Abreviações, emojis e siglas: como a linguagem digital está mudando a escrita dos jovens
Os vídeos compartilhados por Monica Martelli, Ingrid Guimarães e Taís Araújo nos últimos dias divertiram as redes sociais ao mostrar uma dificuldade comum entre muitos pais: entender a forma como adolescentes se comunicam atualmente. Entre siglas, abreviações, emojis e expressões típicas da internet, as mensagens trocadas pelos jovens parecem, para muitos adultos, um idioma próprio.
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Expressões como "fds", "slk", "mds", "tmj" e "pprt" já fazem parte da comunicação cotidiana das gerações Z e Alpha, que cresceram em um ambiente marcado pela rapidez dos aplicativos de mensagem e pela lógica dinâmica das redes sociais. A repercussão dos vídeos também reacendeu uma discussão recorrente entre pais e educadores: afinal, os adolescentes estão desaprendendo a escrever ou apenas criando novas formas de linguagem?
Para Cris Oliveira, escritora, professora e fundadora da Cris Oliveira - Tudo de Texto, o fenômeno precisa ser analisado sem alarmismo, mas com atenção às mudanças no comportamento comunicativo.
"A linguagem sempre se transforma de acordo com o comportamento social de cada época. O problema não está na abreviação em si, mas na incapacidade de perceber que existem contextos diferentes de comunicação. O adolescente precisa entender que a linguagem das redes sociais não pode ocupar todos os espaços da escrita", explica.
Segundo a especialista, a dinâmica acelerada do ambiente digital influencia diretamente a forma como jovens estruturam pensamento, argumentação e construção textual.
"As redes sociais incentivam velocidade, síntese e impacto imediato. Isso faz com que muitos adolescentes se acostumem a escrever sem desenvolver profundidade argumentativa, organização textual e repertório. O desafio atual não é impedir a linguagem digital, mas ensinar equilíbrio entre comunicação rápida e escrita estruturada", afirma.
Reflexos desse comportamento já começam a aparecer em ambientes acadêmicos. Professores relatam aumento do uso de abreviações em textos formais, além de dificuldades na elaboração de redações mais longas e na sustentação de argumentos.
"A escrita formal exige treino, leitura e elaboração de raciocínio. Quando o jovem passa a maior parte do tempo consumindo conteúdos extremamente rápidos, existe um impacto natural na paciência para leitura profunda e na construção de textos mais complexos. Isso não significa falta de inteligência, mas uma mudança na forma de consumir e produzir informação", destaca.
Para Carol Braga, professora do Foco Medicina, a principal questão está na capacidade de adaptação da linguagem conforme cada contexto.
"O problema não é a linguagem digital em si, que faz parte da comunicação atual, mas a dificuldade de diferenciar contextos. Muitos jovens acabam transferindo estruturas da comunicação instantânea para ambientes que exigem escrita formal, organização argumentativa e domínio da norma padrão. O mais importante é desenvolver flexibilidade comunicativa: entender quando cada tipo de linguagem é adequado", analisa.
A especialista ressalta que a escola exerce papel central nesse processo de equilíbrio entre o universo digital e as exigências acadêmicas:
"A escola deve ensinar consciência linguística, e não simplesmente demonizar as redes sociais. O aluno precisa compreender que diferentes ambientes exigem diferentes registros de linguagem. Além disso, leitura frequente, escrita autoral e contato com textos mais densos são fundamentais para fortalecer repertório, interpretação e argumentação. A escrita formal se desenvolve principalmente pela prática e pela exposição constante a bons modelos de linguagem."
Outro ponto observado por educadores envolve o impacto do consumo excessivo de conteúdos rápidos sobre a capacidade de concentração dos estudantes, especialmente em avaliações longas, como o Exame Nacional do Ensino Médio e vestibulares.
"O consumo excessivo de conteúdos muito rápidos pode dificultar a concentração prolongada e a construção de raciocínios mais complexos. O cérebro tende a se adaptar ao ritmo dos estímulos que recebe com frequência. Isso já aparece de forma muito concreta no contexto do ENEM e dos vestibulares: muitos estudantes relatam dificuldade de sustentar atenção em provas longas, com textos extensos, interpretação mais profunda e necessidade de leitura contínua por várias horas", alerta Carol.
Do ponto de vista neurocognitivo, especialistas em educação também observam mudanças relacionadas à frequência e ao tipo de estímulo consumido pelos jovens. Para Gabriela Mazaro, diretora pedagógica do Evolução Instituto de Ensino e neuropsicopedagoga, o cérebro tende a se adaptar às formas de comunicação utilizadas com maior frequência.
"Se o jovem utiliza muitos emojis, gírias e abreviações no processo de escrita, seu cérebro tende a se acostumar com esse tipo de linguagem. Da mesma forma, conteúdos ultra rápidos treinam respostas rápidas, imediatas e não aprofundadas. Portanto, sim, o uso das linguagens digitais pode impactar negativamente a escrita do jovem, principalmente quando é usado em excesso e sem mediação", esclarece.
Apesar disso, Gabriela enfatiza que a comunicação digital também apresenta aspectos positivos quando utilizada de maneira equilibrada.
"Os emojis ajudam a demonstrar sentimentos, facilitam a comunicação e a tornam mais rápida e direcionada. O problema surge quando crianças e adolescentes utilizam apenas esse modelo e passam a acreditar que a escrita é informal o tempo todo", diz.
Segundo a especialista, cabe à escola atuar como mediadora, ajudando os alunos a compreenderem as diferenças entre registros formais e informais: "A escola tem um papel fundamental de mediação, mostrando claramente a diferença entre linguagem formal e informal, escrita acadêmica, escrita utilizada nas redes sociais e escrita que será cobrada em vestibulares."
Ela também reforça a importância da leitura e da escrita contínuas no desenvolvimento da interpretação e da argumentação.
"É preciso ter cuidado com o consumo excessivo de conteúdos curtos e acelerados, pois eles acabam interferindo na leitura, na interpretação e na prática da argumentação. Como consequência, o jovem acaba se acostumando com ideias rápidas, respostas diretas e pouco uso da argumentação, o que impacta diretamente sua capacidade de produzir textos mais elaborados e consistentes", conclui Gabriela.
O uso excessivo de emojis e abreviações pode afetar a escrita? Entenda o que dizem especialistas
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Apesar das preocupações levantadas por pais, professores e especialistas, o consenso entre educadores é que a linguagem digital não deve ser encarada como inimiga. O debate atual passa menos pela tentativa de impedir abreviações e mais pela necessidade de ensinar às novas gerações que cada ambiente exige uma forma diferente de comunicação. Em um cotidiano cada vez mais acelerado, saber adaptar a linguagem pode se tornar tão importante quanto dominar as regras gramaticais.
