A vez do teatro: público lota salas e garante temporadas de sucesso no Rio

 

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O primeiro alerta indica que todos devem entrar na sala.

Na segunda campainha, é hora de ocupar seu lugar.

No terceiro e definitivo alerta, é chegada a hora. Ajeitem-se! O espetáculo está prestes a começar!

No Rio de Janeiro, a cena aberta tem recebido cada vez mais público. Para se ter ideia, em 2025, 153.806 pessoas estiveram em alguma apresentação no tradicional Teatro João Caetano, da rede estadual. Já a Casa de Cultura Laura Alvim, pulou de 9.447 pessoas em 2024, para um público de 21.493 em 2025. Somando todas as casas de espetáculo ligadas ao Estado, em 2025, 250 mil espectadores ouviram, em algum momento, os três alertas sonoros que preparam o público para a apresentação.

Isso sem contar o principal Teatro do Rio, o Municipal, que teve mais de 270 mil espectadores no ano passado. Um dos principais símbolos da cultura carioca, o local não recebe apenas peças, mas também lota quando é o teatro que pede passagem.

Em cartaz no Rio com a peça Simplesmente Eu, Clarice Lispector, a atriz Beth Goulart celebra o bom momento que "a arte da humanidade" vive.

"Eu fico muito feliz quando vejo uma casa cheia, teatro lotado! Sinal de que as pessoas precisam desse encontro presencial que o teatro nos proporciona. Afinal de contas, o teatro é uma arte viva, é a arte da humanidade. Ver um teatro cheio, principalmente pra ouvir Clarice Lispector, é uma alegria imensa na minha alma. Então eu fico muito feliz de ser instrumento tanto para as palavras de Clarice como para apresentar pra uma nova geração a força dessa arte ancestral que é o teatro".

A atriz Malu Galli, que acaba de estrear a peça "Mulher em fuga", inspirada na obra do escritor francês Édouard Louis, fala da força do teatro através dos séculos.

"As pessoas entenderam o quão especial é essa experiência de você viver uma coisa que está acontecendo no ato, na sua frente, em comunhão com outras pessoas que estão junto de você. É uma experiência única, que atravessa os séculos. E acho que ela vai permanecer porque não há tecnologia que possa transpor isso, que possa fazer isso virar algo obsoleto ou algo que não faça mais sentido".

O fenômeno das casas lotadas se repete nos teatros municipais. Em 2025, tivemos 178.702 espectadores. Segundo a Secretaria Municipal de Cultura, um aumento de 65,6% em relação a 2024.

E cada vez temos mais produtores e diretores procurando os teatros da cidade para tentar colocar suas peças em cena. Os chamados pedidos de pauta, no jargão teatral, subiram de 772 em 2024 para 1073 no ano seguinte. E 2026 promete: teatros como o Carlos Gomes, O Ziembinsky, o Espaço Sérgio Porto, o Café Pequeno e tantos outros, já acumulam 391 solicitações no primeiro trimestre.

Se um espetáculo lotado já emociona quem está no palco, imagine dois. Quem tem esse privilégio é Denise Fraga. Recentemente, a atriz esteve em cartaz com duas peças simultâneas: o monólogo 'Eu de Você' e 'O que só sabemos juntos', ao lado de Tony Ramos. Para ela, muita gente não conhece o teatro e se surpreende quando tem a experiência:

"A gente tem visto os teatros todos lotados. Isso é muito maluco, porque onde a gente vai esgota. Então as pessoas querem ir ao teatro. Muita gente não vai ao teatro porque não sabe o que é não conhece o teatro. Acha que é chato, que é verborrágico. E eu vejo, muitas vezes, uma pessoa surpresa com o que o teatro é".

O ator Armando Babaioff, o Tom do espetáculo Tom na Fazenda, visto por mais de duzentas mil pessoas no Rio e em todo o país, celebra o significado de comunhão do teatro:

"É um lugar em que as pessoas combinam de se encontrar tal hora, para assistir alguma coisa juntas, como na igreja. Então, eu entendo como um lugar de comunhão, um museu da humanidade, onde as pessoas vão assistir pessoas de verdade, vivendo situações de verdade".

Se, para o público, a efervescência da cena teatral é um jeito de ir em busca dessa experiência de comunhão, pra quem faz teatro, o momento é único. Aos 92 anos, um dos mais importantes atores do Brasil, Othon Bastos está em cartaz com o monólogo Não me entrego não! Ali, com texto e direção de Flavio Marinho, ele passa sua vida em cena. Marinho conta da relevância do momento.

"É da maior relevância a gente ter um ator como o Othon Bastos, considerado um dos maiores atores brasileiros vivos, em plena atividade, com absoluto rigor vogal e físico. E entusiasmadíssimo em estar em cena. É um prazer indescritível ver um ator dessa qualidade em cena todas as noites".

Para encerrar essa história, que é nossa homenagem ao Dia Mundial do Teatro, nada melhor do que trazer o próprio Othon Bastos num dos momentos mais impactantes do seu monólogo.

"Meu nome é Othon Bastos, tenho 92 anos, sou um ator brasileiro e não me entrego não!!"