'Aborto é assassinato': ato do vereador Lucas Pavanato na USP termina em briga generalizada com feridos

 

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Um debate promovido pelo vereador Lucas Pavanato (PL-SP) na Cidade Universitária da USP, na capital paulista, terminou em confusão na última quarta-feira. Universitários acusam seguranças de Pavanato de agredirem estudantes que protestavam contra o político; um jovem foi hospitalizado. Por outro lado, Pavanato e a vereadora Eduarda Campopiano (PL-SP), que o acompanhava, afirmam que a confusão foi iniciada pelos alunos e que a parlamentar sofreu violência física e tentativa de furto por um aluno.

De acordo com Pavanato, o debate tinha o intuito de promover um debate com os estudantes sobre projetos seus relacionados a pautas como aborto e cotas raciais. Ele afirma que o modelo, que desafiava universitários a discutirem as temáticas, foi inspirado nos debates promovidos pelo ativista conservador americano Charlie Kirk — em universidades dos Estados Unidos. Lucas preparou uma tenda e banners, com dizeres como "Aborto é assassinato" para a conversa.

Lucas Pavanato no stand que montou para os debates

Reprodução/ Redes Sociais

Professores da USP criticaram a ação, argumentando que a iniciativa atacava os direitos das mulheres e a universidade pública. Por conta disso, alunos organizaram protesto em frente à tenda com caixas de som, faixas e gritos contra a presença do vereador.

— A gente viu o Pavanato chegar com diversos capangas armados, que agrediram estudantes. A gente tá aqui para dizer e reafirmar que os estudantes da USP não vão aceitar fascistas vindo provocar a gente na nossa universidade — afirmou um aluno em vídeo publicado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP.

Francisco Napolitano, estudante de Letras que afirmou, em seu Instagram, ter sido agredido por seguranças de Pavanato

Reprodução/ Redes Sociais

Em nota, o DCE afirmou que os alunos foram "covardemente agredidos" pelos seguranças do vereador e saíram com "o corpo coberto de hematomas e sangrando". O texto, publicado no Instagram, diz ainda que os agentes usaram spray de pimenta contra os jovens e "atropelaram os estudantes jogando o carro por cima deles".

Segundo a USP, um estudante que estava no tumulto, de nome não identificado pela instituição, foi atendido no Hospital Universitário. O jovem está bem e foi liberado da unidade na quarta-feira.

Os agentes que faziam a escola do vereador, da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, foram chamados de "capangas" pelos alunos. Pavanato contou ao GLOBO que passou a andar com seguranças depois de sofrer ameaças de morte. Afirmou ainda que sofreu intimidação de alunos na quarta-feira.

Pavanato também denuncia agressão

Em contraposição ao que foi relatado pelo DCE, o vereador diz que, na verdade, foi ele o agredido:

— Durante a gravação, os militantes do DCE colocaram som alto para eu não gravar e hostilizaram outros alunos que tentaram debater comigo. Após isso, tentei sair, mas começaram com as agressões e jogaram um produto químico, que deixou algumas pessoas com o olho ardendo. Eu fui acertado por uma garrafa, entrei no meu carro e saí do local, porém, pessoas que estavam comigo lá sofreram agressões piores — relatou Pavanato.

Amiga do vereador, Eduarda Campopiano relata versão semelhante. Ela afirma ter sido agredida com um soco na boca por um dos manifestantes após o mesmo jovem tentar roubar o seu celular em meio ao tumulto.

— Eu fui realmente agredida, sofri uma tentativa de furto. Um rapaz viu que eu estava gravando e arrancou o meu celular da minha mão. Eu tento puxar ele para pegar o meu celular de volta, e nisso, com o próprio celular na mão, ele me dá um soco na boca, que corta a minha boca, e eles fogem com o meu celular na mão. Eu caio no chão na hora, por causa do susto, e eu começo a gritar que ele pegou meu celular. Aí um dos guardas que acompanha o Pavanato corre atrás do rapaz, puxa o rapaz e arranca o celular da mão dele — contou a vereadora, que disse ter aberto boletim de ocorrência contra o homem que teria puxado seu telefone, recuperado por um dos seguranças.

O que dizem a Secretaria de Segurança Pública e a USP

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), o caso narrado pela vereadora foi registrado como lesão corporal e furto a transeunte na 51ª Delegacia de Polícia, no bairro de Rio Pequeno, na Zona Oeste paulistana. A vereadora foi encaminhada ao Instituto Médico Legal (IML) para exame de corpo de delito e, no local, encontrou o suspeito, que estava com estudantes da USP que prestavam queixas contra os vereadores. O homem, de 23 anos, depôs e foi liberado em seguida.

Sobre a confusão na USP, a SSP-SP afirmou, em nota, que houve "uma briga generalizada entre estudantes e um vereador, que resultou em agressões mútuas". O órgão informou também que dois alunos ficaram feridos e foram encaminhados para exames no IML. Ninguém foi detido e o caso segue sob averiguações da Polícia Civil de São Paulo.

Ao tomar ciência do ocorrido, a reitoria da USP informou que "repudia qualquer tipo de violência" que restrinja o exercício da liberdade de opinião "dentro dos limites da convivência republicana".

"Na Universidade de São Paulo consideramos que a liberdade de expressão e a pluralidade de ideias são princípios basilares da vida acadêmica. A Universidade é, por excelência, o espaço do debate plural, do questionamento crítico, da convivência entre diferentes perspectivas e visões de mundo. A Universidade é o espaço correto para que se dê voz a diferentes opiniões, ao direito da sua expressão, resguardados, obviamente, os princípios da democracia, respeitosa, mútua entre as diferentes vozes que possam ter visões de mundo diferentes", acrescenteou a USP, em nota enviada ao GLOBO.

*Estagiária sob supervisão de Daniela Dariano