A receita de presidentes de América Latina e Caribe para enfrentar a era Trump: mais integração regional

 

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Sete chefes de Estado de países da América Latina e Caribe e um presidente eleito que se reuniram ontem na Cidade do Panamá, no Fórum Econômico Internacional de América Latina e Caribe, defenderam a urgência de uma integração regional, diante do esvaziamento das instituições multilaterais, como as Nações Unidas, e da mudança de postura dos Estados Unidos em relação ao bloco. União comercial, minerais críticos e seu beneficiamento, a situação da Venezuela e o combate ao narcotráfico foram os temas que dominaram as falas dos chefes de Estado. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a necessidade de integração maior na região, em um contexto de “recrudescimento de tentações hegemônicas” no mundo:

—A América Latina e o Caribe são únicos. Cabe a nós assumir que a integração possível é a que estará calcada na pluralidade de opções. Guiados pelo pragmatismo, podemos superar divergências ideológicas e construir parcerias sólidas e positivas dentro e fora da região. Essa é a única doutrina que nos convém. Seguir divididos nos torna todos mais frágeis. 

O presidente-executivo do CAF, banco de desenvolvimento da América Latina e Caribe, Sérgio Diaz-Granados, lembrou que o bloco ainda sofre com infomalidade alta, persistência da pobreza e desemprego, que dependem de uma "ação coletiva" na região.

O presidente do Panamá, José Raúl Molino, defendeu a complementaridade entre os países do bloco, destacando o “trabalho conjunto do Estado e do setor privado”. Ele ressaltou que a realidade atual é de dificuldade dos organismos multilaterais e que  somente um bloco único terá poder de negociação concreto contra “as ameaças externas”. Nesse contexto, ele lembrou que o Panamá se associou ao Mercosul no fim do ano passado. O presidente americano, Donald Trump, logo no início do seu governo, ameaçou tomar o controle do Canal do Panamá. 

—  Isso não nos apavorou, mas nos mostrou quão importante somos como uma via estratégica a nível mundial, seja para América do Norte, América do Sul, Ásia ou Europa. Temos convivido com muita tensão nos últimos anos. O comércio mundial, as importações e exportações ficam mais eficientes quando usam nosso canal, que está à disposição de todos os países. 

Segundo Mulino, somente com um bloco será possível requerer o lugar que nos corresponde como membros permanentes, e não rotativos do Conselho de Segurança da ONU, para garantir a paz do mundo.  

—O mundo está há tempos em uma tensa antessala de uma grande tormenta.  

O presidente do Panamá também defendeu a formação de um bloco único da América Latina para fortalecer o poder de negociação da região para se proteger de "possíveis ameaças".  

 Petro: ONU não reconhece genocídio em Gaza 

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, criticou a paralisia das Nações Unidos, exemplificando o esvaziamento dos organismos multilaterais com a postura da ONU diante da guerra em Gaza:

— Vemos com exatidão a crise das Nações Unidas, que ainda não reconheceu o genocídio de Gaza.  A ONU foi criada para impedir genocídio, para impedir a guerra no mundo, para construir uma paz entre as nações. 

Segundo Lula, os últimos anos foram de retrocesso na relação regional, mas não há “possibilidade” de algum país sozinho “achar que vai resolver os problemas”. 

— Nós já temos 525 anos de História, não são 525 dias, são 525 anos de História. Já fomos colonizados, recolonizados. Já tivemos independência e continuamos colonizados. Porque muitas vezes a colonização não está na intervenção de outro, está na formação cultural que o nosso povo teve. Temos que mudar de comportamento. 

Segundo Lula, houve retrocessos na integração regional:

—A breve experiência da Unasul (união criada para promover o comércio formado por 12 países da América do Sul entre 2003 e 2014) sucumbiu ao peso da intolerância que impediu a convivência de visões diferentes. Voltamos a ser uma região dividida, mais voltada para fora do que para si própria. Permitimos que conflitos e disputas ideológicas alheios se imponham. As ameaças do extremismo político e da manipulação da informação se incorporam ao nosso cotidiano. 

Em uma referência indireta à intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, o presidente brasileiro afirmou que a “história mostra que o uso da força jamais pavimentará o caminho para superar as mazelas que afligem” o hemisfério. 

— A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos históricos. Entre tantos corolários e doutrinas que nos foram dedicadas ao longo da história, também houve momentos em que os Estados Unidos souberam ser um parceiro em prol dos nossos interesses de desenvolvimento — afirmou Lula, citando Franklin Roosevelt, que, segundo ele, substituiu a intervenção militar pela diplomacia. 

Petro afirmou que não está defendendo, "como diz a imprensa", o agora ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, capturado pelos Estados Unidos e que vai ser julgado no país, mas afirmou que ele “deve ser julgado por um tribunal na Venezuela ou por um "tribunal que reúna as três Américas”.  

O presidente da Colômbia defendeu uma integração policial na América Latina e Caribe para combater o narcotráfico:

— É uma coisa que está crescendo, crescendo. A cocaína vendida na fronteira da Venezuela não é da Colômbia, é multinacional, tem colombianos, venezuelanos, franceses, libaneses, norte-americanos. Sem essa integração policial, inclusive com os Estados Unidos, não conseguiremos vencer o narcotráfico. 

Para José Antonio Kast, presidente eleito do Chile, a América Latina e o Caribe não estão condenados ao fracasso econômico e à violência. E como Petro, ressaltou o caráter global do crime organizado, defendendo uma ação coordenada: 

—Sem segurança, a democracia é uma ficção. Sem segurança, a liberdade é um privilégio para poucos. Sem segurança, não temos investimento, emprego ou futuro. Não é problema local, é ameaça regional. Frente a isso precisamos de cooperação duradoura e efetiva, com inteligência compartilhada. 

Modelo próprio 

Segundo Lula, é necessário pensar em um regionalismo "possível" para América Latina e para o Caribe, sem importar modelos que não refletem a realidade local. 

— Devemos olhar para a União Europeia como uma referência positiva, mas sem ignorar todas as diferenças históricas, econômicas e culturais. O peso das identidades nacionais torna inviável a curto prazo qualquer projeto de envergadura parecida com o europeu. 

Lula afirmou que ainda falta às líderes regionais uma convicção de um projeto mais autônomo "de inserção internacional". Ele citou o potencial energético, as condições climáticas para produção de alimentos e a abundância de recursos minerais, inclusive minerais críticos e terras-raras.

—Por que falamos tanto de terras raras e minerais críticos? Para exportarmos o material bruto, para ser transformado nos outros países, e a gente comprar a peso de ouro. Só tem sentido para enriquecer nos nossos países, se construir parcerias para serem empresas nos nossos países, gerar empregos e desenvolvimento nos nossos países. 

Mulino ressaltou as vantagens da região, como a produção de alimentos, as reservas hídricas, a biodiversidade, a abundância de minerais e de recursos temporários. 

Ao discursar, o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz Pereira, afirmou que encontrou no Fórum no Panamá o diálogo que não se fez presente em Davos, na Suíça (onde acontece o Forum Econômico Mundial que reúne participantes de todos os países, principalmente os desenvolvidos). E se dirigiu aos líderes dos outros países presentes:

—A Bolívia só será viável se vocês forem viáveis. Se nós estivermos bem, todos vão estar bem. Temos a capacidade das nossas culturas e democracias. A América Latina tem que fazer parte do comando das forças geopolíticas.  

Os presidentes do Equador, Daniel Nóboa, da Guatemala, Bernardo Arévalo, e o primeiro ministro da Jamaica, Andrew Holness, reforçaram a necessidade de integração e citaram exemplos de avanços sociais com redução da pobreza.