava.

Mesmo diante da doença terminal, seguia preocupado com o desfecho do caso e sabia que o tempo era curto.

— Eu ficaria muito feliz em ver acusações formalmente apresentadas antes de morrer. Porque, caso contrário, suspeito que tudo simplesmente vá perder força, que acusações nunca serão apresentadas e que nada sairá disso. Venci o câncer duas vezes, mas não vou ter sorte pela terceira vez.

Até o fim, manteve o humor afiado. Quando um padre comentou que seria preciso organizar a data do funeral, respondeu:

— Se eu puder facilitar dizendo o dia em que pretendo morrer, farei o possível para que isso aconteça.

Em uma de suas últimas declarações, resumiu sua despedida em uma frase seca, serena e definitiva: “Estou totalmente resignado à morte”.