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A 'sombra' que ajudou Bruno Guimarães a superar crises de ansiedade no começo da trajetória e a se encontrar como meio-campista

Fonte: Bandeira



O Brasil se prepara para decidir seu futuro na Copa do Mundo com todos os olhares voltados para Vini Jr., melhor jogador do time até aqui, e Neymar, estrela do elenco que pode, enfim, fazer sua estreia. Mas há um destaque, mais silencioso, que é peça-chave para o técnico Carlo Ancelotti. Sem tantos holofotes, Bruno Guimarães tem sido um dos alicerces da equipe.

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Em um time que tem mostrado como ponto forte a pressão sobre o adversário e os ataques verticais e em velocidade, as estatísticas da Fifa mostram como Bruno é uma das partes mais centrais desta engrenagem. Quando a equipe tem a bola, o camisa 8 lidera entre os brasileiros como o que mais se oferece para recebê-la e o que mais tenta quebrar as linhas defensivas do outro lado do campo. Na fase defensiva, é o terceiro do time que mais pressiona o rival que carrega a bola (atrás apenas de Vini e Raphinha) e o primeiro a conseguir forçar a perda de posse do adversário.

Isso sem contar as movimentações que ajudaram a abrir espaços para os companheiros. Neste combo, mesmo sem marcar o seu ou dar assistência, participou dos três gols contra o Haiti.

— Feliz por uma grande partida, poderia ter saído com algumas assistências. Mas obviamente que o que mais importa para mim é a vitória do grupo. Coletivamente, todos os jogadores performaram muito bem. Esta é a mentalidade e o caminho —comentou um Bruno muito à vontade em sua segunda Copa, aos 28 anos.

Bruno Guimarães foi um dos destaques do Brasil contra o Haiti, pela Copa do Mundo

Charly Triballeau / AFP

Quem o vê assim, como uma das lideranças técnicas da Amarelinha, sorridente nas entrevistas, nem consegue imaginar que ele foi um garoto que, no começo da trajetória no futebol, não conseguia sequer dar seu melhor nos treinos. O nervosismo e a ansiedade eram tão grandes que geravam reflexos em seu corpo.

Estar numa escolinha de futsal era a realização para o menino de 9 anos que, como muitos outros, sonhava virar jogador. Mas, quando precisava mostrar suas habilidades, simplesmente travava. Não conseguia executar as ações e, às vezes, vomitava ou tinha febre.

Passou a achar que não conseguiria atingir aquele objetivo até que, um dia, foi flagrado pelo próprio treinador, Mário Jorge, jogando muito bem uma pelada numa quadra. Ali, recebeu dele um conselho que mudaria sua vida: “Jogue no time também como se fosse para se divertir e veja o que acontece”. Aquilo virou um mantra que ajudou a “destravar” os bloqueios de Bruno.

Na verdade, àquela altura, Mário já sabia o que estava se passando com o menino. E passou a ser um tutor, sempre ao seu lado lhe dando orientações e procurando passar confiança.

— No princípio, ele não gostava muito de participar da parte competitiva. Gostava do aquecimento, do (treino de) chute a gol... Mas, no vamos ver, pedia para sair e ficava do lado de fora. A Dona Márcia (mãe de Bruno) confidenciou que ele ficava muito nervoso, se cobrava muito. Passava mal mesmo, de todas as formas. E eu comecei a ficar dentro do treino do lado dele. “Faz isso, faz aquilo, pisa na bola”, dizia. Fiquei como uma sombra dentro do treino para passar confiança — conta Mário, seu então treinador no futsal do clube Helênico, no bairro carioca do Rio Comprido, na Zona Norte, e hoje técnico do time principal de campo do Volta Redonda, que disputa a Série C do Brasileirão.

Uma sombra que acompanharia Bruno em outras etapas de sua formação e seguiria tendo papel importante. Aos 13, depois de algumas tentativas sem sucesso de ficar na base de clubes como Botafogo e Fluminense (já no futebol de campo), foi chamado para ingressar no projeto do Audax-RJ, que acabara de contratar Mário Jorge para cuidar da captação de talentos das categorias de base.

— Eu tinha como missão montar uma geração 1997/1998. E nesse primeiro ano convidei o Bruno para trabalhar comigo. Ele já tinha passado por Flamengo, Vasco, Botafogo, CFZ e estava desistindo do futebol de campo. Lembro que, quando o chamei, ele falou: “No campo não me botam para jogar. Não quero mais, Mário, chegar lá e fazer teste de novo”. Respondi que não era um teste. Já estava recrutando — lembra.

Mais uma vez, o empurrãozinho da “sombra” ajudou Bruno a decolar. Desta vez, até a Copa. Quatro anos depois, ele teve uma oportunidade no Audax paulista e não parou de ascender: Athletico, Lyon-FRA, Newcastle-ING e a seleção brasileira principal. Um caminho que contou com o apoio de outras “sombras”, como os brasileiros Tiago Nunes, Fernando Diniz e Tite e o holandês Peter Bosz.

Mas Bruno e Mário ainda trabalhariam juntos mais uma vez. Em 2014, aos 16, já no Audax-SP, o volante passou um semestre viajando para o Rio nos fins de semana para reforçar o time sub-17 de futsal do Bradesco, dirigido pelo antigo tutor. Naquele ano, os dois foram vice-campeões do Carioca da categoria.

Bruno Guimarães e Mário Jorge, jogador e técnico viraram amigos

Arquivo pessoal

O treinador já visitou o pupilo em sua casa em Newcastle, assistiu a jogos dele na Premier League como convidado e o recebe toda vez que ele retorna ao Rio para visitar a família. A relação de “sombra” e jogador virou uma amizade entre “gorduchos”.

— Ele me chama de gorducho, mas ele é que é o gorducho da história — revela o técnico, aos risos: — Quando pequenininho, ele era gordão, da bochecha ficar caída. Então, comecei a chamá-lo assim.

Aliás, Mário ainda teve mais uma participação importante na história de Bruno. Ao migrar da quadra, onde atuava como ala pela direita, para o campo, o atleta disse que queria jogar como lateral-direito. Mas foi logo aconselhado a jogar no meio de campo.

— Pelo jeito que ele organizava o time no futsal, era um desperdício tê-lo só na lateral. Pensei que ele deveria jogar numa posição mais “pensante”. Falei: “Não, no meio você vai jogar mais, vai organizar o time” —explica Mário Jorge.

— E ali a coisa realmente aconteceu. Acho que não errei, né?