'A tuberculose não acabou, é um problema global', diz John Green, que lança livro sobre a 'infecção mais mortal'
Conhecido do público brasileiro por títulos como “A culpa é das estrelas” e “Cidades de papel”, com 5 milhões de títulos vendidos e adaptações para o cinema, o autor norte-americano John Green diz ter agora encontrado “o trabalho de sua vida”. Seu plano é usar seu espaço e prestígio para falar sobre a tuberculose, doença que mata 1,2 milhão de pessoas no mundo ao ano, mesmo com testagem e tratamentos conhecidos. John explorou o tema no livro “Tudo é tuberculose: a história e a reincidência de nossa infecção mais mortal”. recém-lançado pela Editora Intrínseca. Nele, Green explica como essa infecção moldou a cultura, a moda e as artes, mas também de que maneira tornou-se uma doença de populações vulneráveis, sem acesso às drogas que salvariam suas vidas em poucos meses. Em entrevista ao GLOBO o escritor falou sobre o cenário geral da doença e por que acredita que o cenário global de infecções deve piorar. “A tuberculose não acabou, é um problema global, e isso inclui os EUA e o Brasil”.
O que precisa ocorrer para a tuberculose ser controlada?
Poderíamos acabar com a crise da tuberculose se quiséssemos, tudo o que é preciso são recursos. Temos a tecnologia para isso. O que não temos são sistemas de distribuição, mas sabemos o que precisa ser feito. Precisamos buscar os casos, oferecer tratamento a todos que estão doentes e garantir cuidado preventivo para seus contatos próximos. E, se fizermos isso, acabaríamos com a crise da tuberculose em poucos anos. O desafio é que, na verdade, não temos um problema tecnológico, temos um problema de empatia, de justiça. E são esses os problemas que mais me interessam. Não sou um especialista técnico em tuberculose, mas não é preciso ser para entender isso.
O livro foi concluído em 2024. A realidade hoje, com guerras e pouco financiamento, está ainda pior do que aquela?
Sim, acho que a tuberculose vai piorar nos próximos anos. Ainda não começamos a ver isso nos dados, mas veremos. Está piorando porque a guerra piora tudo. Está piorando porque os Estados Unidos e outros países ricos não estão investindo tanto em saúde de forma geral e, em particular, na resposta à tuberculose. E isso é devastador porque, quando o governo Trump assumiu o poder nos Estados Unidos, em janeiro de 2025, cortou imediatamente o acesso ao tratamento de centenas de milhares de pessoas. Depois, grande parte desse financiamento acabou sendo restabelecida e essas pessoas voltaram ao tratamento. Mas, nesse intervalo, muitas desenvolveram resistência aos medicamentos, o que torna a doença mais difícil e mais cara de curar. Muitas morreram. E isso, para mim, é absolutamente inaceitável.
E o que é possível fazer?
Acho que há coisas que podemos fazer tanto dentro quanto fora das urnas. Uma dessas coisas, e que tem sido bastante eficaz, é pressionar o governo a financiar a saúde global. Muitos dos cortes foram revertidos. Então, na prática, estamos vendo um financiamento de saúde relativamente estável. Mas há coisas como os protestos, que eu acho super importantes. E também, ainda faltam três anos para podermos votar para presidente, nesse intervalo podemos fazer muita coisa.
O seu livro fala muito de preconceito. Como é o estigma da tuberculose hoje?
Há muito estigma em torno da tuberculose no mundo todo. Quando as pessoas adoecem com tuberculose, muitas vezes são abandonadas por suas famílias. Um sobrevivente me disse que lidar com o estigma é mais difícil do que lidar com a doença. E eu acredito. E já ouvi de profissionais de saúde que, em alguns casos, quando um paciente morre, são eles que precisam enterrá-lo, porque a família tem medo demais de ir buscar o corpo. Essas histórias partem meu coração. Um dos aspectos do estigma é que tendemos a estigmatizar doenças que são difíceis de tratar, curar e que nos assustam. São doenças infecciosas que nos causam medo. E a tuberculose não precisa ser difícil de curar. Ela não precisa ser uma doença tão estigmatizada. Estamos escolhendo caminho porque não estamos fazendo um trabalho bom o suficiente para levar o cuidado da tuberculose às pessoas mais vulneráveis.
O que é um caminho possível para reduzir o estigma de uma doença? Você conta que viveu isso com seu diagnóstico de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
O TOC era uma condição muito mais estigmatizada nos Estados Unidos quando eu era criança do que é hoje. E muita coisa foi feita para combater esse estigma. Mas parte disso veio de pessoas conhecidas passarem a dizer: “Eu tenho TOC e tenho uma vida ótima, as duas coisas não são incompatíveis.” E acho que é parecido com a tuberculose. A questão é se realmente os ouvimos (os ativistas), se os mecanismos dos nossos sistemas de informação estão, de fato, fazendo um bom trabalho ao dar voz a essas pessoas.
O câncer, tratado na trama do seu livro “A culpa é das estrelas”, passou por essa redução de estigma nas últimas décadas…
A forma como a tuberculose era imaginada no século XIX é bastante semelhante à forma como o câncer é visto hoje, como algo imprevisível que qualquer pessoa pode ter. Acho que podemos reduzir o estigma da tuberculosa de maneira semelhante às formas como tentamos reduzir o estigma do câncer. Quer dizer, meu irmão teve câncer alguns anos atrás, e foi uma experiência bem diferente de quando meu pai teve câncer, há 35 anos. Hoje se fala mais sobre isso. Há menos julgamento, e a doença é mais vista como fenômeno biológico, e não social.
A filantropia é suficiente para resolver um problema do tamanho da tuberculose? Acha que as figuras públicas deveriam oferecer sua imagem e não só o dinheiro para a saúde pública?
A filantropia não é suficiente para responder a crises de saúde pública. Precisamos dos governos. Pessoas com muito dinheiro deveriam doar uma boa parte dele, porque não há razão para ter mais do que o necessário. Mas, mesmo assim, isso não vai ser suficiente. O que é suficiente é tributação, sistema público de saúde, acesso universal à saúde, atendimento para os mais vulneráveis. Acho que a filantropia tem um papel importante no combate à tuberculose porque pode financiar projetos-piloto que ajudam os governos a entender quais são as formas mais eficazes de resposta. A Fundação Gates financiou um grande estudo de vacina. Então, há um papel para a filantropia, mas ela está longe de ser suficiente. E, por isso, pressionar os governos a investir adequadamente em saúde é muito importante.
Além de autor de best-seller, você é também uma figura conhecida na internet. Outros influenciadores já te procuraram para dizer que gostariam de engajar em causas do tipo, mas não fizeram por medo de críticas?
Tive muitas conversas, especialmente com criadores jovens, sobre como usar da melhor forma o megafone que receberam. Acho que isso pode ser difícil quando você é jovem. Fico muito feliz que nada disso (ficar conhecido no mundo digital) tenha acontecido comigo quando eu tinha 20 anos. É difícil lidar com as críticas. (na juventude). Mas conversei com eles e disse que era muito importante tentar usar sua voz, é uma necessidade.
Vai continuar falando sobre tuberculose publicamente?
Esse é realmente o trabalho da minha vida. E não termina com o livro, de certa forma começou com ele. Há uma crise nos Estados Unidos quando se trata de financiamento da saúde, tanto internamente quanto globalmente. Esse tem sido um grande foco para mim: tentar trabalhar com defensores e ativistas para restaurar o máximo possível do financiamento global em saúde, recuperar o máximo possível do que foi cortado e garantir que esse dinheiro seja bem utilizado. Nós precisamos garantir que o dinheiro chegue de fato às comunidades afetadas.
