A vitória do Irã sobre os Estados Unidos em 'jogo da paz' na Copa de 1998

 

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Os iranianos reagiram como se tivessem conquistado o título quando o árbitro deu o apito final do jogo contra os Estados Unidos, na primeira fase da Copa do Mundo de 1998, em Lyon, na França. Aquela era a primeira vitória da seleção num mundial da Fifa, mas também um êxito sobre o maior rival do país asiático no âmbito geopolítico. Além disso, a derrota eliminava os americanos do torneio.

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Enquanto, dentro de campo, os atletas levantavam as mãos para os céus, muitos deles agradecendo a Alá, em Teerã, autoridades do regime islâmico celebravam a vitória de 2 x 1 sobre o país chamado pelo governo de "Grande Satã", e milhares de pessoas tomavam as ruas da capital do Irã para festejar.

Nesta quarta-feira, em meio à guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o ministro dos Esportes do país asiático, Ahmad Doyanmali, disse que sua seleção vai se retirar da Copa do Mundo deste ano, que será realizada, na sua maior parte em território americano. "Dado que esse governo corrupto assassinou nosso líder, não há condições sob as quais possamos participar", afirmou.

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O jogo em 1998 ocorreu em contexto menos tenso, mas, mesmo assim, cercado de expectativa, foi apelidado de "mãe de todas as partidas" naquela Copa. Estados Unidos e Irã são rivais políticos desde fevereiro de 1979, quando a Revolução Islâmica derrubou a ditadura do xá Reza Pahlavi, apoiado pelos americanos, e instalou uma teocracia anti-imperialista que tinha o país do Tio Sam como principal alvo.

Atletas iranianos festejam após vitória contra Estados Unidos na Copa de 1998

Arquivo/AFP

Meses depois da revolução, estudantes invadiram a embaixada americana em Teerã e mantiveram dezenas de reféns durante 444 dias. Aquele episódio levou ao rompimento das relações entre os dois países e deu início a um histórico de sanções econômicas dos Estados Unidos contra o Irã. Mais tarde, a Casa Branca apoiou amplamente o Iraque na histórica guerra contra o Irã, e ntre 1980 e 1988.

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Com a chegada do Regime Islâmico, o futebol iraniano sofreu uma retração. A seleção, que tinha conseguido, em 1978, a sua primeira classificação para uma Copa, amargou 20 anos sem participar do Mundial. O jejum acabou na edição de 1998, após "vitória" suada sobre a Austrália na repescagem das eliminatórias (foram dois empates, mas o Irã ganhou a vaga pelo número de gols fora de casa).

Tudo isso alimentava a expectativa em torno do "jogo da paz" que aconteceria no Estádio de Gerland, em Lyon, no dia 21 de junho de 1998. De ambos os lados havia esforços para passar a mensagem de que o esporte poderia servir como uma ponte. Antes da partida, o então presidente americano, Bill Clinton, apareceu na TV dizendo: "Enquanto torcemos pelo jogo de hoje entre americanos e iranianos, espero que ele seja mais um passo para acabar com o distanciamento entre nossas nações".

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A Fifa definiu a data como "dia do fair play". Os iranianos entraram em campo com flores brancas para entregar aos adversários. Contudo, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, numa demonstração de que ele não tinha embarcado no clima de confraternização, proibiu seus jogadores de caminhar até os americanos para cumprimentá-los. Então, em vez disso, os atletas do Tio Sam andaram até os rivais, receberam as flores, e os dois times posaram juntos para uma foto histórica.

Jogador americano com flores entregues por iraniano em 1998

Arquivo/AFP

Por outro lado, a segurança do estádio precisou ser reforçada devido à preocupação com atentados terroristas. A organização Mujahedin Khalq, apoiada pelo líder iraquiano Saddam Hussein e formada por iranianos que se opunham ao regime islâmico, comprara cerca de sete mil ingressos. Havia temor não apenas de violência, mas de alguma manifestação política que pudesse abalar o clima do jogo.

Quem estava no estádio podia ver diversos cartazes e faixas com mensagens políticas que passaram pela revista dos torcedores, mas os cinegrafistas que participavam da transmissão da partida para o mundo todo foram bem orientados a não apontar suas câmeras a esses materiais. Além disso, havia um enorme contingente de policiais franceses a postos para evitar uma invasão do gramado.

Dentro de campo, o jogo foi tudo o que os iranianos sonharam. A seleção asiática abriu o placar cinco minutos antes do fim do primeiro tempo e fez o segundo gol aos 39 do segundo tempo. Os Estados Unidos reduziram a vantagem cinco minutos depois, mas o Irã conseguiu segurar o resultado. Quando a partida acabou, metade do time vencedor se entregou as lágrimas: "Allahu Akbar", gritavam.

A comoção tomou conta de Teerã. Milhares bebiam e dançavam. Mulheres em festa tiraram os hijabs da cabeça, enquanto membros da Guarda Revolucionária faziam vista grossa para essas e outras "infrações" às leis islâmicas do país. "Esta noite, o rival forte e arrogante provou mais uma vez o gosto amargo da derrota", declarou Ali Khamenei, que seria morto 28 anos depois, em Teerã, no bombardeio que começou o conflito atual.

A Fifa deu a ambos os times o prêmio de Fair Play naquela Copa. Dezoito meses depois, ambas as equipes se enfrentaram num amistoso em Pasadena, na Califórnia. O jogo terminou empatado com placar de 1 a 1. Na Copa de 2022, houve um terceiro confronto entre as duas seleções, com vitória de 1 a 0 dos americanos, que, assim, conquistaram a classificação para as oitavas-de-final.