A terceira vida do Love Cabaret, o 'playground para adultos' de São Paulo: menos burocracia, mais interação

 

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Até hoje, a discreta entrada do número 232 da Rua Araújo, no Centro de São Paulo, desperta burburinhos entre quem conhecia a fama da antiga boate Love Story. O lugar ganhou ares quase míticos na cidade: uma suposta casa de prostituição, reduto de boêmios e notívagos, sem hora para fechar. Nos últimos três anos, rebatizado como Love Cabartet, o endereço ficou "mais light", voltado a apresentações e shows que misturavam acrobacias e danças sensuais. Agora, em uma espécie de terceira encarnação, os proprietários tentam desburocratizar o acesso e ampliar o público.

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A primeira "vida" da boate chegou ao fim em 2021, em meio à pandemia de Covid-19, quando o negócio faliu após duas décadas de funcionamento e um longo processo de recuperação judicial. Em 2023, o espaço reabriu sob o novo nome e a gestão dos empresários Lily Scott, Facundo Guerra e Caire Aoas.

Nessa segunda fase, em vez de uma boate, a “casa de todas as casas” passou a apostar em espetáculos adultos que transitam entre o underground e o performático — pole dance, BDSM, voguing, burlesco, drag, tango aéreo, performances musicais e fetiches diversos. Tudo isso com uma estética mais pop, que alguns frequentadores classificavam como “baunilha” em comparação à fase anterior, que seria mais "raiz".

Agora, no que os organizadores chamam de “terceiro ato”, as apresentações deixam o palco e passam a ocorrer ao redor das mesas, em meio ao público. A compra de ingressos, antes feita pela internet, com horário marcado, perde o caráter burocrático. Ainda é possível realizar as reservas no site, mas agora também será possível comprar in loco. Os clientes podem escolher entre pagar R$ 50 de couvert ou R$ 120, valor que inclui R$ 90 em consumo.

— Apesar de ser muito artístico, performático, a gente não quer ser um teatro. A gente quer ser um lugar em que as pessoas sejam habitués. Quando você tira essa barreira de ter que comprar o ingresso na internet, facilita isso — diz Aoas.

Agora sem horário fixo para apresentações, a casa oferece a todos um passeio por experiências como o shibari (técnica de amarração com cordas), podolatria (fetiche por pés), lap dance (performance erótica), spanking (estímulos leves na região do corpo), wax play (prática com velas) e jogos sensoriais, além de propostas como ASMR (estímulos auditivos) e até hipnose.

Na primeira noite dessa nova fase, no dia 9 de abril, a fila já chamava atenção: à espera, pessoas com leques, peças de couro e casacos longos que escondiam figurinos ínfimos. Ao longo da noite, e com o cair dessas camadas, era iniciada uma disputa silenciosa por olhares.

O público do espaço, porém, não se restringe aos habitués. Grupos de amigos curiosos e casais interessados em explorar novas dinâmicas a dois — ou a três ou mais — também aparecem para assistir às apresentações.

Nesta nova fase, é possível dividir o público em dois perfis: os que pedem com naturalidade os drinques autorais da casa e os que quase sussurram ao solicitar um “Silêncio entre dois corpos” — feito com Johnnie Walker Black Label, vermute dry, brandy toffee, amaretto e Cynar, por R$ 49 — ou um “Arde onde não se vê”, com tequila Don Julio em infusão de jambu, vermute dry e xarope de pimentas e ervas, por R$ 65.

O ambiente, banhado por luz neon, abriga duas hastes de pole dance e uma estrutura metálica central presa ao teto para apresentações acrobáticas. Ao longo da noite, entre garçons vestidos de preto, circulam artistas mascarados, montados e, muitas vezes, com figurinos mínimos e acessórios discretos.

Love Cabaret

Divulgação

Aoas relembra os desafios enfrentados ao longo desses três anos — dos mais pragmáticos, como lidar com a reputação do local e formar um elenco, aos mais específicos, como entender as diferenças técnicas entre os equipamentos de performance.

— Todo mundo tem alguma imagem do Love Story, tenha vindo ou não. Há quem tenha vindo e se divertido, e há quem nunca tenha vindo e ainda assim tenha uma opinião. A gente imaginou que seria mais difícil explicar o que era o Love Cabaret, mas foi natural. O trabalho artístico acaba se explicando — diz.

Ele também destaca o aprendizado técnico:

— Quando a gente abriu, nem sabia que tinha diferença de tamanho de pole. Giratório, não giratório. E aí a gente abriu a casa, o arquiteto projetou, fez a obra, chegou aqui a primeira bailarina dessa arena que foi usar pole, e falou: “Mas esse pole é enorme, não gira”. Aí a gente começou a ter que entender esse universo — disse.

Love Cabaret

Divulgação

Lily Scott, que tem na memória a data de reabertura do local, brincou que além dos insumos tradicionais de uma casa de show, como bebidas e alimento, o Love tem sua demanda própria:

— Antes de abrir o Love, eu gastei uns R$ 3.000 no Mercado Livre em vibradores. A gente tinha que comprar uns azuis para fazer a parte da apresentação, e veio lá no meu cartão de crédito, eu tenho emoldurado até hoje — disse, rindo, enquanto no centro do palco uma mulher girava entre cordas anexadas ao teto.

Responsável pelas apresentações ao longo desses três anos, a mestre de cerimônias Indra Haretrava acompanhou de perto a evolução do projeto. Cantora e apresentadora, ela atua frequentemente na linha tênue entre o convite e a provocação ao interagir com o público.

Mestre de cerimônias da Love Cabaret, Indra Haretrava

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— Eu fui tentando ler as pessoas, as versões que a gente tava compondo, que a gente queria contar. Eu acho que foi isso que a gente foi evoluindo, amadurecendo mesmo, enquanto produto, casa, equipe, direção, curadoria — disse.

Indra circula entre as mesas, acompanhada de perto pela equipe de iluminação, posicionada no mezanino, que tenta segui-la com os refletores.

Ela reconhece que houve resistência inicial, especialmente de frequentadores da fase anterior, que viam a nova proposta como mais “suave”. Com o tempo, porém, a relação mudou.

— Eu não vou dizer 100%, porque foi um pouco presunçoso da minha parte, mas, das mais de 100 mil pessoas que passaram aqui nessa casa, eu senti que, no começo, elas tiveram essa resistência. No final, elas se sentiam quase minhas amigas. Aí, comecei a gostar muito disso, porque senti que quebrei um pouco desses muros que dividem a gente — contou.

Se a antiga Love Story virou lenda por representar os excessos e as margens da noite paulistana, sua reinvenção parece tentar alcançar outra camada da cidade — menos clandestina, mas aberta aos olhares curiosos do que ainda vivem dos burburinhos.