Abelhas detectam vírus na comida e, em alguns casos, até preferem alimento contaminado, aponta estudo
O que parece instinto de sobrevivência nem sempre funciona da forma esperada no mundo das abelhas. Embora consigam identificar a presença de vírus em suas fontes de alimento, esses insetos nem sempre evitam o perigo, e, em algumas situações, chegam até a preferir alimentos contaminados.
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A descoberta foi feita por pesquisadores do Laboratório de Genética e Fisiologia da Criação de Abelhas, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA-ARS), e publicada no início de abril na revista científica Biology Letters. O estudo investigou como diferentes grupos de abelhas reagem ao contato com alimentos contaminados por vírus e trouxe resultados considerados surpreendentes até pelos próprios autores.
A pesquisa foi liderada por Mike Simone-Finstrom e Liz Walsh e partiu de uma pergunta direta: se as abelhas conseguem detectar vírus nos alimentos, elas optam por evitá-los? A resposta, segundo os cientistas, mostrou-se mais complexa do que o esperado.
— Ficamos surpresos ao descobrir que elas não apenas conseguem detectar vírus nos alimentos, mas, em alguns casos, elas até os preferem — afirmou Simone-Finstrom.
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Quando detectar o perigo não significa evitá-lo
Nos experimentos, realizados tanto em laboratório quanto em campo, as abelhas puderam escolher entre xarope de açúcar puro e xarope contaminado com vírus, como o vírus da asa deformada (DWV, na sigla em inglês), um dos patógenos mais prejudiciais às colmeias.
Esse vírus está diretamente associado ao ácaro Varroa destructor, considerado atualmente um dos principais inimigos da apicultura mundial. O parasita facilita a disseminação da infecção e pode provocar graves deformações físicas nas abelhas, comprometendo sua sobrevivência e o funcionamento das colônias.
Os resultados mostraram que a reação ao alimento contaminado varia de acordo com o tipo de abelha, a estação do ano e o vírus presente.
Dentro da colmeia, as funções são divididas entre diferentes grupos. As chamadas abelhas nutrizes são jovens responsáveis por alimentar larvas e a rainha, enquanto as forrageiras são adultas encarregadas de buscar néctar e pólen fora da colmeia.
Segundo o estudo, as nutrizes evitavam alimentos contaminados durante o verão, mas no outono passaram a preferir soluções com presença viral. Já as forrageiras demonstraram preferência constante por soluções com altas concentrações de DWV.
“A detecção não leva a uma única resposta. Uma abelha pode perceber um sinal viral e ainda assim se aproximar do alimento”, destacam os autores, ao apontar a complexidade dos mecanismos fisiológicos e sociais envolvidos nessas decisões.
Risco para colmeias e preocupação para apicultores
A pesquisa também lança um alerta importante para práticas comuns da apicultura, especialmente a chamada alimentação aberta — quando um recipiente coletivo com xarope é disponibilizado como fonte de alimento para diferentes abelhas.
Segundo os cientistas, esse método pode se transformar em um ponto de transmissão de vírus entre indivíduos, colmeias e até espécies distintas que compartilham flores e fontes de néctar. Se o alimento estiver contaminado, ele pode funcionar como um centro de disseminação viral.
Com isso, o controle de infecções torna-se mais desafiador, já que a simples capacidade de detectar o risco não garante a prevenção da contaminação.
A autora principal do estudo, Alexandria N. Payne, afirma que as conclusões levantam novas perguntas sobre o funcionamento biológico desses insetos.
— Como as abelhas detectam vírus fisiologicamente? Quais moléculas elas percebem? Todas as abelhas têm a mesma sensibilidade? — questiona.
Segundo os especialistas, compreender essas respostas pode ajudar no desenvolvimento de estratégias mais eficazes para reduzir o impacto de doenças nas colônias e proteger polinizadores essenciais para a manutenção dos ecossistemas e da produção agrícola.
Para Simone-Finstrom, o estudo mostra que o comportamento coletivo das abelhas ainda guarda muitas camadas pouco compreendidas.
— A melhor investigação abre novas questões e linhas de pesquisa para a compreensão do comportamento animal e do seu impacto no ecossistema — concluiu.
