Abertura do Congresso chinês vista do terceiro andar do Grande Salão do Povo
Como esperado, o anúncio que capturou as manchetes na abertura do Legislativo chinês foi a decisão do governo de estabelecer uma meta de crescimento do PIB menor para este ano em relação a 2025. Foi pouca coisa, meio ponto percentual. Mas o suficiente para que fosse interpretado como uma admissão oficial de desaceleração e do desgaste de um modelo econômico que busca se reinventar há anos, entre avanços e entraves.
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É a meta mais baixa desde 1991, destacam as agências de notícias. A correlação é coerente na linha do tempo, mas ignora a diferença dramática do país entre aquele período e o atual. No início da década de 1990, o PIB da China girava em torno de US$ 400 bilhões, mais ou menos igual ao do Brasil. Corta para o ano passado, quando chegou a quase US$ 20 trilhões (sete vezes maior que o brasileiro). São dimensões incomparáveis.
Ainda assim, a desaceleração chama a atenção não apenas diante do peso da China na economia mundial, mas também por sua trajetória. Para alguns economistas, desacelerar é fundamental para a transição que o governo almeja. Michael Pettis, professor americano que há anos dá aula na Universidade de Pequim e uma das figuras mais interessantes da capital chinesa, é um deles. O maior desafio para o governo chinês para cumprir seu objetivo de ter uma economia movida pelo consumo, diz ele, é ter a coragem de desacelerar o crescimento do PIB por um tempo. A questão é quem vai assumir o preço político que isso cobra, em termos domésticos e de imagem externa.
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Seguindo o protocolo anual, o primeiro-ministro Li Qiang leu o relatório de trabalho do governo diante dos cerca de 3 mil deputados do Congresso Nacional do Povo (CNP, o Parlamento chinês), com um balanço do último ano e os planos para o próximo. A meta de crescimento do PIB para 2026 ficou entre 4,5% e 5%, enquanto a do ano passado havia sido “em torno de 5%”. Em tese, ainda há espaço para tudo se manter do jeito que estava, ou até haver uma melhora, já que o relatório dá espaço para a meta ser melhor.
Para a liderança chinesa, a estratégia do planejamento meticuloso, da coreografia protocolar das cerimônias políticas ao estabelecimento de metas a serem cumpridas em todos os níveis da burocracia estatal, ganhou uma importância vital com a volta de Donald Trump à Casa Branca. A turbulência provocada pelo presidente americano, com seus rompantes tarifários e militaristas, é contrastada por Pequim com os gestos cuidadosos de quem se apresenta como a potência responsável, previsível, confiável.
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Mais que isso, um sistema que promete ter como bússola o planejamento. Num país com histórico de revoltas e reviravoltas sangrentas ao longo da história, tanto a milenar como a moderna, o que o Partido Comunista da China aposta para resguardar sua legitimidade é garantir à população segurança e níveis crescentes de prosperidade. Ou, em uma palavra, previsibilidade, um ativo que tornou-se ainda mais valioso na era de Trump.
Ainda que se lance no futuro, com foco em inovação e tecnologia, o PC chinês se mantém fiel ao instrumento de inspiração soviética, os planos quinquenais. Em seu pronunciamento na abertura do Legislativo, o primeiro-ministro Li Qiang deu a largada para um novo período de cinco anos de planejamento, que aponta para a ambição do país em termos de desenvolvimento econômico, social e tecnológico.
Afora os transtornos no trânsito por conta do aumento da segurança em Pequim, a maioria dos chineses se mantém alheia ao que acontece nesta semana no Grande Salão do Povo, sede do Legislativo. O que realmente importa é o resultado na vida da população do que sairá das reuniões, e nesse ponto a principal meta revelada por Li, foi a de dobrar o PIB per capita da China de 2020 até 2035. Significa muito, se for atingida. Mesmo com todo a dedicação ao planejamento, a China não está imune a imprevistos, tanto domésticos (exemplo: os expurgos recentes no alto escalão militar), mas principalmente os externos, como reconheceu o primeiro-ministro.
— Raramente em muitos anos nós estivemos num cenário tão grave e complexo, em que os choques e desafios externos se entrelaçaram com dificuldades domésticas e decisões políticas difíceis — disse Li.
